Poema furtado


(Gostou? escrevi também um Poema para você)…
Estes versos que escrevi não são meus,
Foram por mim atrevidamente furtados,
Nos momentos em que você observava a lua,
Enquanto riscava com os pés a areia da praia,
Deixando se levar pelo barulho das ondas.

Sem que percebesse sequestrava cada instante,
Traduzindo em palavras os gestos ensaiados,
Esculpindo em versos os movimentos desacelerados,
Desenhando em frases os sorrisos despreocupados,
Criptografando os olhares para só a mim serem revelados.

Mesmo sabendo que pela lua serei denunciado,
Não me importarei de ser interrogado,
Nem mesmo me preocuparei se for condenado,
Só não quero saber de ser posto em liberdade,
Do contrário pelo mesmo crime serei condenado.

(GeraldoCunha/2018)

Pássaro liberto


(Gostou? em setembro 2017 escrevi sobre a Noite) …
Há uma gaiola
A aprisionar
Grades de ferro
Anilhas de aço
Mordaças de metal

Impondo limite
Destruindo sonho
Sufocando desejo
Alimentando descrença
Abafando o cantar

Há um pássaro
Preso em meu peito
E quer cantar
E quer voar
E quer se libertar

Rasgando o peito
Explodindo no céu
Soprando as nuvens
Invadindo o sol
Vibrando no espaço

(GeraldoCunha/2018)

Suave absurdo


(gostou? veja também: Envolver)…
Suave acariciar das mãos em pétalas aveludadas
Rosas repousadas em torrão cultivadas
Protegidas por espinhos a intimidar
Defloradas rasgando a pele
Na intenção de partilhar
Sangradas
Suaves
Nuas
Aveludadas
Pétalas rasgadas
Nas mãos acariciadas
Abusadas as rosas encarnadas
Nesse bem me quer…mal me quer
Suavemente cultivadas e desfloradas
Latejantes espinhos e pétalas sangrados
Pelo absurdo violentar só para no último ato revelar
(GeraldoCunha/2018)

Escuto o tempo


(Gostou? veja também: Tudo está parado)…

Escuto o tempo passar!

É o ócio,
Horas de relaxamento.
O som do tempo é o silêncio.
Que acolhe,
Que acalma.

É o tempo do vazio.
É o tempo do não pensar.
É o tempo do realinhar.

Escuto o tempo passar !

É a tormenta.
Horas de inquietação.
O som do tempo é o alarido.
Que transtorna,
Que atordoa.

É o tempo que grita.
É o tempo que incomoda.
É o tempo que cala.

E o tempo calmo ou atordoado se desfaz nas horas!

Em fragmentos de pensamentos.
Revelando,
Construindo,
Renovando.

Escuto! O tempo sempre a falar.

Cadê meu analista? – reeditado


(Gostou? veja também: Não entendo!…)
Quero falar,
Não quero ser confrontado.
Quero ser ouvido,
Não quero ser subestimado.
Quero ser compreendido,
Não quero ser julgado.
Quero ser instigado,
Não quero ser convencido.
Quero ser motivado,
Não quero ser empurrado.
Quero ser acalmado,
Não quero ser dopado.
Quero ser acalentado,
Não quero ser protegido.
Quero ser percebido,
Não quero ser suportado.
Quero o tempo que necessito,
Não quero hora marcada.
(GeraldoCunha/março2017)

Saudade é não poder voltar


(Gostou? veja também de 2014: impuro e virtuoso)
É sombra que não se alcança.
Fumaça que se dissipa com o vento.
É vento que sopra o arrepio na nuca.
Calafrio em quarto escuro.
É desejo que não pode ser atendido.
Realidade escapando entre os dedos.
Uma cama vazia.

É sentir a presença na ausência.
Reflexo abandonando o espelho.
É roupa suja que foi largada.
Passos que vão sendo apagados.
É silêncio que se ouve mais que grito.
Murmúrios que se vão abafando.
Uma porta trancada.

É angústia pelo que não foi dito.
Arrependimento que não permite o perdão.
É uma toalha sobre a cama molhada.
Espelho ainda embaçado.
É solidão depois de uma madrugada.
Liberdade de quem não se quer liberto.
Um chaveiro deixado.

É explosão contida de sentimento.
Garrafa pela metade.
É fogueira que queima sem chama.
Lareira com fogo apagado.
É olhar que se fixa no teto.
Pergunta sem resposta sem nada.
Um copo estilhaçado.

É mensagem não respondida.
Poema não compartilhado.
É palavra nunca lida.
Papel embolado jogado.
É não sentir o chão com os pés.
Rosas esparramadas na escada.
Um vaso quebrado.

(GeraldoCunha/2018)

Divagação 69

Gostou? Veja também: Divagação 01
Passado, são as pegadas que vou deixando para trás e que vão se apagando aos poucos enquanto, no presente, sigo a passadas, vagando e divagando, perseguindo o futuro, que quando encontro já é novamente passado. Enquanto isto, no céu observo pirilampos que me perseguem!

(GeraldoCunha/2018)

Poema duplo em oração


(Gostou? veja também: Cadê você? )

Quebra-me as barreiras.
          Invada o meu espaço.
Liberta-me desta opressão.
          Não desista na hesitação.
Agarra-me a mão.
          O que vejo é só escuridão.
Olha-me nos olhos.
          Faça eu enxergar.
Mostra-me a luz.
          Dê motivos para acreditar.
Suplanta-me os medos.
          Só sinto a sua presença.
Afaga-me o peito.
          É o conforto de que preciso.
Afoga-me com manto de proteção.
          Nutri o meu espírito de ar.
Devolva-me a paz.
          Neste momento de devoção.
Sossega-me a alma.
          Acomoda meus pensamentos.
Abranda-me a dor.
          Traz alívio a meu sofrimento.
Alivia-me das angústias.
          Acalma minha inquietações.
Alimenta-me de esperança.
          Seja apoio para eu seguir.
Restaura-me a fé.
          Abra os meus caminhos.
Faça-me companhia.
          Venha comigo em oração.

…hoje eu quis fazer uma prece – poema duplo em forma de oração – em agradecimento ao universo, em especial ao seres que o habitam.

(GeraldoCunha/2018)

Verso e reverso


(Gostou? veja também: Crônica de um sujeito sem rumo)

Gosto do reverso.
De falar do bem, referindo-se ao mal.
Falar de beleza, pela beleza que é, é fácil!
Difícil é reafirmar o belo pelo olhar de quem só vê feiura.
Ver a alegria, através daquele que só quer sentir dor.
Gosto mesmo do verso, escrito pelo reverso.

Gosto do reverso.
Da escrita que choca, mas que só quer transmitir candura.
Palavras doces ou são fartas de rimas ou são poesias por si!
Difícil é fazer emocionar com palavras de rancor.
Pedem complementos, querem compaixão.
Gosto mesmo do verso, escrito pelo reverso.

Gosto do reverso.
Do lado oposto ao que se apresenta.
O óbvio já foi por tantos traduzido!
Difícil é o revés que esconde mistérios.
Sombra que assusta, até revelar sua face.
Gosto mesmo do verso, escrito pelo reverso.

(GeraldoCunha/2018)

Sobre borboletas, sobre você


(Gostou? veja também: Lágrimas)

Nunca escrevi poemas sobre borboletas.
Que de crisálidas emergem com simétricas asas de seus casulos.
Que belas voam deliberadamente repaginando o céu.
Que em busca do néctar polinizam flores vermelhas e brancas.

Nunca escrevi poemas para borboletas.
Que povoam meus pensamentos fazendo de mim seu jardim.
Que repousam nos meus braços como tatuagem.
Que reviraram meu estômago quando te conheci.

Foi quando percebi…

Nunca escrevi poemas sobre você.
Que, como as borboletas, significa minha transformação.
Que, como as borboletas, embeleza e alegra a minha vida.
Que, como as borboletas, simboliza minha renovação.

Nunca escrevi poemas para você.
Que feito borboletas deu asas aos meus pensamentos.
Que feito borboletas deu colorido aos meus sentimentos.
Que feito borboletas deu significado ao meu viver.

“Segundo a cultura popular, o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo”

(GeraldoCunha/2018)

Mais sobre o tempo (ou a aclamada falta dele)


(gostou? Veja também: Ainda é tempo e
Nessa de não ter tempo)

Nessa de não ter tempo.
O tempo passou.
Passou eu.
Passou você.
Passamos nós.

Nessa de não ter tempo.
O tempo cansou.
Cansou de mim.
Cansou de você.
Cansamos de nós.

Nessa de não ter tempo.
O tempo calou.
Calou a mim.
Calou você.
Calamos nós.

Nessa de não ter tempo.
Passamos a não existir.
Cansamos de insistir.
Calamos nossas vozes.
Deixamos o tempo esvanecer.

(GeraldoCunha/2018)

A face – reeditado


(Gostou? veja também: Olhar para o teto)

A face
Fascina
Mostra verdades
Insinua prazeres
Desnuda intenções
Abranda o tempo

A face
Encanta
Disfarça sentimentos
Esconde mentiras
Demonstra desprezo
Condena desejos
Revela o tempo

(piblicado originalmente em 2016)

Olhares lascivos


(Gostou? Veja também: Caliente e Paixão)

Cruzados olhares tímidos.
Timidamente envergonhados.
Vergonhosamente desviados.
Desviados insistentes.
Insistentemente implorados.

Explorados olhares mútuos.
Mutuamente implorados.
Implorados sutilmente.
Sutilmente fixados.
Nunca mais desgrudados.

Eternos olhares apaixonados.
Apaixonadamente deliberados.
Deliberadamente provocados.
Provocadoramente entregues.
Sucumbidos ao prazer.

Revirados olhares excitados.
Excitadamente consumados.
Consumadamente acanhados.
Acanhadamente saciados.
Largados com tanto mais querer.

(GeraldoCunha/2018)

Balança – penitência da segunda-feira


(Gostou? veja também Percurso e chegada)///

(Poema para a semana começar mais leve…)

Assassina de sonhos.
Destruidora de desejos.
Acumuladora de frustrações.
Reveladora das ansiedades.
Não seja vingativa.

Por um momento seja cúmplice.
Esqueça as pequenas fraquezas.
Traga alento onde se vê desolação.
Recompensa este ser perseverante.
Faça justiça ao mínimo que foi esforço.

Não guarde remorso pelo erro alheio.
Transforme consolo em motivação.
Não carregue consigo este peso.
Mas também não o devolva pela culpa.
Não permita que a descrença afaste a intenção.

(GeraldoCunha/2018)

Sem vergonha


(Gostou? veja também: Tempo de festejar)…
Quero não ter vergonha de sorrir.
Quando a alternativa seria chorar.
Que me depreciem por isso.
Eu não vou ligar.

Quero não ter vergonha de gargalhar.
Quando a opção seria me conter.
Que me castiguem por isso.
Eu não vou relutar.

Quero não ter vergonha de silenciar.
Quando o necessário seria gritar.
Que me critiquem por isso.
Eu não vou questionar.

Quero não ter vergonha de mim.
Quando o outro desviar o olhar.
Que me respeitem por isso.
Eu não vou me julgar.

Quero não ter vergonha alheia.
Quando outros assim se comportarem.
Que eu também os respeite por isso.
Eu não vou julgar.

(GeraldoCunha/2018)

Divagação 68

Já não danço, meus pés estão fincados no chão, mas deles não crescem raízes, nem florescem os galhos, meu corpo um tronco agarrado ao chão, já não corro.

Gostou? veja também: Divagação 01
(GeraldoCunha/2018)