Já não sei… Eu só!


Já sem esperança
resolvi acreditar na vida!
Quando tudo ficou em silêncio
pude perceber que estava só.
Já não sou mais necessário,
não faço falta!
Se sou lembrado
já não sei, ninguém me diz.

Ninguém ri daquela piada engraçada que conto.
Já não conto piadas,
não tenho para quem contar.
Cruzo o tempo todo com pessoas estranhas,
Até quem eu pensava conhecer virou um estranho!
Hoje luto para sobreviver,
solitário no meio de tantas vozes.

Não sei se a vida deixou de ter sentido ou se agora é que ela começou a fazer sentido.
Não sei se é o final ou apenas mais um recomeço entre tantos outros que não levaram a nada e a lugar nenhum.

(GeraldoCunha/2016)

Divagação 80

Meus olhos enxergam
Mais do que a mente pode alcançar,
Tropeço nas sombras dos rancores.
Prefiro andar de olhos fechados!

(GeraldoCunha/2019)

Série experimentações: Dito pelo não dito


O poeta disse…
Disse?
O poeta?
Disse.
Não!
O poeta não disse…
Não disse?
O poeta?
Disse.
Sim!
Nesse disse
Me disse…
Ficou o dito
Pelo não dito.
E o poeta
Nessa toada
Levou um ‘pito’.

(GeraldoCunha/2019)

Frágil


A vida é este frágil do tempo
Um instante de prolongamento
Um breve no hesitante do existir
Fagulha de uma chama que não se apaga
Ou o devagar apagar de uma vela
O delicado da seda que com o toque se rompe

A vida é este flash no tempo
O orvalho que seca ao primeiro sol
O eterno do instante que resta
Um sopro de esperança que não basta
O inevitável encontro de olhares
O silêncio do encerramento inevitável

A vida é este romper do tempo
A acelerar as impressões no rosto
A encurtar os passos na distância
O ressignificar os sentimentos
O desacelerar das palpitações
A substituir as saudades por lembranças

(GeraldoCunha/2019)

Série Poema Curto: Processo


Em processo de introspecção
As palavras se acovardam
Os pensamentos se engavetam
E lá fora está chovendo
Sinto o cheiro da enxurrada
Carregando os restos

(GeraldoCunha/2019)

Desmoronando


Sinto o mundo desmoronar
Sob meus pés a terra estremece
Chão que tinha fortaleza
Hoje não sustenta minhas raízes
Preciso escapar pelas asas
Mas sem vivacidade se perderam
Fico a me debater pelos cantos
Construí paredes de proteção
E os tijolos se tornaram prisão
As janelas mal se abrem ao ranger
A porta se cerrou atrás de mim
E o pó embaça os meus olhos
Estou exausto de querer voar
E estas sombras atormentando
O tempo está ruindo
Sinto o gosto da ferrugem
Engrenagens sem movimento

(GeraldoCunha/2019)

Sobre amores


O amor didático é entediante …
Regras são para serem quebradas;
Não há surpresa nas pétalas vermelhas!
E o amor não é uma regra.
É um atalho no supérfluo da vida.

O amor é um riso bobo.
Um sorriso largado no canto da boca;
Uma cabeça que se acomoda no colo!
E um desejo profundo de eternidade.
É não querer não estar!

O amor às vezes é um rio de dor …
Que não conseguiu desaguar no mar!
E represado foi minguando até secar.
São restos de uma vida.
É se debater até deixar de respirar!

O amor não se ensina se arrisca…
Risca as folhas e tatua a pele!
Rompe barreiras e sacode o preconceito.
E mesmo assim não se explica apesar de tanto escrito.
É uma pichação no muro!

O amor não é uma flor nem seu perfume …
Às vezes é um ramo e seus espinhos!
Gotas de sangue, gotas de vinho.
Pés que se unem e conciliam.
É transgressão sob medida!

O amor não é tudo isto ou só isso.
Um dicionário de significados.
Há quem não acredite e desiste!
Muitos usam só como argumento para um novo livro.
É palavra que sufoca o grito!

O amor tem um quê de bonito …
Violinos e flautas como tema de fundo.
Mesmo quando o silêncio é sinfonia!
Canção que se desafina.
É música sem melodia!

O amor,
Não se ensina,
Não se explica,
Nem sempre rima.
O amor didático entedia!

(GeraldoCunha/2019)

Série Poema Curto: Acho


Não acho mais nada.
De tanto achar, me perdi!
De tanto tentar compreender, desaprendi!
De tanto querer explicar, me confundi!

Não quero mais dar opinião.
Meu palpite é pro jogo do bicho!
Minha sugestão é um bom vinho!
Minha insatisfação eu jogo no lixo!

(GeraldoCunha/2019)

Confusão

Não quero ser entrave
Quero ser encaixe
Romance sem patifaria
Não quero deixar de gostar
Só por não estar por perto
O que quero é compromisso
Um pouco de amor na imensidão
Um mar
Tudo imensidão
Um deserto
Tudo imersão
O que não pode faltar
O amor
A paixão
Não dá para ser feliz na solidão
Os quadros vazios na parede
A bagunça da minha cabeça
Não dá para viver na solidão
É melhor deixar para que seja
Companhia na morte
Quando partir não é mais opção
E se vai sozinho
Sem nada
Sem ninguém

(GeraldoCunha/2019)

Espiral


Espiral

Escrevo e fujo dos rabiscos que fiz. Abandono o caderno ainda aberto. Para as palavras fugirem. E elas me perseguem. Corro para longe. Escorrego nos esses. E volto ao começo. Preso na espiral. Do caderno. Desenho uma porta de saída. Escapo e fujo dos rabiscos que fiz. Se há porta. Tem que haver janela. E por elas escapam as palavras. Viram pássaros. E voam. Em vês me agarram. Pelos ombros. Pelas pernas. Pelos braços. E me lançam de volta. Pela chaminé. E volto ao começo. Preso na espiral.
Da vida. Desenho labirintos de tês e agás. Traço rotas. E fujo dos rabiscos que fiz. Novamente.

(GeraldoCunha/2019)

Série Poema Curto: Selfie

De tanto só tirar selfie
Eu me apaixonei por mim
O tanto quanto esqueci de quem estava ali
Eu me desocupei dos lugares
Até do abismo em que fui cair
Eu me deixei levar pela necessidade
Por quem nem estava por ali
Eu não me aproveitei do momento
Preocupado com melhor filtro a inserir

(GeraldoCunha/2019)

Alma gêmea


Não quero pessoas intocáveis, preciso sentir o tato, o cheiro, o sabor e escutar sussurros desassossegados.

Desavergonhadamente quero tocar, cheirar, saborear e silenciar.

Calorosamente quero o toque, o sentir, o saborear e abafar o som da sua voz.

Atrevidamente quero ser tocado, sentido, saboreado e escutado.

Calmamente quero não tatear, não cheirar, não sentir e não escutar, candidamente adormecendo em seus braços.

(GeraldoCunha)

Poeira


Solta no vento
Embaça a vista
Engasga na boca
Seca a saliva
Morena a pele

Poeira

Leva no vento
Os sentidos
Os sentimentos
As partículas
As particularidades

Poeira

Debaixo do tapete
Esconde ácaros
Limpa do chão
Suja a alma
Perturba o sossego

Poeira

Grãos de pó
Travessos no ar
Salpicados de fuligem
Encharcam o pulmão
Desenham o barulho da serra

Poeira

Cheiro de terra
Lembrança com gosto
Fotografia empoeirada
Marcas no móvel riscado
Coração flechado apagado

Poeira

(GeraldoCunha/2019)