Dar tempo ao tempo


(Estou também no Instagram @divagacoesgcc.geraldocunha)

Hoje vou dar um tempo ao tempo
D E S L I G A R E I:
O relógio para não despertar;
O telefone para não incomodar;
A televisão para não clarear.
F E C H A R E I:
A cortina para o sol não entrar;
As caixas da mente para não pensar;
O caderno para não criar.
D E I X A R E I :
O tempo descansar …
Dos ponteiros;
Dos clarões;
Do poeta.

(GeraldoCunha/2020)

R E L Ó G I O D O T E M P O


Tudo tem o seu tempo!
Frase de efeito.
Ou se come cru.
Ou se come queimado.
Há quem espera o tempo certo.
Há quem coma a ansiedade.
Certo é que do tempo não se escapa.

O tempo não para!
Foi o poeta quem disse.
Ou se corre muito
E atropela!
Ou vai no d e v a g a r
E é atropelado!
Se parar passam por cima.

O tempo rouba a memória!
Sou eu quem digo.
Se os ponteiros não correm juntos,
O risco é ficar para trás ou sumir na frente.
Isto o relógio não perdoa!
Implacável é fiel ao tempo.
É quando a saudade dá o seu jeito.

(GeraldoCunha/2020)

Dono do tempo

De manhã escrevo,
De tarde estremeço,
De noite enlouqueço;
Quando acordo esqueço.
As horas passam!
Por ora tímidas,
Por ora atrevidas,
Quase sempre insanas.
Quando recobro a lucidez,
Quero adormecer
Dono do tempo,
Para no seguinte acordar
E começar tudo de novo!
Sou dono tempo,
Mas é o tempo que me domina!

(GeraldoCunha/2019)

Frágil


A vida é este frágil do tempo
Um instante de prolongamento
Um breve no hesitante do existir
Fagulha de uma chama que não se apaga
Ou o devagar apagar de uma vela
O delicado da seda que com o toque se rompe

A vida é este flash no tempo
O orvalho que seca ao primeiro sol
O eterno do instante que resta
Um sopro de esperança que não basta
O inevitável encontro de olhares
O silêncio do encerramento inevitável

A vida é este romper do tempo
A acelerar as impressões no rosto
A encurtar os passos na distância
O ressignificar os sentimentos
O desacelerar das palpitações
A substituir as saudades por lembranças

(GeraldoCunha/2019)

Jogo do tempo (vale a pena publicar de novo)


(texto produzido e publicado originalmente em 2017 – fotogragia 2019)

Hoje eu não quero fazer mais nada, a não ser olhar o tempo.
E já faço muito, pois é tarefa por demais àrdua.
Entro num jogo que quase sempre perco.
Olhar o tempo requer pensar no que foi, no que é e como será.
Ufa!
Só de pensar canso.
Mas não desisto.
O não fazer nada é um engano, embaralhamento das ideias.
Eu sei, mas quero jogar.
O tempo se mistura, o que foi, parece ainda ser e talvez nunca será.
Não, não e não.
Não quero pensar e por isso fico só a olhar o tempo.
Penso não fazer nada, mas faço.
Penso, é isso!
Como esvaziar a mente se penso?
No foi, no é, no agora?.
Mas tudo é hoje, fagulha de tempo, quando se vê, veio e foi.
Então apenas é e fico a olhar o tempo, enquanto não faço nada.
Estou enganando a quem?
A mim talvez.
Só não engano o tempo, que no meio do nada, neste jogo, me lembra o que fiz, quem eu sou e como gostaria que fosse.
Nessa de não fazer nada, acabo fazendo mais do que deveria.
Jogo com o tempo e ele quase sempre ganha, pois tem nas mãos o que foi, o que é e como será.
Nessa de olhar o tempo, entro em um jogo de cartas marcadas em que tenho a meu favor apenas o fator surpresa.
Algumas vezes ganho, em muitas perco, mas continuo.
E eu que não queria fazer nada e só olhar o tempo ?!
(GeraldoCunha/2017)

Relógio


Falo tanto sobre o tempo
Que tenho receio de me repetir
O tempo não se repete
O passado não se reinventa
Fica guardado na memória
E vai se desfazendo
O presente é o milésimo de segundo
Ou menos que isto
Quer tanto o futuro
Quando se vê já é passado
O tempo é o instante
O relógio se repete
O tempo dele não

(GeraldoCunha/2019)

Cheiro e sabor / Ciclos da vida

(este poema é absolutamente pessoal – talvez alguém se identifique)

Tem música com sabor.
Arroz com carne moída,
Fins de tarde em família,
Recordações da infância,
Sítio do Picapau Amarelo!

Tem música com cheiro.
Perfume do primeiro amor,
Amizades incondicionais,
Lembranças da adolescência,
Roda de violão e coca-cola!

Tem música com sabor.
Pão de queijo com linguiça,
Café que acabou de ser coado,
Memórias da juventude,
RPM tocando na vitrola!

Tem música com cheiro.
Flor dama da noite,
Jardim da faculdade,
Reminiscência da mais idade.
Pipoca doce de saquinho!

(GeraldoCunha/2019)