Imenso


Imenso

Do imenso do tempo, desafio a tempestade.
No atrevimento das horas,
Engulo os raios.
Postergo a calmaria.
Sucumbo às avalanches.
No enorme deste desassossego,
O minúsculo se agiganta.

Com as mãos ordeno o tempo.
Deito-as em punhos rijos.
Dissolvo as barras do não existir.
Agarro com os dedos a vida.
Clamo ao imenso a resiliência.
Enfrento o temor dos ventos.
Faço das lágrimas chuva de esperança.

Do imenso abismo roto,
Escalo as rochas úmidas.
No escorregadio do lodo,
Agarro-me ao impossível!
Pés firmes
Supero e sigo.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Deixe-se levar


Vamos, é a nossa música!
Nós não temos uma música.
Agora temos.
Não sei dançar.
Siga meus pés.
E se eu pisar nos seus?
Eu te carrego pelo salão.
(Um respiro)
Deixe-se levar aos rodopios.
Posso cair.
Eu te seguro no segundo antes do chão.
Mas…
(O corpos se entrelaçam mais forte)
Não tenha medo, entregue-se.
Não tenho.
(Sussurros ao ouvido)
Então feche os olhos.
Já estavam fechados.
Os meus também.
(Suspiros)
(Rodopios)
(Mais rodopios)
(Pausa)
A música parou de tocar.
Mesmo? Não percebi.
Faz mais de uma hora.
Não escutei o tempo parar.
Não abra os olhos.
Deixe-se levar.

(GeraldoCunha/2020)

Recomendo a leitura do poema Nos passos e braços da poesia do amigo poeta mineiro Estevan MATIAZZ do blog Sabedoria do Amor, que surgiu de um delicioso desafio poético.

Série poema curto – Paradoxo


Não ontem
Não mais cedo
Agora
Sou
Uma
Peça
Mínima
Nesta engrenagem
Substituível
Não daqui a pouco
Não amanhã
Agora
Olho
Para
Os lados
Só vejo
As cinzas
Uma semente
Terra
Água

(GeraldoCunha/2020)

Esmago


Esmago o grão com as mãos,
O cheiro de terra perfuma o ar…
De memórias!
Do mato!
Do rio!
Da chuva!
Uma fazenda,
Uma cachoeira,
Um cachorro latindo.
Um grão,
A terra,
O cheiro,
Um esmago,
O mundo!

(GeraldoCunha/2020)

Traga uma notícia boa


Invada a minha casa,
Pela porta,
Pela janela.
Grite!
De alegria.
Traga uma notícia boa!
Ocupe os espaços vazios.
Incomode o silêncio,
Incomode os vizinhos,
Que não vão se importar.
Encha de vida,
A sala,
O quarto.
A varanda.
O copo.
O corpo.
Atropele as palavras,
Troque gargalhadas,
Compartilhe risadas,
Fale! Fale! Fale!
De coisas boas
De ontem,
De hoje,
Para amanhã!

(GeraldoCunha/2020)

Viagem ao espaço tempo


Viajar é se permitir.
Estar aberto para novas experiências.
Voe sem amarras.
Esqueça as malas.
Você sem asas.
Rasgue as roupas e saia.
De saia dance em ondas.
Veleja o ar.
Embarque no vento.
Rasgue o bilhete e ande.
Sinta o cheiro da terra com os pés descalços.
Peça carona e deixe ir.
Mude a rota e conheça o mar.
Não se vive só de cachoeiras.
Não se sobrevive só de asfalto.
Recolha a chuva e beba.
Com os restos que escorrem se lave.
Seque ao sol.
Ou revire na areia da praia e tome banho de mar.
Tempere a pele.
Salgue os cabelos.
Agarre a crina do cavalo pelo pescoço ou cauda.
Cavalgue o tempo.
Recoste sob a sombra de uma paineira, sobre a grama molhada.
Cubra-se com suas flores.
Sonhe.
Sonhar é viajar.
Conhecer o outro lado por dentro.
O inconsciente.

(GeraldoCunha/2020)

Tempos sombrios


Não é o tempo que está diferente,
Éramos nós os indiferentes.
E ainda somos!
Sempre choveu e o tempo se fechou como de luto.
E para o tempo a tristeza destes dias não é diferente de hoje.
O medo, a insegurança, a dúvida sobre o amanhã aflora os sentimentos.
Nos faz perceber que só temos o hoje.
E como não percebemos isto antes?
O tempo percebeu.
Inventou o passado e o futuro para rir de nós.
Enquanto uma camada cinza redoma nossas cabeças,
Nos tranca com nossos pensamentos no sombrio do solitário.
Jogamos com o tempo, como se fosse o adversário, o rival, o inimigo.
Engano!
Lutamos com nosso reflexo que trêmula na poça d’água.
Indignamos como nossas próprias atitudes medíocres, quase sempre disfarçadas por vis atos nobres.

(GeraldoCunha/2020)

Série – Um pouco de mim


Na adolescência o contato com música. Antes não, ou talvez! gostava de algumas coisas no rádio ou na televisão, outras não entendia. Nada para se orgulhar.
Foi quando surgiram os videoclips que veio o interesse. E íamos pelos anos 80. A Blitz foi a banda que ligou o start. Parêntesis aqui para dizer: – recuperei os três LPs e o proibidão (prova da existência da censura). E agradeço por isso, não pela censura. O que era aquilo? entre tantos movimentos ocorrendo e que eu negligenciava, aquela música me fascinava. Meu gosto musical para aqueles tempos não era considerado o mais refinado, quem liga? Havia polarização, saudável! Ou nem tanto. Quando fui apresentado à Legião Urbana, conjurei, apesar de ter ficado hipnotizado por “Índios”, não podia admitir. Hoje devoro toda a obra de Renato Russo, de Cazuza e de tantas bandas nacionais. Escrevo ao som de Cindy Lauper, foi quem me trouxe estas memórias. Quando fui apresentado à cena musical mundial, de imediato me conquistou, assim como Madonna e um furacão, verdadeiramente furacão, chamado Tina Turner. Nem preciso dizer de Michael Jackson. Foi só o início, para quem tinha pouco acesso a este produto, depois fui apresentado à MPB e às bandas internacionais. Foi quando entendi Milton, Caetano, só para começar! Elis, Bethânia, Gal, Rita Lee, Tim Maia…Queem, Duran Duran, The Smiths, Van Hallen, The B-52’s (o que era aquilo?), Dire Straits, até chegar ao U2. E a RPM. Impossível listar. Foi assim que tudo começou, não sou músico, não toco nenhum instrumento, ainda tenho gostos duvidosos, mais sou um apaixonado por música, a ponto de respeitar todas as formas de expressão, o que não quer dizer que toque nas minhas playlists.

(GeraldoCunha/2020)

Série Open- Delay


Quando achar que é hora de dizer adeus
É porque esta hora já passou.
As palavras chegam mais tarde que os sentimentos.
Nesse intervalo de tempo muito se disse:
No silêncio!
Na respiração ofegante!
No calafrio da saudade!
Na dúvida.
Esse breve instante…
O tempo da arrogância disfarçada de teimosia,
O tempo de perceber que tudo vivido não fez sentido,
O tempo da poeira assentar nos móveis,
O tempo das palavras se perderem
E de ouvir o grito da vitória na sala do vizinho.

(GeraldoCunha/2020)

POR AQUI


Aqui tudo em paz, na mesma.
Comendo e engordando,
Exercitando e desistindo,
Lavando e passando,
Passando o tempo,
Passando entre o móveis,
Imóveis.
Esquecido e esquecendo,
Lembrando e nostalgizando,
Observando e espreitando,
Trabalhando e esperando,
Lendo e esperando,
Escrevendo e esperando
E esperançando…

(GeraldoCunha/2020)

Chuva


Gosto dos barulhos da chuva.
Quando leve,
É sinfonia que faz acalmar,
É melodia que embala o pensar,
É fluidez!
Quando forte,
Anuncia-se sem temores,
Causa tremores,
Tanto arrasa quanto limpa!

Gosto da água que cai.
As gotas que batem na janela,
O cheiro da terra molhada vindo de fora,
Convidando-se para entrar,
Escorrem pelo vidro
Procuram frestas
Molham o chão.

São torrentes que escorrem,
Traçando seu próprio caminho,
Invadem sem pedir licença,
Avançam rumo ao lago, ao rio, ao mar,
O pouco que terra não conseguiu drenar.

(GeraldoCunha/2020)

(Colaboração Eliana Cunha)

Visita ao passado


Visitar o passado é se decepcionar.
As coisas já não são como eram.
Mudanças pelo abandono ou pela transformação.
O melhor é guardar na memória,
Se aquele lugar ou aquela pessoa representou algo de importância.
Deixa lá! na memória, na lembrança, na … saudade!
Não se volta para ver o castelo de areia.
Ele não estará mais lá,
Pois foi descontruido pelas ondas,
Destruído pelos pés do homem ou
Invadido por outras mãos e transformado.

(GeraldoCunha/2020)

Série Poema Curto – Passos


Os meses passam…
E eu lentamente.
Lenta a mente!
E os passos?
Passo a passo…
Lentos nos dias.
E os dias?
Largos nos passos!
Os dias passam…
E eu não passo.
Preso na horas.
Conto os segundos…
Segundos passam.
A passos lentos!

(GeraldoCunha/2020)

Dar tempo ao tempo


(Estou também no Instagram @divagacoesgcc.geraldocunha)

Hoje vou dar um tempo ao tempo
D E S L I G A R E I:
O relógio para não despertar;
O telefone para não incomodar;
A televisão para não clarear.
F E C H A R E I:
A cortina para o sol não entrar;
As caixas da mente para não pensar;
O caderno para não criar.
D E I X A R E I :
O tempo descansar …
Dos ponteiros;
Dos clarões;
Do poeta.

(GeraldoCunha/2020)

R E L Ó G I O D O T E M P O


Tudo tem o seu tempo!
Frase de efeito.
Ou se come cru.
Ou se come queimado.
Há quem espera o tempo certo.
Há quem coma a ansiedade.
Certo é que do tempo não se escapa.

O tempo não para!
Foi o poeta quem disse.
Ou se corre muito
E atropela!
Ou vai no d e v a g a r
E é atropelado!
Se parar passam por cima.

O tempo rouba a memória!
Sou eu quem digo.
Se os ponteiros não correm juntos,
O risco é ficar para trás ou sumir na frente.
Isto o relógio não perdoa!
Implacável é fiel ao tempo.
É quando a saudade dá o seu jeito.

(GeraldoCunha/2020)

Dono do tempo

De manhã escrevo,
De tarde estremeço,
De noite enlouqueço;
Quando acordo esqueço.
As horas passam!
Por ora tímidas,
Por ora atrevidas,
Quase sempre insanas.
Quando recobro a lucidez,
Quero adormecer
Dono do tempo,
Para no seguinte acordar
E começar tudo de novo!
Sou dono tempo,
Mas é o tempo que me domina!

(GeraldoCunha/2019)

Frágil


A vida é este frágil do tempo
Um instante de prolongamento
Um breve no hesitante do existir
Fagulha de uma chama que não se apaga
Ou o devagar apagar de uma vela
O delicado da seda que com o toque se rompe

A vida é este flash no tempo
O orvalho que seca ao primeiro sol
O eterno do instante que resta
Um sopro de esperança que não basta
O inevitável encontro de olhares
O silêncio do encerramento inevitável

A vida é este romper do tempo
A acelerar as impressões no rosto
A encurtar os passos na distância
O ressignificar os sentimentos
O desacelerar das palpitações
A substituir as saudades por lembranças

(GeraldoCunha/2019)

Jogo do tempo (vale a pena publicar de novo)


(texto produzido e publicado originalmente em 2017 – fotogragia 2019)

Hoje eu não quero fazer mais nada, a não ser olhar o tempo.
E já faço muito, pois é tarefa por demais àrdua.
Entro num jogo que quase sempre perco.
Olhar o tempo requer pensar no que foi, no que é e como será.
Ufa!
Só de pensar canso.
Mas não desisto.
O não fazer nada é um engano, embaralhamento das ideias.
Eu sei, mas quero jogar.
O tempo se mistura, o que foi, parece ainda ser e talvez nunca será.
Não, não e não.
Não quero pensar e por isso fico só a olhar o tempo.
Penso não fazer nada, mas faço.
Penso, é isso!
Como esvaziar a mente se penso?
No foi, no é, no agora?.
Mas tudo é hoje, fagulha de tempo, quando se vê, veio e foi.
Então apenas é e fico a olhar o tempo, enquanto não faço nada.
Estou enganando a quem?
A mim talvez.
Só não engano o tempo, que no meio do nada, neste jogo, me lembra o que fiz, quem eu sou e como gostaria que fosse.
Nessa de não fazer nada, acabo fazendo mais do que deveria.
Jogo com o tempo e ele quase sempre ganha, pois tem nas mãos o que foi, o que é e como será.
Nessa de olhar o tempo, entro em um jogo de cartas marcadas em que tenho a meu favor apenas o fator surpresa.
Algumas vezes ganho, em muitas perco, mas continuo.
E eu que não queria fazer nada e só olhar o tempo ?!
(GeraldoCunha/2017)

Relógio


Falo tanto sobre o tempo
Que tenho receio de me repetir
O tempo não se repete
O passado não se reinventa
Fica guardado na memória
E vai se desfazendo
O presente é o milésimo de segundo
Ou menos que isto
Quer tanto o futuro
Quando se vê já é passado
O tempo é o instante
O relógio se repete
O tempo dele não

(GeraldoCunha/2019)

Cheiro e sabor / Ciclos da vida

(este poema é absolutamente pessoal – talvez alguém se identifique)

Tem música com sabor.
Arroz com carne moída,
Fins de tarde em família,
Recordações da infância,
Sítio do Picapau Amarelo!

Tem música com cheiro.
Perfume do primeiro amor,
Amizades incondicionais,
Lembranças da adolescência,
Roda de violão e coca-cola!

Tem música com sabor.
Pão de queijo com linguiça,
Café que acabou de ser coado,
Memórias da juventude,
RPM tocando na vitrola!

Tem música com cheiro.
Flor dama da noite,
Jardim da faculdade,
Reminiscência da mais idade.
Pipoca doce de saquinho!

(GeraldoCunha/2019)