Alto-falante


(Ensaio/experimento da Oficina O Cinema da Escrita)
Sentando na varanda. Ouve-se um som contínuo de um alto-falante. Alguém aos berros. Como se precisasse do equipamento. Levanto a cabeça. Posiciono os ouvidos de um lado. Nada. Vou para outro lado. Ainda não se entende. Não se sabe o que grita. Mas não para. Neste tempo de ajeitar os ouvidos pensa-se em tudo. Pode ser uma passeata. Há muitas nos dias de hoje. No passado também havia. Não. Não é. Não são palavras de protesto. O livro foi abandonado na poltrona. Insisto em ouvir. Ele em gritar. Não é o músico do prédio de frente. Não ouço violino. Quando há música sempre há violinos. E piano. Não. Não é. Acostumados os ouvidos. Escuto: “olha os morangos, morangos graúdos, quem vai querer, 3 por 10, tá barato freguês”.

(GeraldoCunha/2019)

Anúncios

Flash Back

(série: Ensaios/experimentações – poema produzido na Oficina O Cinema da Escrita)
•••
A câmara no meio da rua registra. De um lado, botas brancas em foco. Passos nervosos. Dividida a tela, do outro lado, óculos escuros. Em movimentos tensos. O plano é fechado. O sol teima em brilhar. Caminham na mesma direção. De lados opostos do passeio. Cruzam a câmara que se desloca rapidamente. À frente o letreiro anuncia. Love Store – Uma História de amor. Ao fundo já se houve ao piano “theme from love story”. Do lado de fora a trilha sonora é outra. Som dos carros, buzinas, apitos, a criança que chora. Bilhete entregue ao olhar desatento do lanterninha. Cabeça baixa. Agora em plano aberto caminha. Por detrás a cortina vermelha que se fecha. À frente a câmara vai em direção às cadeiras vazias. Na penumbra só uma ocupada. Desfaz-se do lenço que protegia. Senta ao lado, se olham discretamente. Corte para as mãos que se tocam. Alianças esquecidas. Voltam ao passado. A câmara passeia pelas paredes manchadas e do fundo se projeta para a tela. Os protagonistas se beijam. O filme já vai terminar.

(GeraldoCunha/2019)

Historieta – Um vulto à espreita a me observar

(Gostou? veja também: Lembranças)

I – O porta-retratos
O que quero dizer é muito importante. Entre fotos espalhadas pelo chão vi, em uma especificamente, sua imagem refletida. Lá estava você, em um porta-retratos bem ao fundo, sobre uma mesinha de madeira envelhecida, ao lado de uma vitrola antiga. Mas era apenas um reflexo. Sem entender, afoito, à sua procura, não me contive, vasculhei, uma a uma, cada fotografia. Separei as que contavam histórias passadas naquela sala, em todas sua imagem aparecia refletida, agora não apenas em um, mas em todos os vidros dos porta-retratos espalhados naquele espaço.

II – A vitrola
O que quero dizer é muito importante. Não tinha percebido quantos porta-retratos havia naquela sala, nem que sobre a mesinha repousava uma vitrola antiga. Não lembrava que gostava de música e que sempre ao chegar em casa, cansado do trabalho, tirava os sapatos, escolhia um disco e me jogava no sofá. Naquele momento, estranhamente sentindo a sua presença, era só aconchego. Entre tantas fotografias reviradas ao chão, antes esquecidas nas gavetas e em velhos álbuns de fotografia, só agora percebo nelas o seu reflexo, esteve aqui todo o tempo e eu podia sentir, apenas não entendia.

III – A mesinha de madeira envelhecida
O que quero dizer é muito importante. Acreditava estar só, mas ainda assim sentia sua presença, procurava sem encontrar. Voltando minha atenção para aquela mesinha de madeira envelhecida, veio a lembrança de momentos de felicidade. Deixada na casa pelos antigos moradores, aquela mesinha devia conhecer muitas histórias passadas naquela sala. Serviu de apoio para muitos porta-retratos. Naquele dia eu estava só como de costume, mas sentia sua presença muito forte, cheguei em casa, retirei os sapatos deixando-os jogados, joguei as chaves sobre a mesa sem prestar muita atenção nos meus gestos. Liguei a vitrola, sem perceber qual o disco estava tocando. Lembro que segurei o porta-retratos por um instante, sem entender a razão daquele gesto. Olhei, mas nada vi além da paisagem por trás daqueles rostos esbanjando uma falsa felicidade. Ao voltar o porta-retratos para a mesinha de madeira envelhecida, estranhamente senti a sua presença, mas não o vi.

IV – A sala
O que quero dizer é muito importante. Dentre todos os porta-retratos espalhados pela sala, aquele em especial chamava a minha atenção, pois estava em frente ao sofá. Enquanto escutava a música tocando na vitrola, aquela melodia relaxante, na penumbra eu observava os detalhes daquela sala, não eram muitos, poucos eram os móveis, a parede era sem cor, os quadros não tinham expressão, faltava algo. Tantos porta-retratos espalhados não ajudavam a dar brilho e sentido àquele espaço. No meio de todo aquele cenário desolador, bastava o sofá, a vitrola e o porta-retratos à minha frente para sentir a sua presença e, naquele instante, por alguns minutos me transportava para um lugar que era só aconchego e de onde não queria mais voltar. 
V – Sua imagem
O que quero dizer é muito importante. Olhando todas as fotografias espalhadas pelo chão, percebi que todo este tempo me alimentei do seu reflexo. Aquela música que sempre tocava na vitrola antiga, que ficava repousada na mesinha de madeira envelhecida era para você. Agora percebo e posso entender aquele sentimento de felicidade. Fazíamos companhia um ao outro. Tímido, era um vulto à espreita a me observar e isto sempre foi muito importante e ainda é.
(GeraldoCunha/2017)

Crônica de um sujeito sem rumo – insônia

Fazia planos todas as noites, esperando começar a realizá-los logo que o dia amanhecesse.Mas o sono não vinha, se vinha era por pouco tempo, sobrava tempo para mais reflexões.

Mais planos eram idealizados, diante da percepção de que muito ainda podia ser feito para alterar por completo aquela vida que estava ali, por tanto anos, parada, no mesmo lugar, sabotando qualquer tentativa de fazer diferente.

Amanheceu. Agora sonolento pela noite mal dormida, já não se lembra de todos os planos traçados, os poucos que se recorda pensa que podem ficar para outro dia, o sono tardio convida a ficar na cama.

Desperto, já tarde do dia, percebe que nada mudou, acordou, tomou café, ouviu a música de sempre, comeu a refeição e deitou novamente, depois de tentativas de sair daquela rotina.

Já não importavam os planos traçados na noite anterior. Dentre os poucos de que ainda se recorda, para cada um, uma desculpa para começar a colocá-los em prática mais tarde.

Com a tarde indo embora e a noite querendo se mostrar, percebe-se sem rumo. Nada fez, permitiu que a vida continuasse exatamente como está. Fez um lanche, comeu uma fruta e tomou um gole de café.

Em frente à televisão hipnotizado e sem esperança, fazendo-se acreditar que os planos não eram para hoje e que poderiam ser colocados em prática amanhã, quando aquelas desculpas já não fizessem mais sentido e outras não pudessem ser inventadas, espera por nada, até a hora de tomar um copo de leite e deitar novamente.

Anoiteceu, deitado, é hora de refazer os planos, pensar nos motivos e desculpas que impediram fossem realizados e ter esperança de que estes novos planos lhe darão um rumo diferente, mas o sono não vem.

(Geraldocunha/2017r)

Novela da Vida Real – Uma ficção …FIM (que poderá  ser um começo)

CAPÍTULO FINAL

Dizendo-se já com saudades, foram dormir, …apaixonados… . Entre um “oi”, um “olá”, um “estou com saudades” acompanhado de um “eu também” as semanas foram passando. Padaria, semáforo, coletivo, vitrine, biblioteca e o rotineiro “boa noite”. Confortáveis naquela relação, chegou um momento em que não conversavam mais, naquele vazio tiveram tempo de, ao atravessarem a rua, trocarem olhares discretos e tímidos sorrisos, mais foi só, sempre seguiam cada um seu rumo. Desesperançosos e desacreditados perceberam que, apagadas as conversas, não restavam lembranças, sem rostos definidos, aquele romance parece nunca ter existido, sobrou tempo para o amor real, que poderia estar naquela padaria ou mesmo no coletivo ou quem sabe entre as prateleiras da biblioteca, à distância apenas de um “oi”.

***F I M***

(Amigos, esta crônica foi uma pequena experiência, uma ousadia para, no futuro, quem sabe, desenvolver textos mais aprofundados, assim, sua opinião é muito importante para mim, obrigado a todos que acompanharam a trajetória destas duas pessoas que, não se enganem, acreditam no amor)

Novela da Vida Real – Uma ficção continua…

CAPÍTULO 7
Continuavam apaixonados, mas, no conforto desta relação, as conversas foram se espaçando. Já não iam todos os dias à biblioteca, por isso combinavam de se falar no dia seguinte. Já não nutriam aquela ansiedade e expectativa do encontro, sabia que estariam ali, à distância apenas de um teclado, o amor podia esperar. Já sabiam que estavam enamorados e que aquela paixão se transformou em um relacionamento estável e confortável que poderia ceder espaço para outros compromissos. O já foi lhes afastando, já e já e já era! Em um dia como outro qualquer, acordaram, arrumaram o material nas mochilas, passaram na padaria, o pão na chapa, para surpresa do atendente, foi substituído por pão de queijo, acompanhado de uma xícara de café puro. Sentaram-se, olharam-se, mas não se viram, o pensamento estava longe. Como que por obrigação, se conectaram e trocaram um “oi”, seguido de um “até daqui a pouco, estamos atrasados”, acompanhado de mútua concordância e um #eutiamo.O dia passou, à noite chegou e, como combinado, conversaram sobre o dia e sua rotina. Dizendo-se já com saudades, foram dormir, … apaixonados…

CAPÍTULO FINAL

Dizendo-se já com saudades, foram dormir, …apaixonados…

Novela da Vida Real – Uma ficção continua…

CAPÍTULO 6

Estavam apaixonados e iriam se conectar, chegaram ao restaurante afastados apenas por alguns pouco minutos, distraídos serviram-se como de sempre, não havia tempo para novidades gastronômicas, a expectativa era o encontro marcado, seria o primeiro almoço juntos. O restaurante era pequeno, aconchegante, de decoração acolhedora, daqueles que convidam o amor a sentar à mesa. No entanto, a seu modo, escolheram mesas próximas e sentaram-se, mas não trocaram olhares, o pensamento estava no encontro virtual. Logo colocaram os pratos de lado e se reconectaram, não havia pressa, não estavam com fome. Assunto nunca faltava e sem perceberem o tempo marcou presença, era preciso seguir com suas vidas. A tarde veio, acompanhada ao longe pela noite que logo lhe alcançou. Era momento de voltarem para suas casas, desde o almoço não se falavam e a distância era angustiante, tantos assuntos não foram concluídos, quantos outros surgiam em suas mentes e motivavam sorrisos solitários. Era preciso observar o semáforo ao atravessarem a rua e também o número do ônibus que os levariam às suas casas, tudo o mais não tinha importância. Estavam lado a lado, tão apaixonados que não se preocuparam com detalhes pessoais, nem mesmo pensaram em marcar um encontro real. Os dias foram passando, as noites chegavam e iam, já eram virtualmente íntimos, suas vidas estavam entrelaçadas. Foi o que pensaram, era o que bastava e os satisfazia. Continuavam apaixonados, mas, no conforto desta relação, as conversas foram se espaçando.

CAPÍTULO 7

Continuavam apaixonados, mas, no conforto desta relação, as conversas foram se espaçando…