Série Open- Delay


Quando achar que é hora de dizer adeus
É porque esta hora já passou.
As palavras chegam mais tarde que os sentimentos.
Nesse intervalo de tempo muito se disse:
No silêncio!
Na respiração ofegante!
No calafrio da saudade!
Na dúvida.
Esse breve instante…
O tempo da arrogância disfarçada de teimosia,
O tempo de perceber que tudo vivido não fez sentido,
O tempo da poeira assentar nos móveis,
O tempo das palavras se perderem
E de ouvir o grito da vitória na sala do vizinho.

(GeraldoCunha/2020)

POR AQUI


Aqui tudo em paz, na mesma.
Comendo e engordando,
Exercitando e desistindo,
Lavando e passando,
Passando o tempo,
Passando entre o móveis,
Imóveis.
Esquecido e esquecendo,
Lembrando e nostalgizando,
Observando e espreitando,
Trabalhando e esperando,
Lendo e esperando,
Escrevendo e esperando
E esperançando…

(GeraldoCunha/2020)

Palavras


Escreva
As
Palavras
E
Rasgue

Não rasgue
S E R E N I D A D E
Nem
Embole
E
Jogue
Na
Lixeira

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Manual de como batizar um livro


Advertência: o batismo exige algumas preparações e prévia confissão de fé. Se não estiver preparado volte para a gaveta.
Se optar por seguir, siga as instruções:
1. Escolha do nome
1.1 Dê-lhe um nome;
1.1.a. não importa qual, quando muda de país troca-se;
1.1.b. selecione dois ou três nomes, ou mais, ou talvez, coloque em papéis brancos, cortados em retângulos idênticos e jogue num embornal, sacuda e retire um retângulo que será já diferente dos outros pois foi o escolhido;
1.1.c. se não gostou, dê-lhe como nome de batismo “retângulos”.
1.2. Siga em frente.
2. Escolha da madrinha e do padrinho
2.1. Dê preferência para alguém com espírito crítico, mas atenção, olhe onde pisa, perigo: veneno.
2.2. Opte por alguém que vai ressaltar as qualidades do autor e da obra, escondendo do leitor suas imperfeições;
3. A sagração
3.1. Lance como água sobre a testa o nome:
3.1.a. na capa;
3.1.b. nas orelhas;
3.1.c. na lombada;
3.1.d. na folha de rosto;
3.2. corrente às margens das páginas, para que não tenha opção de renegar a escolha.
4. A purificação
4.1. Estará sacramentado.
4.2. O batismo perdoa todos os pecados originais:
4.2.a .do autor;
4.2.b. das personagens;
4.2.c. do leitor.

(GeraldoCunha- produzido para a Oficina de escrita O verbete, a lista, o manual)

Série poema curto – o que restou de nós?


Só restou nossa música,
Que o tempo não apaga.
É onde você vive em mim.
É ao que ficamos reduzidos.
Uma melodia e ritmo,
Sem nenhuma harmonia,
Mas eu não deixarei de dançar!
(GeraldoCunha/2020)

Poesias rasgadas


Não era poeta, era ninguém.
Em meio ao vazio do cotidiano não era ninguém.
No percurso, palavras, frases e versos sequestrados.
Palavras extraídas dos letreiros que iam ficando.
Frases de soslaio roubadas das conversas triviais.
Versos surrupiados dos objetos e olhares distantes.

Era poeta. Era ninguém.
Aprisionadas em um diário secreto.
As palavras não se queriam solitárias.
As frases sentiam-se incompletas.
Os versos tentavam fazer algum sentido.
Sem liberdade conformavam-se em poesia.
Em meio ao vazio existencial era poeta.

Não era ninguém, era poeta.
Poeta de versos que nunca seriam lidos.
Poeta que se escondia atrás da rotina e melancolia.
Poeta das segundas a segundas.
Poeta de versos guardados.
Poeta que só na intimidade se conhecia.

Não era alguém, não era poeta.
Se a intenção do destino era o cárcere.
Outro foi o que do gesto se podia esperar.
Todas as poesias foram rasgadas.
Em minúsculos retalhos espalhadas.
O chão se encheu de poesias misturadas e desesperança.

Era poeta, era alguém.
Se o intuito era negar o sentimento.
Nem tudo precisa ser sempre igual. O destino pode indicar o contrário.
Em páginas em branco a serem preenchidas.
A esperança como rotina.
Letreiros, esquinas, um cão sempre a espera.
Não era ninguém, não era poeta, era cotidiano.

(Poema despretenciosamente inspirado no filme Paterson).

(GeraldoCunha/2020)

Aves


Desenho pássaros no papel
Que de asas abertas não voam.
Na rua, observo pela janela, os pombos.
Passeiam na rua deserta, alimentam-se.
Voam de um lado para o outro.
Voo baixo, displicente.
Senhores das ruas.

E os pássaros aqui dentro não voam!
São mais coloridos,
Mas não voam!
Presos à folha branca,
Não percebem o céu,
Sem as cores do azul.

E lá fora, no céu, rajada de avião.
Corta as nuvens decepando-as,
Um rastro que se vai deixando,
Aos poucos encoberto e some!
Os pássaros sobre a mesa,
Dispostos no papel não voam.

Transformo em avião o papel.
As aves se escondem sob as dobraduras.
São só cores que se misturam nas asas.
Seguro pelos dedos voam pela janela,
Alcançam o céu e gira em círculos
E os pombos, lá fora, voam para longe!

(GeraldoCunha/2020)

Chuva


Gosto dos barulhos da chuva.
Quando leve,
É sinfonia que faz acalmar,
É melodia que embala o pensar,
É fluidez!
Quando forte,
Anuncia-se sem temores,
Causa tremores,
Tanto arrasa quanto limpa!

Gosto da água que cai.
As gotas que batem na janela,
O cheiro da terra molhada vindo de fora,
Convidando-se para entrar,
Escorrem pelo vidro
Procuram frestas
Molham o chão.

São torrentes que escorrem,
Traçando seu próprio caminho,
Invadem sem pedir licença,
Avançam rumo ao lago, ao rio, ao mar,
O pouco que terra não conseguiu drenar.

(GeraldoCunha/2020)

(Colaboração Eliana Cunha)

Série experimentações: Coisas que compõem o corpo


O dedão do pé;
A quina da cama;
A unha encravada que doí;
A tatuagem que não fiz;
Ronco;
O peito que bate acelerado;
A vertigem;
A saliva escorrida entre os lábios;
A noite que abandona o sono:
O pensamento!
Não sai pela boca e atordoa.
O peso;
O preço pelo doce que não ficou na vitrine;
Os olhos famintos;
Os cheiros que atravessam a narina;
Engasgo com farelo de pão;
As dores todas;
A insistência em olhar no espelho;
A persistência em esconder os cabelos brancos;
As rugas que sulcam a face;
Os passos…

(GeraldoCunha/2020)

Texto produzindo para a oficina de escrita: O verbete, a lista, o manual”, março/2020.
Novas formas de poetizar