Acho (Poema curto)


Não acho mais nada.
De tanto achar, me perdi!
De tanto tentar compreender, desaprendi!
De tanto querer explicar, me confundi!

Não quero mais dar opinião.
Meu palpite é pro jogo do bicho!
Minha sugestão é um bom vinho!
Minha insatisfação eu jogo no lixo!

(GeraldoCunha/2019)

Confusão

Não quero ser entrave
Quero ser encaixe
Romance sem patifaria
Não quero deixar de gostar
Só por não estar por perto
O que quero é compromisso
Um pouco de amor na imensidão
Um mar
Tudo imensidão
Um deserto
Tudo imersão
O que não pode faltar
O amor
A paixão
Não dá para ser feliz na solidão
Os quadros vazios na parede
A bagunça da minha cabeça
Não dá para viver na solidão
É melhor deixar para que seja
Companhia na morte
Quando partir não é mais opção
E se vai sozinho
Sem nada
Sem ninguém

(GeraldoCunha/2019)

Espiral


Espiral

Escrevo e fujo dos rabiscos que fiz. Abandono o caderno ainda aberto. Para as palavras fugirem. E elas me perseguem. Corro para longe. Escorrego nos esses. E volto ao começo. Preso na espiral. Do caderno. Desenho uma porta de saída. Escapo e fujo dos rabiscos que fiz. Se há porta. Tem que haver janela. E por elas escapam as palavras. Viram pássaros. E voam. Em vês me agarram. Pelos ombros. Pelas pernas. Pelos braços. E me lançam de volta. Pela chaminé. E volto ao começo. Preso na espiral.
Da vida. Desenho labirintos de tês e agás. Traço rotas. E fujo dos rabiscos que fiz. Novamente.

(GeraldoCunha/2019)

Selfie (Poema Curto)

De tanto só tirar selfie
Eu me apaixonei por mim
O tanto quanto esqueci de quem estava ali
Eu me desocupei dos lugares
Até do abismo em que fui cair
Eu me deixei levar pela necessidade
Por quem nem estava por ali
Eu não me aproveitei do momento
Preocupado com melhor filtro a inserir

(GeraldoCunha/2019)

Alma gêmea


Não quero pessoas intocáveis, preciso sentir o tato, o cheiro, o sabor e escutar sussurros desassossegados.

Desavergonhadamente quero tocar, cheirar, saborear e silenciar.

Calorosamente quero o toque, o sentir, o saborear e abafar o som da sua voz.

Atrevidamente quero ser tocado, sentido, saboreado e escutado.

Calmamente quero não tatear, não cheirar, não sentir e não escutar, candidamente adormecendo em seus braços.

(GeraldoCunha)

Poeira


Solta no vento
Embaça a vista
Engasga na boca
Seca a saliva
Morena a pele

Poeira

Leva no vento
Os sentidos
Os sentimentos
As partículas
As particularidades

Poeira

Debaixo do tapete
Esconde ácaros
Limpa do chão
Suja a alma
Perturba o sossego

Poeira

Grãos de pó
Travessos no ar
Salpicados de fuligem
Encharcam o pulmão
Desenham o barulho da serra

Poeira

Cheiro de terra
Lembrança com gosto
Fotografia empoeirada
Marcas no móvel riscado
Coração flechado apagado

Poeira

(GeraldoCunha/2019)

Vida que segue


Tudo tem o seu tempo.
Escuto constantemente esta frase.
Às vezes a compreendo, outras nem tanto.
Por vezes me aborreço, outras tenho esperança.
O tempo é a desculpa e o consolo.
Ontem desejava que ele parasse,
Para contemplar lugares,
Amar mais ou simplesmente admirar os seres.
Mas não parou, acelerou, como quem diz:
Aproveite cada segundo.
Hoje eu quis que fosse acelerado,
Mas teimoso, foi mais devagar, mas foi.
Coisa do tempo mesmo, que prega peças, nos faz desafios diários.
Amanhã ainda não sei o meu querer,
Mas o tempo já sabe, ele foi lá e voltou.
Sabe que sou curioso.
Ele sabe guardar segredo.
Não os revela antes do seu próprio tempo.

(GeraldoCunha/2019)