Lábios secos


Com os lábios secos
As primeiras palavras não saem
A boca presa à garganta cala
As palavras exiladas percorrem o corpo
E derramam pelas mãos trêmulas
Em rabiscos generosos se libertam
Nutrem o corpo
Umedecem a língua
Que passeia entre os lábios
Antes secos
Agora umedecidos
Deixando escapar a última que falta ao poema
Mas que o poeta em um assombro de egoísmo
Guarda para si
Ou para outro poema

(GeraldoCunha/2020)

Divagação 84


Nos fazem acreditar em coisas que não somos
E quase sempre somos nós que só acreditamos em coisas
Ser… coisa…ser
Nos … desata!
(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Deixe-se levar


Vamos, é a nossa música!
Nós não temos uma música.
Agora temos.
Não sei dançar.
Siga meus pés.
E se eu pisar nos seus?
Eu te carrego pelo salão.
(Um respiro)
Deixe-se levar aos rodopios.
Posso cair.
Eu te seguro no segundo antes do chão.
Mas…
(O corpos se entrelaçam mais forte)
Não tenha medo, entregue-se.
Não tenho.
(Sussurros ao ouvido)
Então feche os olhos.
Já estavam fechados.
Os meus também.
(Suspiros)
(Rodopios)
(Mais rodopios)
(Pausa)
A música parou de tocar.
Mesmo? Não percebi.
Faz mais de uma hora.
Não escutei o tempo parar.
Não abra os olhos.
Deixe-se levar.

(GeraldoCunha/2020)

Série poema curto – Paradoxo


Não ontem
Não mais cedo
Agora
Sou
Uma
Peça
Mínima
Nesta engrenagem
Substituível
Não daqui a pouco
Não amanhã
Agora
Olho
Para
Os lados
Só vejo
As cinzas
Uma semente
Terra
Água

(GeraldoCunha/2020)

Estatística (vale a pena publicar de novo)


Para muitos sou apenas estatística.
Faço parte daquele grupo de 10% de alguma coisa.
Estou entre os que contribuem com 30% para alguma coisa.
Pertenço a uma categoria que corresponde a 80% de alguma coisa.

Para muitos sou apenas o que diz minha ficha técnica.
Não tenho nome, apenas um número que me identifica e me difere.
Não tenho sobrenome, apenas um diagnóstico do que estou sentindo.
Não tenho codinome, apenas um receituário que não tem rosto.

Para muitos sou apenas mais um.
Que anda pelas calçadas forçando o desvio.
Que apressadamente ocupa a única cadeira desocupada.
Que inadvertidamente lança um olhar que intimida.

Para muitos sou apenas um gráfico.
Numa escala de um a cem, sou qualquer número.
Entre duas linhas, vertical e horizontal, estou para mais ou para menos.
Numa reta, oscilo entre altos e baixos.

Para muitos sou apenas estatística.
Para mim sou corpo e mente.
Para muitos sou apenas ficha técnica.
Para mim sou nome e sobrenome.

Para muitos sou apenas mais um.
Para mim sou um a mais.
Para muitos sou apenas um gráfico.
Para mim sou representatividade.

(GeraldoCunha/2017)

Enquanto isso…


Coelhinho da Páscoa não bota ovo
Só esconde os ovos no jardim
E é verdade que são de chocolate
E eu não gosto é do recheio e de Natal

Papai Noel não desce pela lareira
Vem pela porta da frente
Deposita o presente sob a cama
Eu não vi pois estava sonhando

Sonhando com os duendes
Mas eles não vivem nas florestas
Habitam o pote de doces na cozinha
Foi um quem me contou

E eu guardo seu segredo
Em troca de guloseimas
Que a fada dos dentes não me veja
Ou me manda para a terra dos gigantes

E continua …na terra do nunca!

(GeraldoCunha/2020)

4 anos de blog – agradecimento

Vai passar

Ainda não passou,
Mas gostaria de me antecipar
Para agradecer
A todos que estiveram comigo nos últimos meses:
Aqui, dialogando através de curtidas, comentários, trocas generosas que afastaram o frio do solitário.
Na vida, mantendo contato, escondendo suas angústias, disfarçando suas tristezas e preocupações, para confortar no distante dos braços.
É um momento de ressignificação, mas também de necessária compreensão.
Entendimento de que não somos perfeitos nas relações, nas amizades.
Somos humanos e algumas de nossas imperfeições são o nosso melhor,
Então não são imperfeições,
São apenas traços que nos diferenciam.
E está tudo certo!

… obrigado a todos de ❤️

(GeraldoCunha/2020)

Entrelinhas


É o que não foi dito
Entre o começo até o ponto final
Reticências
Frases que evaporaram
Secaram a tinta antes da impressão
Branco, branco, branco
Borrado pensamento

É o silêncio interpretado
Não compreendido
Não compreendido
Interjeição
Que precisa ser explicado
Precisa ser explicado
Interrogação
Entremeio de ausência
Espaço de alucinações

É o espaço do aposto
Em branco
Entre vírgulas
O vazio
E não se entende nada
Não se pede explanação
Fica o não dito pelo dito

É todo o pensar contido
Interrompido
O silêncio das palavras
Um livro de entrelinhas
Entre as linhas o nada
E tantos intérpretes
Sem exclamação

(GeraldoCunha/2020)

Personagens de nós mesmos


Eu sou assim!
Foi o que Eu disse.
E todos partiram!
Tentei ser outro Eu,
Para que viessem, voltassem.
Vieram, voltaram alguns… por um tempo.
Mas não queriam este Eu,
Quereriam o outro Eu antes rejeitado.
E Eu notei…
Nunca fui outro.
Aí percebi o quanto sou injusto comigo.
Não sou Eu, são os outros.
Não compreenderam a essência do personagem.
É um alivio, um alento.
E só posso pensar:
Está tudo certo, como deve ser.
É como fechar um livro e abrir outro.

(GeraldoCunha/2020)

Séries experimentações: A resposta


De qual poesia você mais gostou?
– aquela que você ainda não escreveu.
Como assim?
– assim mesmo, aquela que está por vir, que faz você vibrar a cada palavra escrita e eu posso daqui ver os seus olhos brilharem, sentir o calor do sorriso acanhado do lado esquerdo da sua boca. É tímido e lindo. E você nem me percebe, ali no outro canto, a abraçar uma xícara de chá, envolver-me em uma manta a espantar o frio a te admirar.
E eu respondo:
– Percebo, pois você é minha inspiração.
E você responde:
– e você é minha poesia.

(GeraldoCunha/2020)

Esmago


Esmago o grão com as mãos,
O cheiro de terra perfuma o ar…
De memórias!
Do mato!
Do rio!
Da chuva!
Uma fazenda,
Uma cachoeira,
Um cachorro latindo.
Um grão,
A terra,
O cheiro,
Um esmago,
O mundo!

(GeraldoCunha/2020)

Série elos – Amor virtual

Eu daqui, atravesso a tela
E digo dos nossos beijos distantes,
Ausentes dos toques dos lábios.
Mas nosso amor está mais próximo
Das palavras compartilhadas, tecladas, expondo e envolvendo nossos sentidos, nossos sentimentos;
Dos olhares que se encontram refletidos, qual espelho, e se amam intensamente, mais e mais.
Mesmo sendo através do toque do Touch na tela,
Nosso amor resiste e inside por entre os íons e ondas magnéticas do nosso computador.
Porquê, embora sem ainda termos nos tocado e nos encontrado pessoalmente o amor aconteceu!
Como dizem os poetas, quem ama, ama com o coração e ama mesmo e apesar da distância!
Contigo as minhas noites ficam prazerosamente mais longas…
E os meus sonhos mais bonitos!
A “tela” não é capaz de deter o meu bem querer!
Mesmo com uma “janela aberta” de bate-papo, uma imagem na tela, um fone no ouvido, não me bastam pra matar a saudade, a vontade de me conectar a você total e demoradamente … “Amor Virtual!”

este poema é uma parceria entre
@meus_eseus_escritos_ne &
@divagacoes.gcc.geraldocunha

Fantasminha


Quando criança brincava com meu amiguinho fantasma.
Divertidas manhãs e tardes,
Boas risadas em meio a discussões sem sentido,
Que acabavam em mais risadas.
Eu cresci, ele não!
Eu continuei a brincar, ele não!
Ficou sisudo.
Criança emburrada!
Desmancha o castelinho de cartas,
Toma da minha mão o carrinho, dizendo: – éeee mêuuuu!
Para a brincadeira quando está perdendo nos dados.
Não ri mais das minhas piadas,
Que ainda são muito boas!
Fica parado, estático:
Observa, mas não vê,
Pensa, mas não fala.
Deixa tudo espalhado pelo quarto,
Eu piso, escorrego e não me irrito,
Ponho os brinquedos na caixa e vou dormir!

(GeraldoCunha/2020)

Série poema curto – Abraços


Já não tinha os abraços,
Então não me faltaram.
Permaneço de braços abertos,
Para o tempo certo,
Que o momento agora é de espera.
(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- destrutividade


Minha criatividade acabou.
Os últimos suspiros coloquei em um papel, embolei e depositei no saco preto do lixo. Rabisquei as últimas linhas dos restos que restaram do papel picado, papel de árvore plantada e destruída. Desgastei o lápis até onde o tato não podia mais alcançar e guardei como lembrança.
O grafite. Preto, sujando-se os dedos. Para mim, como um pedaço mínimo de carvão que criava, carvão de planta morta, queimada, reduzida a …carvão. Agora uma lembrança, que como todas as outras, será confundida, esquecida.

(GeraldoCunha/2020)

Traga uma notícia boa


Invada a minha casa,
Pela porta,
Pela janela.
Grite!
De alegria.
Traga uma notícia boa!
Ocupe os espaços vazios.
Incomode o silêncio,
Incomode os vizinhos,
Que não vão se importar.
Encha de vida,
A sala,
O quarto.
A varanda.
O copo.
O corpo.
Atropele as palavras,
Troque gargalhadas,
Compartilhe risadas,
Fale! Fale! Fale!
De coisas boas
De ontem,
De hoje,
Para amanhã!

(GeraldoCunha/2020)

Sem título


Estive escondido pela vida,
Que quando ressurgi assustei
Aos outros,
A mim.
Quando olhei para trás
E a porta se fechou,
Não tinha como voltar,
Como me esconder.
E já não era o que eu queria.
A cada passo uma luz se acende,
Tremula,
Pisca fraca e vai se fortalecendo.
Sigo, desafiando os que dizem:
– não pode!
– não é capaz!

(Sempre quis fazer um poema sem
Título)

GeraldoCunha

Sangra


A poesia para mim sempre é restauradora, ainda que triste ou angustiante.
A maioria dos meus poemas surge de pensamentos de dor que me invadem, as mais diversas “dores” (saudade, solidão, rancores, mágoas, despedidas, etc).
A cada verso que escrevo, reescrevo, revisito, sangro.
Exponho a carne e vou me despindo destes sentimentos e termino restaurado.
É uma terapia em que sou o terapeuta e o paciente.

(GeraldoCunha/2020)

Viagem ao espaço tempo


Viajar é se permitir.
Estar aberto para novas experiências.
Voe sem amarras.
Esqueça as malas.
Você sem asas.
Rasgue as roupas e saia.
De saia dance em ondas.
Veleja o ar.
Embarque no vento.
Rasgue o bilhete e ande.
Sinta o cheiro da terra com os pés descalços.
Peça carona e deixe ir.
Mude a rota e conheça o mar.
Não se vive só de cachoeiras.
Não se sobrevive só de asfalto.
Recolha a chuva e beba.
Com os restos que escorrem se lave.
Seque ao sol.
Ou revire na areia da praia e tome banho de mar.
Tempere a pele.
Salgue os cabelos.
Agarre a crina do cavalo pelo pescoço ou cauda.
Cavalgue o tempo.
Recoste sob a sombra de uma paineira, sobre a grama molhada.
Cubra-se com suas flores.
Sonhe.
Sonhar é viajar.
Conhecer o outro lado por dentro.
O inconsciente.

(GeraldoCunha/2020)

Tempos sombrios


Não é o tempo que está diferente,
Éramos nós os indiferentes.
E ainda somos!
Sempre choveu e o tempo se fechou como de luto.
E para o tempo a tristeza destes dias não é diferente de hoje.
O medo, a insegurança, a dúvida sobre o amanhã aflora os sentimentos.
Nos faz perceber que só temos o hoje.
E como não percebemos isto antes?
O tempo percebeu.
Inventou o passado e o futuro para rir de nós.
Enquanto uma camada cinza redoma nossas cabeças,
Nos tranca com nossos pensamentos no sombrio do solitário.
Jogamos com o tempo, como se fosse o adversário, o rival, o inimigo.
Engano!
Lutamos com nosso reflexo que trêmula na poça d’água.
Indignamos como nossas próprias atitudes medíocres, quase sempre disfarçadas por vis atos nobres.

(GeraldoCunha/2020)