Poema sobre a gentileza (ou a falta dela)/subtítulo: Ser verbo irregular


(Gostou? veja também: Poema da arrogância)

Para quê sê sutil.
Gritando sê pode ouvir.
Bradando sê pode vencer.
Atacando sê pode defender.

Para quê sê rude.
Sê o silêncio pode ser uma trégua.
Sê vencer for hastear bandeira branca.
Sê a defesa for baixar as armas.

Para quê sê gentil.
Quando sê ganha na porrada.
Quando sê vence a paulada.
Quando sê convence com granada.

Para quê sê descortês.
Com o ser que oferece a outra face.
Com o ser que retribui com um abraço.
Com o ser que devolve gratidão.

(GeraldoCunha/2018)

Inspiração:
Profeta Gentileza, personalidade urbana carioca, que se tornou conhecido por fazer inscrições peculiares sob um viaduto situado na Avenida Brasil, na Zona Portuária do Rio de Janeiro. A mais conhecida é: “Gentileza gera Gentileza”.
Escrita ao som da canção Gentileza de Marisa Monte.

Quanto mais escrevo mais escravo / Palavras – dueto


(Gostou? veja também: Folha de papel)

Quanto mais escrevo.
Mais me entrego.
Mais entregue.
Menos liberto.

          Palavras ocupam meu tempo.
          Invadem minha mente.
          Poluem meus pensamentos.
          Escravizam minha solidão.

Quanto menos percebo.
Menos me defendo.
Menos defendido.
Mais companhia.

          Espalhadas por todas as partes.
          Oferecendo-se de graça.
          Incomodando os sentidos.
          Escravizam meu pensamento.

Quanto menos ignoro.
Menos me incomodo.
Menos incomodado.
Mais personificação.

          Rogando atenção.
          Implorando expressão.
          Cegando a visão.
          Escravizam meu sentir.

Quanto menos resisto.
Menos me atormento.
Menos atormentado.
Mais inspiração.

          Sucumbido ao clamor.
          Entregue ao vício.
          Faço delas poesias.
          Escravizam meu tempo.

Quanto mais escrevo.
Mais me compreendo.
Mais compreendido.
Menos escravo.

(GeraldoCunha/2018)

Divagação 67

(gostou? Veja também. Divagação 02)

Felicidade é observar uma folha voando e acreditar que é uma borboleta, não desviando pela simples possibilidade de ser um marimbondo.


(GeraldoCunha/2018)

Poema da restauração


(gostou? veja também: Prisioneiro)
Destruído, reduzido a fragmentos.
Desgastado, convertido a pó.
Desolado, submerso em lágrimas.
Descrente, vergado sem resignar.

Remendado por mãos de afeto.
Recuperado por lábios de ternura.
Renovado por olhos de acolhimento.
Restaurado em sua completude.

Sublime renasce como fênix.
Soberano sopra as cinzas e voa.
Sobe aos céus revelando-se.
Suplantada a escuridão, faz-se luz.

(GeraldoCunha/2018)

Gavetas – reeditado


(Gostou? veja também Estatística)…

Esquecido em uma gaveta, não quero mais ser usado.
Empurrado bem lá para o fundo, não sou mais visto.

Naquele canto, nem mais lembrava que existia.
Entre tantos não sou mais escolhido.

Fiquei velho, em desuso, fora de moda.
O que antes era motivo de orgulho, agora causa vergonha.

Só me resta permanecer quietinho no canto que me foi reservado,
Esperando ser novamente lembrado e desengavetado,
Usado ou passado adiante.

(Publicado originariamente em 10/2016)

Caliente

Meu
Que me cubra com teu abraço.
Que me esconda entre teus braços.
Que me convença a não fugir.

Seu
Que me seduza com seus olhos.
Que me hipnotize com seu olhar.
Que me convença a desistir de sair.

Teu
Que me cale com tua boca.
Que me alimente com tua saliva.
Que me dê energia para mais.

Nosso
Que me toque com seus pés.
Que me massageie com suas pernas.
Que me relaxe para não querer afastar.

(GeraldoCunha/2018)

Amizade com hora marcada


(Gostou? veja tambem: Poema da imdiferença)

Amizade com hora marcada não quero.
Quero ser surpreendido com a visita inesperada.
Quero ser interrompido pela chamada inconveniente.
Quero ser criticado na hora errada.

Amizade com hora marcada não presta.
Vira programa de ação de graças.
Vira encontro sem história.
Vira prestação de contas.

Amizade com hora marcada não vinga.
Vai se desgastando a cada ausência.
Vai se esvaziando de sentimento.
Vai se perdendo com o tempo.

(GeraldoCunha/2018)

Lembranças


(Gostou? veja também: O para sempre se foi)…
Guardo lembranças.
Fotografia desgastada pelo tempo.
Disco de música arranhado.
Fita cassete estragada.
Rosa esquecida no livro.
Livro que foi lido pela metade.
Outro que nunca foi lido.

Coleciono lembranças.
Embalagem de sonho de valsa.
Papel de presente amassado.
Moeda sem nenhum valor.
Calendário de bolso.
Caixa de música sem manivela.
Pinguim de geladeira.

Escondo lembranças.
Baú de saudades empoeirado.
Cofre com segredo esquecido.
Chave que não abre porta alguma.
Diário com as páginas coladas.
Cicatriz disfarçada com tatuagem.
Memória que não se quer revelada.
(GeraldoCunha/2018)

Oficina do sonho

Ontem expectativa.
Desejos e promessas.
Planos desengavetados.
Lápis apontados.
Rascunhos rasurados.
Papéis embolados.
Projetos idealizados.
Lágrimas enxugadas.
Lenços descartados.
Descanso conquistado.

Hoje concretude.
Percursos traçados.
Metas estabelecidas.
Projetos iniciados.
Muitos adiantados.
Outros postergados.
Alguns atropelados.
Quantos frustrados.
Derrotas sentidas.
Vitórias aplaudidas.

Amanhã memória.
Balanço contabilizado.
Os concluídos.
A serem compartilhados.
Os engavetados.
A serem vasculhados.
Os arquivados.
A serem revisados.
Os descartados.
A serem esquecidos.
(GeraldoCunha/2018)

Divagação 66

(Gostou? Veja também: Divagação 49)

Não tenho medo da morte, tenho medo do que vão escrever na lápide.


(GeraldoCunha/2018)

Só – reeditado


Ausente, a falta não foi sentida.
Já não pertencia àquele lugar.
Não era percebido, sentido e observado.
Mas de algum modo fazia parte daquela cena.
Clamava por atenção em seu anonimato.
Mas em silêncio ficou, esperou e observou.
Era tempo mesmo de ficar.
Não tinha para onde ir.
Não tinha com quem ir.
Sozinho, não queria estar só.
Somente não era tempo de partir.
(GeraldoCunha/publicado originalmente em 03/2017)

Entardecer

Sobre nuvens
À luz brilhante
Aguçados instintos
Revelação das sombras
Inquietude

Sob nuvens
Escuridão que cega
Êxtase do entardecer
Aconchego d’alma
Aquietação

Sem tempo

Já parou para pensar quanto tempo gastamos para contextualizar e dizer que não temos tempo?

Andamos sempre tão ocupados.

Sem tempo para pedir licença, atropelamos e atravessamos na frente.
Perdemos o respeito, esquecemos gentilezas.

Sem tempo de dar um “oi”, de telefonar ou retornar uma ligação, de mandar ou responder a uma mensagem.
Abandonamos e somos abandonados.

Sem tempo de sermos atenciosos, aos poucos vamos nos afastando.
Deixamos de confraternizar.

Sem tempo para uma conversa, para escutar e ser ouvido, viramos nossa própria rotina, que usamos como justificativa e desculpa.
Solitários na multidão.

Sem tempo para o outro, sem tempo para nós, tentando nos eximir de qualquer responsabilidade.
Procuramos amenizar a culpa, culpando o próprio tempo.

Sem tempo.

Que não percebemos o quanto de tempo perdemos com desculpas.
Que não percebemos o quanto de tempo temos para doar atenção.
Que não percebemos quão pouco tempo alguém precisa para se sentir valorizado.

(GeraldoCunha/2018)

Poema da arrogância

Como se atreve…
A partir sem pedir licença.
A sair sem deixar aviso.
A fugir sem olhar para trás.

Como se atreve…
A não se calar.
A não esperar cicatrizar as feridas.
A não apagar os rastros.

Como se atreve…
A clamar por liberdade.
A desistir de lutar.
A buscar por dignidade.

Como se atreve…
A não sucumbir aos clamores.
A não respeitar as vontades.
A não se escravizar pelos desejos.

Como se atreve…
A romper o silêncio.
A expor as amarguras.
A escancarar as dores.

Como se atreve…
A não se contentar com os restos.
A não implorar submissão.
A não suplicar perdão.

Como se atreve…
A abandonar o desconforto.
A acordar para a vida.
A lutar pela felicidade.

(arrogância: qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros – Dicionário Online de Português)

Seguir o caminho – reeditado

Quis uma razão para voltar e reencontrar você.
Não encontrei.
Há caminhos sem volta.

Vou encontrar outro você.
Por um tempo me acompanhará na direção que sigo.
A distância a percorrer só o tempo definirá.

Longo ou curto o trajeto,
Seremos companhia,
Às vezes alegria, às vezes tristeza, mas sempre superação,
Até o momento e a necessidade de tomarmos rumos diferentes,
Se houver essa necessidade.

Assim é na vida e nas amizades.
Às vezes é preciso parar para deixar o outro seguir.
Às vezes é preciso seguir deixando o outro para trás.
Para este desapego há a saudade e as lembranças.

Gostar é não ter o sentimento de posse.
É praticar a liberdade sua e do outro.
É deixar partir quando não há razão para ficar.

(GeraldoCunha/publicado originalmente em 05/2017)

Informativo: esta categoria tem como objetivo reeditar poemas, poesias e textos que foram ficando esquecidos, mas que são muito importantes para mim e que gostaria de compartilhar com mais pessoas. Gratidão sempre!

Doa-se abraços

Tantos guardados.
Quantos não usados.
Outros rejeitados.
Alguns abandonados.
Muitos não correspondidos.

Carregados de afetos.
Repletos de amor fraterno.
Cheios de boas energias.
Com sorriso como cortesia.
Desprovidos de segundas intenções.

Doa-se o que está em boas condições.
Doa-se o que se tem em demasia.
Doa-se o que se foi deixando de lado.
Doa-se o que não tem mais serventia.
Doa-se o que pode ser útil para o outro.

Receba como gesto de gratidão.
Perceba que não está só.
Usufrua sem moderação.
Doe se também tiver em excesso.
Esteja certo que para o universo somos junção.
(GeraldoCunha/2018)

Luz


Há um túnel.
Não tem como voltar.
Tudo está escuro.
Daqui só vejo uma luz.
Não posso tocá-la.
Sei que está lá.
Em algum lugar.
No infinito.

Vou ao seu encontro.
Não me aproximo.
Só escuridão.
Daqui só vejo uma luz.
Não posso tocá-la.
Sei que está lá.
A cada passo ela se distancia.
Rumo ao infinito.

Desistir não é opção.
Insisto em seguir.
Permanece o escuro.
Daqui só vejo uma luz.
Não posso tocá-la.
Sei que está lá.
Espero alcançar.
O infinito é uma possibilidade.

Há uma esperança.
Existe uma saída.
Nem tudo é escuridão.
Daqui vejo uma luz.
Não posso tocá-la ainda.
Mas sei que está lá.
Resta caminhar.
E acreditar que o infinito é a saída.

Paixão


Alucinado, a ponto de me perder.
Alienado, a ponto de não me reconhecer.
Apaixonado, a ponto de me sufocar.

Que me reconheça no seu olhar.
Que me perca em seus braços.
Que me sufoque no seu colo.

Que você me resgate.
Que você me ofereça abrigo.
Que você me retribua esta paixão.

Embriagados de prazer.
Enlevados pelos aromas.
Efervescidos pela volúpia.

Perturbados dos sentidos.
Em estado de puro êxtase.
Vamos nos entregar a esta paixão.

Sala de espera – Temp(l)o de reflexão

Tempo que é de espera, angústia pelo que se aguarda.
Tempo que segura os ponteiros do relógio, receoso do que vem a seguir.
Tempo que desacelera, pelo medo de ouvir a resposta.

Tempo que é tudo que tem, quando se espera.
Tempo que é tudo que quer, quando se desespera.
Tempo que é tudo que resta, quando só há uma esperança.

Tempo que não respeita vontades, sendo apenas cauteloso.
Tempo que insiste em prosseguir, ultrapassando os ponteiros.
Tempo que permite a reflexão, quando o que resta é esperar.

  • Senhor!…
  • Senhor!!…
  • Chegou a sua vez, pode entrar.

(GeraldoCunha/2018)

Contágio

Afasto, pois não quero invadir com minha tristeza o momento que para você é de felicidade e hoje eu não consigo compartilhar.
Afasto, para não contaminar você e por não conseguir ser contaminado.

Recolho, não para remoer a tristeza, mas para compreender sua razão e achar o antídoto.
Recolho, para me curar e não ser transmissor.

Curado, encontro na paz a felicidade e quero dividir.
Restaurado, vou ao seu encontro para somar.

(GeraldoCunha/2018)