Ser feliz dá medo

Acordei tão bem
Que até me dá medo.
Não me assustei
Com a figura no espelho.

Ser feliz dá medo…
Vai que se acostuma!

Achei graça
Da camisa do avesso.
Fosse ontem rasgava
Hoje saio sem embaraço.

Ser feliz da medo …
Vai que se acostuma!

Não me aborreci
Com a buzina arrogante
Que de tão insistente
Em canto se transformara.

Ser feliz dá medo…
Vai que se acostuma!

Estranhei tantos sorrisos
Sem receio revidei.
Não tive vergonha
Do abraço inesperado.

Ser feliz dá medo…
Vai que se acostuma!

(GeraldoCunha/2019)

Tempo do esquecimento


A falta de tempo é desculpa.
O relógio encurta as horas,
Vinte e quatro horas são doze,
Doze horas são nada.
E a sobra do tempo
Escondida debaixo do tapete!

É quando dizer saudade não basta.
É quando amor vira obrigação.
É quando estar já não é opção.

Quando já não faz falta,
O atropelo do dia é resposta,
Dias viram semanas,
Semanas correm aos meses.
O calendário se risca sozinho
E os anos trazem esquecimento!

(GeraldoCunha/2019)

Melancolia

Estou triste!
Minha tristeza não se traduz em palavras.
As que surgem logo derretem
Em lágrimas se põem a afogar!

As mãos trêmulas,
Rasuram frases no ar.
Não caibo neste lugar!

Estou triste!
Quero fugir de mim mesmo e não voltar.
Não quero me ver estar
Invejo os mortos!

A alegria outrora,
De agora não me alcança.
Preciso respirar!

Estou triste!
Não há abraço que me conforte.
Se o tenho me sinto sufocar
Vago no profundo!

Os passos seguem ermos,
Cego em meu corpo exílio.
Melancólico me ponho a rezar!

(GeraldoCunha/2019)

Sentidos turvos

Estamos surdos.
Inebriados pelos pensamentos,
Ignoramos!
Não ouvimos o trovão
E a chuva passa!

Estamos cegos.
Encantados pelo reflexo,
Iludimos!
Não vemos a escuridão
E pisamos nos cacos!

Estamos anosmáticos.
Camuflados por aromas,
Sufocamos!
Não apreciamos os jardins
E as flores secam!

Estamos insossos.
Paranóicos com os padrões,
Devoramos!
Não sentimos o paladar
E a maçã está podre!

Estamos mudos.
Amordaçados pelas convicções,
Reprimimos!
Não gritamos por socorro
E a vida passa em silêncio!

(GeraldoCunha/2019)