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Historieta – Um vulto à espreita a me observar

(Gostou? veja também: Lembranças)

I – O porta-retratos
O que quero dizer é muito importante. Entre fotos espalhadas pelo chão vi, em uma especificamente, sua imagem refletida. Lá estava você, em um porta-retratos bem ao fundo, sobre uma mesinha de madeira envelhecida, ao lado de uma vitrola antiga. Mas era apenas um reflexo. Sem entender, afoito, à sua procura, não me contive, vasculhei, uma a uma, cada fotografia. Separei as que contavam histórias passadas naquela sala, em todas sua imagem aparecia refletida, agora não apenas em um, mas em todos os vidros dos porta-retratos espalhados naquele espaço.

II – A vitrola
O que quero dizer é muito importante. Não tinha percebido quantos porta-retratos havia naquela sala, nem que sobre a mesinha repousava uma vitrola antiga. Não lembrava que gostava de música e que sempre ao chegar em casa, cansado do trabalho, tirava os sapatos, escolhia um disco e me jogava no sofá. Naquele momento, estranhamente sentindo a sua presença, era só aconchego. Entre tantas fotografias reviradas ao chão, antes esquecidas nas gavetas e em velhos álbuns de fotografia, só agora percebo nelas o seu reflexo, esteve aqui todo o tempo e eu podia sentir, apenas não entendia.

III – A mesinha de madeira envelhecida
O que quero dizer é muito importante. Acreditava estar só, mas ainda assim sentia sua presença, procurava sem encontrar. Voltando minha atenção para aquela mesinha de madeira envelhecida, veio a lembrança de momentos de felicidade. Deixada na casa pelos antigos moradores, aquela mesinha devia conhecer muitas histórias passadas naquela sala. Serviu de apoio para muitos porta-retratos. Naquele dia eu estava só como de costume, mas sentia sua presença muito forte, cheguei em casa, retirei os sapatos deixando-os jogados, joguei as chaves sobre a mesa sem prestar muita atenção nos meus gestos. Liguei a vitrola, sem perceber qual o disco estava tocando. Lembro que segurei o porta-retratos por um instante, sem entender a razão daquele gesto. Olhei, mas nada vi além da paisagem por trás daqueles rostos esbanjando uma falsa felicidade. Ao voltar o porta-retratos para a mesinha de madeira envelhecida, estranhamente senti a sua presença, mas não o vi.

IV – A sala
O que quero dizer é muito importante. Dentre todos os porta-retratos espalhados pela sala, aquele em especial chamava a minha atenção, pois estava em frente ao sofá. Enquanto escutava a música tocando na vitrola, aquela melodia relaxante, na penumbra eu observava os detalhes daquela sala, não eram muitos, poucos eram os móveis, a parede era sem cor, os quadros não tinham expressão, faltava algo. Tantos porta-retratos espalhados não ajudavam a dar brilho e sentido àquele espaço. No meio de todo aquele cenário desolador, bastava o sofá, a vitrola e o porta-retratos à minha frente para sentir a sua presença e, naquele instante, por alguns minutos me transportava para um lugar que era só aconchego e de onde não queria mais voltar. 
V – Sua imagem
O que quero dizer é muito importante. Olhando todas as fotografias espalhadas pelo chão, percebi que todo este tempo me alimentei do seu reflexo. Aquela música que sempre tocava na vitrola antiga, que ficava repousada na mesinha de madeira envelhecida era para você. Agora percebo e posso entender aquele sentimento de felicidade. Fazíamos companhia um ao outro. Tímido, era um vulto à espreita a me observar e isto sempre foi muito importante e ainda é.
(GeraldoCunha/2017)

Por Divagações.GeraldoCunha

Escrevo. A escrita me liberta. Sei que serei lido, por alguns ou por muitos, ainda que não seja compreendido por todos, mas isso não é o mais importante. Ao escrever deposito nas letras minhas alegrias, tristezas e me liberto dos sentimentos que povoam minha mente, dando espaço para outros ocuparem esse lugar. Assim vou vivendo. Às vezes escravo de meus pensamentos, às vezes liberto.

3 respostas em “Historieta – Um vulto à espreita a me observar”

Que texto gostoso de ler, essa tensão fantasmagórica sobre a perspectiva de cada objeto, o anseio por que se revele a identidade dessa figura refletida. Refletida! Só pode ser o que está presente, não ou que foi passado, uma presença muito forte e importante. Só pode ser um tipo de amor próprio. E ainda que sobre a conclusão de um estado narcísico, a suspeita de que haja algo a mais… Antes, uma companhia real e física que então se ausenta? Cônjuge, amigo, uma relação filial? Talvez o fantasma de um defunto — ou não de um defunto, de um morto-vivo! Memórias! Lembranças!
Reli umas 3 vezes. Vou embora com a sensação de ter encontrado alguma coisa muito importante por não ter descoberto nada. O fragmento do grande mistério.

Obrigado por isso!

Curtido por 1 pessoa

Que excelente interpretação deste meu conto! Já fazia um tempo que eu não o revisitava. Nesta viagem pelas fotografias na percepção dos objetos tem de tudo um pouco, dos fantasmas que nos rodeiam, dos amores, das saudades, das paixões, da solidão, a companhia. Muito gratificante que o texto tenha causado tantas percepções. Enfim a vida não é um grande mistério.? Obrigado Eu.

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