Série Visitando 2016 (tudo começou assim…) Crônicas de um sujeito sem rumo

Fazia planos todas as noites, esperando começar a realizá-los logo que o dia amanhecesse.Mas o sono não vinha, se vinha era por pouco tempo, sobrava tempo para mais reflexões.

Mais planos eram idealizados, diante da percepção de que muito ainda podia ser feito para alterar por completo aquela vida que estava ali, por tanto anos, parada, no mesmo lugar, sabotando qualquer tentativa de fazer diferente.

Amanheceu. Agora sonolento pela noite mal dormida, já não se lembra de todos os planos traçados, os poucos que se recorda pensa que podem ficar para outro dia, o sono tardio convida a ficar na cama.

Desperto, já tarde do dia, percebe que nada mudou, acordou, tomou café, ouviu a música de sempre, comeu a refeição e deitou novamente, depois de tentativas de sair daquela rotina.

Já não importavam os planos traçados na noite anterior. Dentre os poucos de que ainda se recorda, para cada um, uma desculpa para começar a colocá-los em prática mais tarde.

Com a tarde indo embora e a noite querendo se mostrar, percebe-se sem rumo. Nada fez, permitiu que a vida continuasse exatamente como está. Fez um lanche, comeu uma fruta e tomou um gole de café.

Em frente à televisão hipnotizado e sem esperança, fazendo-se acreditar que os planos não eram para hoje e que poderiam ser colocados em prática amanhã, quando aquelas desculpas já não fizessem mais sentido e outras não pudessem ser inventadas, espera por nada, até a hora de tomar um copo de leite e deitar novamente.

Anoiteceu, deitado, é hora de refazer os planos, pensar nos motivos e desculpas que impediram fossem realizados e ter esperança de que estes novos planos lhe darão um rumo diferente, mas o sono não vem.

(Geraldocunha/2016)

Jogo do tempo (vale a pena publicar de novo)


(texto produzido e publicado originalmente em 2017 – fotogragia 2019)

Hoje eu não quero fazer mais nada, a não ser olhar o tempo.
E já faço muito, pois é tarefa por demais àrdua.
Entro num jogo que quase sempre perco.
Olhar o tempo requer pensar no que foi, no que é e como será.
Ufa!
Só de pensar canso.
Mas não desisto.
O não fazer nada é um engano, embaralhamento das ideias.
Eu sei, mas quero jogar.
O tempo se mistura, o que foi, parece ainda ser e talvez nunca será.
Não, não e não.
Não quero pensar e por isso fico só a olhar o tempo.
Penso não fazer nada, mas faço.
Penso, é isso!
Como esvaziar a mente se penso?
No foi, no é, no agora?.
Mas tudo é hoje, fagulha de tempo, quando se vê, veio e foi.
Então apenas é e fico a olhar o tempo, enquanto não faço nada.
Estou enganando a quem?
A mim talvez.
Só não engano o tempo, que no meio do nada, neste jogo, me lembra o que fiz, quem eu sou e como gostaria que fosse.
Nessa de não fazer nada, acabo fazendo mais do que deveria.
Jogo com o tempo e ele quase sempre ganha, pois tem nas mãos o que foi, o que é e como será.
Nessa de olhar o tempo, entro em um jogo de cartas marcadas em que tenho a meu favor apenas o fator surpresa.
Algumas vezes ganho, em muitas perco, mas continuo.
E eu que não queria fazer nada e só olhar o tempo ?!
(GeraldoCunha/2017)

Ilhado – reeditado

Preso em meus pensamentos,
Escravo dos meus medos,
Ilhado sem ter para aonde ir.

Fixado em ideias torpes,
Perdido em mundo de angústias,
Ilhado sem ter para quem ir.

Prisioneiro sem grades,
Escravizado sem grilhões,
Ilhado em meio à multidão.

Para se libertar
o primeiro passo
é entender
o que te aprisiona

(GeraldoCunha/2017)

Poema da (in)sanidade – reeditado


Deixa eu explicar minha loucura.
É excesso de amor.
Uma gota de (in)sanidade.
Explosão de alegria despretenciosa.
Medida a conta-gotas.

Deixa eu justificar minha loucura.
É escassez de infelicidade.
Uma porção da tristeza a se esconder.
Implosão de sentimentos incontidos.
Medida em proporções.

Deixa eu explorar minha loucura.
É prazer de fugir à razão.
Uma dose dos pensamentos sórdidos.
Perturbação da ordem normal.
Medida em pequenos goles.

Deixa eu defender minha loucura.
É condição do próprio existir.
Uma concha dos desatinos.
Percepção da verdade distorcida.
Medida em gramas.

Deixa eu viver minha loucura.
É expressão do meu ser.
Uma parcela do que sou.
Extensão do racional.
Medida em quilômetros.

(GeraldoCunha/original2017)

Amizade e transformação – reeditado

A mim me interessa a amizade.
O tempo se encarregará da direção.
Não quero nada que se inicie de outra forma.
O meio vai traçando  o percurso.
O final é simples consequência.

Qualquer outro plano que seja diferente,
Pode estar fadado ao fracasso.
Confiar no tempo é a melhor forma para a conquista.
Explorar cada possibilidade,
Sem ir direto ao ponto,
Sem ansiedade ou atropelos,
Pode ser o caminho ideal em direção ao objetivo.

A amizade permite, sem paixões,
Conhecer o outro e se conhecer,
Permitindo a construção de uma relação sólida,
Que desafia o tempo,
Que não encontra barreira nem mesmo na distância.
Aquela que, na ausência, desperta saudade.

Desistir no curso é sempre uma possibilidade
Mas, lembre-se, é um risco a se correr.
Pegar atalhos pode fazer parte do processo,
É a aceleração do tempo,
Queima de etapas,
Quando se tem certeza do que se quer.

Sentar só, à beira da estrada, pode ser uma necessidade,
Sempre é possível alcançar o outro quando se quer muito.
Só não pode deixar que se perca de vista.
Esquecerá ou será esquecido.

Toda relação que não respeite o tempo,
Que seja fruto de uma tentativa de alimentar a ansiedade,
Não me interessa.
Ser afoito leva a más escolhas,
Cega a percepção de quem realmente
Merece ser visto e conhecido.

(GeraldoCunha/2016-2017)

Voei para o longe


(Gosotu? veja também Réstia de luz )///.
quando você finalmente pousou
eu já havia perdido a esperança
preparava para voar sozinho
ir em busca de outro sonho
demorou demais para se aproximar
quando o fez
não conseguiu sequer completar uma frase
fosse outro o tempo
nem seria preciso
pois saberia o que ia dizer
hoje já nem sei
ou se sei não mais me interessa
entre o distante e o se aproximar
tive espaço para observar ao redor
e o seu pouso não era mais
que uma expectativa frustrada
percebi que o mundo é maior
e não cabia mais naquele minúsculo espaço
sufocado deixei você ficar
mas não eu
voei para longe
por isso você não mais me encontrou
era paixão
fosse amor
teria chegado na hora certa
ou isto não seria importante
não precisaria de frases perfeitas
bastaria apenas estar
transformaria aquele pequeno espaço
em um mundo só nosso
seria um voo de chegada
sem hora de partida

(GeraldoCunha/originalmente2018)

Caminhos – reeditado


Gostou? veja também Já não sei eu só)///.
Quis uma razão para voltar
E encontrar você novamente,
Mas não encontrei.
Há caminho que não tem volta
E não há razão que modifique.

Vou encontrar outro você,
Que por um tempo me acompanhará
Na direção que sigo.
A distância a percorrer
Só o tempo definirá.

Longo ou curto o trajeto,
Seremos companhia,
Alegria, tristeza e superação,
Até o momento e a necessidade
De tomarmos rumos diferentes.

Assim é na vida e nas amizades,
Às vezes é preciso parar
Para deixar o outro seguir,
Às vezes é preciso seguir
Deixando o outro para trás.

Para este desapego
A saudade e as lembranças.
Gostar é não ter o sentimento de posse
É praticar a liberdade sua e do outro
É deixar partir quando não há razão para ficar.

(originalmente GeraldoCunha/2016)

Paciência – (in)sano ser (reeditado)


(Gostou? veja também A canção)///.
Tenha paciência comigo.
Há um louco que me habita.
Às vezes nem mesmo eu o suporto.
Mas este ser insano, na verdade, é quem sou.
Suas insanidades me torna especial entre os demais.
Esta parte que mais o incomoda talvez seja o meu melhor.
Por isso mantenho-o inquilino, mesmo querendo despejá-lo.
Hoje este habitante é a justificativa para você querer tanto partir.
Ontem foi protagonista de tantas histórias que fez você querer ficar.

Publicado originalmente
(GeraldoCunha/2017)

Já não estávamos mais! – reeditado


(Gostou? veja também Jogo do tempo)///
Quando percebemos havíamos nos abandonado
Não sei mais quem foi embora primeiro
Certo é que fomos nos distanciando
A cada ausência injustificada
A cada telefonema não prontamente atendido
A cada silêncio mal interpretado
Aquilo que era inteiro virou metade
Foi se esvaindo
Até desaparecer
Já não sentíamos ou fazíamos falta
Ficamos ali
Cada um em seu canto
Feito lembranças empoeiradas!

Não mais importavam as justificativas pela ausência
As desculpas por não atender prontamente o telefone
Ou as tentativas de explicar o silêncio
Nos abandonamos
Antes queríamos sempre próximos
E não havia barreiras de comunicação
Ou obstáculos que não enfrentássemos juntos
Tudo era leve
Ou ficava mais leve quando estávamos juntos
Já não estamos mais!

Não voltaremos mais
O que foi abandonado que fique
Pois já não nos satisfazia
Não nos complementava
Não era verdadeiro
Somos estranhos conhecidos
personagens de uma história que passou
E agora só retratada em vagas lembranças
Não sei mais se vivenciamos tudo aquilo
Ou se foram excertos de poemas
Ou poesias que povoavam nossas mentes
Havia música onde hoje há silêncio!
(GeraldoCunha-originalmente publicado/2016)

Partida – reeditado


(Gostou? veja também O para sempre)…
Se for para partir,
Que seja um pouco a cada dia,
Para que eu possa ir me despedindo,
Para que eu possa ir aprendendo a viver com sua ausência.
Para que eu não fique sem chão.

Partida repentina é crueldade,
Não deixa espaço para a aceitação,
Abre caminho apenas para a resignação,
É abandono inesperado.

Se for para partir,
Que seja a conta gotas,
Festejando cada momento de felicidade,
Desatando todas as amarras,
Deixando apenas saudade.

Partida repentina é covardia,
Ainda que seja necessidade,
Deixa perguntas sem respostas,
Substitui o ponto final por interrogação.

Se for para partir,
Que seja a passos curtos,
Permitindo que eu memorize cada movimento,
Possibilitando que o perfume se perca aos poucos,
Para que eu possa construir minhas lembranças.

Partida repentina é maldade,
Desalento para quem fica,
Ainda que seja liberdade de quem parte,
Vazio que não se preenche com saudade.

Se for para partir,
Que seja companhia até sumir no horizonte,
Que seja lentamente até cada momento se tornar saudade,
Que seja um ato de bravura,
Que seja libertação para quem parte e quem fica.

(GeraldoCunha/originalmente publicado dez/2017)

Lá pelas tantas – reeditado


(Gostou? veja também Janelas)…
Lá pelas tantas não sabia se queria voltar.
Fui longe demais.
Vi, ouvi e falei pelo caminho.
Não era mais o mesmo desde que tudo começou, nunca se é.
Fui triste, alegre, indiferente e foi como deixei de ser para ser outro eu.
No trajeto sempre surgia a dúvida entre seguir e voltar.
A opção foi sempre seguir, mesmo quando tudo indicava que o melhor era voltar.
Recuei algumas vezes, mas nunca ao ponto da partida.
Recuar parece voltar, mas não é.
Voltar é desistir daquele caminho e não seguir outro.
É ficar.
Recuar é parar, tomar fôlego, avaliar estratégias e escolher entre ir para aquele mesmo lado ou seguir outro, sempre em linha reta.
Encontrei atropelos, resistências físicas e psicológicas minhas e de outros que faziam parte do trajeto.
Sentei um pouco, sem recuar, analisei, assimilei e me curei, para seguir.
Não foram poucas as vezes que estava só, noutras queria estar só.
Quantos também foram os momentos em que, acompanhado, sorri e chorei, ofereci o ombro e fui acalantado.
O caminho desde a partida tem sido longo.
Talvez tenha percorrido a metade do que me foi destinado ou um pouco mais, vai saber.
Isto, se um dia foi importante, não mais é.
(Originalmente publicado em GeraldoCunha/2016)

O que fazer? – reeditado


(Gostou? veja também Oficina do sonho)…
O que fazer quando perdeu ou abandonou todos que amava?
Não tem o que se fazer, a não ser seguir em frente.
O que fazer quando sabe que está estagnado?
Não tem o que fazer, a não ser acreditar que é só uma fase.
O que fazer quando não mais acredita em você ou no outro?
Não tem o que fazer, a não ser ter esperança.
O que fazer quando não vê ou não quer ser visto?
Não tem o que fazer, a não ser encobrir todos os espelhos.

Tem o que fazer quando não se consegue ir em frente?
Continuar tentando.
Tem o que fazer quando essa fase não passa?
Tirar o melhor proveito dela.
Tem o que fazer quando não se tem esperança?
Não há essa possibilidade, sempre haverá esperança.
Tem o que fazer quando não se consegue desencobrir os espelhos?
Olhar para sua imagem interior.

(GeraldoCunha-publicado originalmente out/2016)

#poema

Cadê meu analista? – reeditado


(Gostou? veja também: Não entendo!…)
Quero falar,
Não quero ser confrontado.
Quero ser ouvido,
Não quero ser subestimado.
Quero ser compreendido,
Não quero ser julgado.
Quero ser instigado,
Não quero ser convencido.
Quero ser motivado,
Não quero ser empurrado.
Quero ser acalmado,
Não quero ser dopado.
Quero ser acalentado,
Não quero ser protegido.
Quero ser percebido,
Não quero ser suportado.
Quero o tempo que necessito,
Não quero hora marcada.
(GeraldoCunha/março2017)

A face – reeditado


(Gostou? veja também: Olhar para o teto)

A face
Fascina
Mostra verdades
Insinua prazeres
Desnuda intenções
Abranda o tempo

A face
Encanta
Disfarça sentimentos
Esconde mentiras
Demonstra desprezo
Condena desejos
Revela o tempo

(piblicado originalmente em 2016)

Gavetas – reeditado


(Gostou? veja também Estatística)…

Esquecido em uma gaveta, não quero mais ser usado.
Empurrado bem lá para o fundo, não sou mais visto.

Naquele canto, nem mais lembrava que existia.
Entre tantos não sou mais escolhido.

Fiquei velho, em desuso, fora de moda.
O que antes era motivo de orgulho, agora causa vergonha.

Só me resta permanecer quietinho no canto que me foi reservado,
Esperando ser novamente lembrado e desengavetado,
Usado ou passado adiante.

(Publicado originariamente em 10/2016)

Só – reeditado


Ausente, a falta não foi sentida.
Já não pertencia àquele lugar.
Não era percebido, sentido e observado.
Mas de algum modo fazia parte daquela cena.
Clamava por atenção em seu anonimato.
Mas em silêncio ficou, esperou e observou.
Era tempo mesmo de ficar.
Não tinha para onde ir.
Não tinha com quem ir.
Sozinho, não queria estar só.
Somente não era tempo de partir.
(GeraldoCunha/publicado originalmente em 03/2017)

Seguir o caminho – reeditado

Quis uma razão para voltar e reencontrar você.
Não encontrei.
Há caminhos sem volta.

Vou encontrar outro você.
Por um tempo me acompanhará na direção que sigo.
A distância a percorrer só o tempo definirá.

Longo ou curto o trajeto,
Seremos companhia,
Às vezes alegria, às vezes tristeza, mas sempre superação,
Até o momento e a necessidade de tomarmos rumos diferentes,
Se houver essa necessidade.

Assim é na vida e nas amizades.
Às vezes é preciso parar para deixar o outro seguir.
Às vezes é preciso seguir deixando o outro para trás.
Para este desapego há a saudade e as lembranças.

Gostar é não ter o sentimento de posse.
É praticar a liberdade sua e do outro.
É deixar partir quando não há razão para ficar.

(GeraldoCunha/publicado originalmente em 05/2017)

Informativo: esta categoria tem como objetivo reeditar poemas, poesias e textos que foram ficando esquecidos, mas que são muito importantes para mim e que gostaria de compartilhar com mais pessoas. Gratidão sempre!