Ser poeta


(Gostou? veja também Escrever liberta)…
É conversar com a própria alma
E ter outras almas como ouvintes
É expurgos de sentimentos

É apaixonar-se todas as noites
E desapaixonar-se pelas manhãs
É tornar isto uma rotina

É enxergar beleza onde há dor
E com palavras tentar confortar
É transformar sofrimento em amor

É fazer da realidade um sonho
E ao mesmo tempo criticar e emocionar
É dar foco no que poderia ser o óbvio

É compartilhar solidão
E ter tantos solitários como companhia
É não estar só mesmo solitário

É mais confundir que explicar
E isto fazer todo o sentido
É provocar para ser atiçado

(GeraldoCunha/2018)

É tudo que quero


(Gostou? veja também Lágrimas)…
transformar em imagem estes versos
que foram feitos pensando em você
desenhar com palavras os traços da sua face
utilizando o maior número de pixels
colorir as letras com as tonalidades da sua pele
preenchendo cada campo da fotografia
utilizar a luz refletida nos seus olhos
revelando no papel todos os sentidos
reconstruir você sob a forma de um poema
de modo que não possa mais separar
a inspiração a arte e o poeta

(GeraldoCunha/2018)

Tormentos


(Gostou? veja também Réstia de luz)…
O que atormenta são os medos:
Caminhos que não foram escolhidos;
Escolhas que não foram arriscadas;
Riscos que não foram corridos;
Inseguranças que nos congelaram.

O que atormenta são as inseguranças:
Permitindo seguir por caminhos mais cômodos;
Acomodando-se nas escolhas mais óbvias;
Mantendo-nos na zona de conforto;
Vidas que não foram plenamente vividas.

(GeraldoCunha/2018)

Stop


(Gostou? veja também Não me lembro da sua voz)…
Pare!
Vamos conversar?
Sobre letras de música
Sobre fotografias que inspiram
Sobre tudo o mais que é belo
Deixemos o resto para a mesa do lado!

Stop!
Vamos observar?
O que não está ao redor
O que se passa entre nós
O que realmente sentimos
Nesta mesa só dois copos sempre pela metade!

Pare!
Vamos sentir?
A música que toca no ambiente
A imagem exposta na parede
A pessoa que passa a observar
Não tem mais uma cadeira para compartilhar!

Stop!
Vamos apenas?
Conversar sem desviar o olhar
Observar o lábio sempre a secar
Sentir o coração cada vez mais pulsar
Ficar até o garçom nos expulsar!

Amor em pedaços


(Gostou? veja tamém Folha de papel)…
Juras quebradas
Fotos rasgadas
Papéis queimados

Roupas picotadas
Lençóis manchados
Travesseiro abandonado

Espelhos estilhaçados
Cacos de vidro espalhados
Pulsos cortados

Doce azedado
Corações dilacerados
Amor aos pedaços

(GeraldoCunha/2018)

Você chegou


(Gostou? veja também Amor platônico)…
Você chegou
Sem uma história
Me conquistou
Olhar de mistério
Transmitindo alegria
Onde vejo tristeza

Você chegou
Sem chamar atenção
Nada disse a que veio
Me conquistou
Olhar meigo
Revelando paixão
Onde percebo solidão

Você chegou
Sem qualquer intenção
Me conquistou
Olhar de inspiração
Retratando amor
Onde imagino dor

Lá pelas tantas – reeditado


(Gostou? veja também Janelas)…
Lá pelas tantas não sabia se queria voltar.
Fui longe demais.
Vi, ouvi e falei pelo caminho.
Não era mais o mesmo desde que tudo começou, nunca se é.
Fui triste, alegre, indiferente e foi como deixei de ser para ser outro eu.
No trajeto sempre surgia a dúvida entre seguir e voltar.
A opção foi sempre seguir, mesmo quando tudo indicava que o melhor era voltar.
Recuei algumas vezes, mas nunca ao ponto da partida.
Recuar parece voltar, mas não é.
Voltar é desistir daquele caminho e não seguir outro.
É ficar.
Recuar é parar, tomar fôlego, avaliar estratégias e escolher entre ir para aquele mesmo lado ou seguir outro, sempre em linha reta.
Encontrei atropelos, resistências físicas e psicológicas minhas e de outros que faziam parte do trajeto.
Sentei um pouco, sem recuar, analisei, assimilei e me curei, para seguir.
Não foram poucas as vezes que estava só, noutras queria estar só.
Quantos também foram os momentos em que, acompanhado, sorri e chorei, ofereci o ombro e fui acalantado.
O caminho desde a partida tem sido longo.
Talvez tenha percorrido a metade do que me foi destinado ou um pouco mais, vai saber.
Isto, se um dia foi importante, não mais é.
(Originalmente publicado em GeraldoCunha/2016)

Divagação 71

Estou cruzando entre porcelanas e cristais, pisando em ovos, segurando punhais, de olhos vendados, mas confiante da chegada em segurança. (Dia internacional da felicidade)


(GeraldoCunha/2018)

Efêmero


(Gostou? veja também Poema do único amor)…
As curtições!
Bastou um toque e já não se lembra,
Nada absorveu, foi em busca de outros.
Não curtiu!
Viu letras.
Viu-se.
Vil.

As relações!
Mal chegou e já se foi sem despedida,
Não disse a que veio, só quis marcar presença.
Não marcou!
Esqueceu-se.
Foi sopro.
Foi-se.
Foice.

Os desejos!
Foi a conta de um gozo e já fumava um cigarro,
Sem nomes, vestiu-se e partiu.
Não amou!
Reagiu ao instinto.
Agiu-se.
Ágil

(GeraldoCunha/2018)

Desamor


(Gostou? veja também Não entendo! solitário entre amigos)…
Aos poucos conquistado,
Aos poucos abandonado,
Desamor!

Perdendo-se nas mentiras,
Nas mentiras se afundando,
Desamor!

Afogando-se em lágrimas,
Em lágrimas que se vão secando,
Desamor!

Aos poucos tornando-se dor,
Aos poucos passando a rancor.
Foi-se o amor!

(GeraldoCunha/2018)

Alucinação


(Gostou? veja também A canção)…
Um dia
De uma noite qualquer
Se se sente calor
Há chuva
Porém o sol não quer se pôr
Ofereço o amor
Sedução

Uma noite
De um dia qualquer
Se se tem amor
Há nuvem
Porém a lua se mostrou
Sinto o calor
Alucinação

(GeraldoCunha/2018)

Olho mágico – uma modinha


(Gostou? veja também Porta-retratos de abril/2017)…
Um dia vi a tristeza bater à porta.
Estava acompanhada do desânimo.
Bateu tantas vezes, insistiu, não abri.
Desistiu, foi embora, levou consigo o desânimo.
Não mais voltou, se voltasse, não abriria.

Um dia vi a felicidade bater à porta.
Estava acompanhada da empolgação.
Bateu tantas vezes, insistiu, não abri.
Pensou em ir embora, persistiu, abri.
Entrou, trouxe para dentro a empolgação.
Ficaram e não querem mais sair.

(GeraldoCunha/2018)

Prateleiras


(Gostou? veja também: Choro silencioso)…
As prateleiras da minha estante são bagunçadas.
Não separo meus livros por assunto, autor ou etnia,
Todos que lá estão são importantes ou ainda não estariam.
De tempos em tempos mudos-os de seus lugares,
Para que não permaneçam mudos e conversem entre si,
Dicionários estão espalhados por todos os lados.

Em meio ao monótono dos autores enfileirados ou sobrepostos,
Provoco o caos revisitando memórias e momentos congelados.
Espalhando lembranças de lugares idos e de saudades tantas.
Faço dos livros a companhia para os objetos presenteados,
Digo quem sou através daqueles colecionáveis,
Esperando que algum deles escreva a minha biografia.
(GeraldoCunha/2018)

Poema da serenidade 


(Gostou? veja também Meditação texto2016)…
Hoje você não ouvirá a voz gritar.
Não, não ouvirá!
Ficará em silêncio,
Esperando a voz calar.
Imaginando planícies,
Cachoeiras a derramar,
Até o eco se findar.

Hoje você não sentirá o coração fibrilar.
Não, não sentirá!
Terá o tempo de se acalmar.
Inspirando e expirando sem pensar,
Sempre em compasso,
Sereno a meditar,
Até a mente limpar.

Sim, assim será!
Hoje você ouvirá o coração,
A batucar compassado…
Manso.
Hoje você sentirá a voz.
A levitar as palavras…
Zen.
(GeraldoCunha/2018)

O se existencial


(Gostou? veja também Vale da Lua
Ou foi
Ou é
Ou será

Se, não foi
Se, não é
Se, não será

Foi pretensão
É enganação
Será postergação

O se não existe
No mundo do muito querer
No qual não há espaço para incertezas

(GeraldoCunha/2018)

Poema urbano


(Gostou? veja também Urbano)…
Não se ouve mais o cantar,
É pássaro que voou pra longe;
É vento que deixou de soprar;
É manada invadindo o lugar;
É celular que não para de chamar.
Somos nós.

Só se ouve o ruído das máquinas,
São campos tomados por asfalto;
São árvores tombadas por concreto;
São gritos assombrados no ar;
São armas disparando sem avisar.
Somos nós entregues à própria sorte.

Não se vê árvore a frutificar,
É água que não quer parar de afogar;
É fogo que não quer cessar de queimar;
É multidão sem lugar de morar;
É flor de plástico a enfeitar.
Somos nós.

Só se vê carros a transitarem,
São combustíveis a inspirar;
São buzinas a incomodar;
São pessoas a se atropelarem;
São painéis a nós cegarem.
Somos nós a nos viciarmos.

Não se sente mais os pés a pisarem,
É terra que não para de tremer;
É mar que só quer revoltar;
É população que só quer reclamar;
É negligência por todo lugar.
Somos nós.

Só se sente pessoas se amontoarem,
São casas suspensas a se suportarem;
São calçadas invadindo os mares;
São esgotos a se misturarem;
São condomínios particulares.
Somos nós a nos socializarmos.
(GeraldoCunha/2018)

O que fazer? – reeditado


(Gostou? veja também Oficina do sonho)…
O que fazer quando perdeu ou abandonou todos que amava?
Não tem o que se fazer, a não ser seguir em frente.
O que fazer quando sabe que está estagnado?
Não tem o que fazer, a não ser acreditar que é só uma fase.
O que fazer quando não mais acredita em você ou no outro?
Não tem o que fazer, a não ser ter esperança.
O que fazer quando não vê ou não quer ser visto?
Não tem o que fazer, a não ser encobrir todos os espelhos.

Tem o que fazer quando não se consegue ir em frente?
Continuar tentando.
Tem o que fazer quando essa fase não passa?
Tirar o melhor proveito dela.
Tem o que fazer quando não se tem esperança?
Não há essa possibilidade, sempre haverá esperança.
Tem o que fazer quando não se consegue desencobrir os espelhos?
Olhar para sua imagem interior.

(GeraldoCunha-publicado originalmente out/2016)

#poema

Memórias 

(Gostou? veja também Sentimento)…
Memórias de um instante,
Que estar e desfrutar é o que basta,
Em que o desimportante fica lá fora.

Memórias de ontem,
Que ainda sinto no cheiro,
Riscadas na pele.

Memórias de hoje,
De agorinha a pouco,
Presas no calor do corpo.

Memórias do amanhã antecipado,
Ao aguardar de novo sua chegada,
Imaginando como será.

Memórias de um momento feliz,
Em que deveria ter o mundo como testemunha,
Mas que prefiro guardar só para mim.

(GeraldoCunha/2018)

Divagação 70

Desça do pedestal que se colocou, alcança-me antes que eu parta sem olhar para trás, sem deixar vestígios e sem mandar recado, apesar de querer muito ficar.


(GeraldoCunha/2018)

Janelas


(Gostou? veja também Hoje eu não fui nada para você) …
Espelhos da alma,
Que se rompem esbanjando luz,
Que se entreabrem curiosas,
Que se trancam escondendo a dor.
Dobradiças desgastadas com o tempo.

Olhos da consciência,
Que se fecham em oração,
Que se abrem para o mundo,
Que permitem sonhar.
Ventanas que são extensão do olhar.

Páginas em branco,
Que contam histórias,
Que guardam mistérios,
Que revelam segredos.
Batente rabiscado de memórias.

Suspiros do amor,
Que não tarda, está para chegar,
Que não demora, já vai partir,
Que não veio, não cansou de esperar.
Vidros embaçados de saudades.

(GeraldoCunha/2018)