Série open – Saudade quanta


De quanta saudade estamos falando?
Daquela que está à distância:
De um toque,
De um telefonema,
De um … abraço?
Daquela que não vai ter mais os braços?
Tem saudade demais para pouca ação.
Saudade falada, mais que sentida!
É saudade?
A saudade que eu reconheço hoje é aquela:
Que não se alcança,
Que não tem voz,
Que não tem…mais!
Saudade, se está ao alcance, pode ser contida, acalmada.
Aí são só saudadinhas!
Que carregam mágoas,
Que são só nostalgias.
A causa sempre é a ausência,
O sentimento de incompletude.
É o que se encontra nos dicionários,
Para o qualquer que se chame saudade!
Os poetas nem sempre se contentam:
Com estas distâncias,
Com estas definições,
Com estas quantidades.
Querem o imensurável!
Saudade não tem medida certa,
Não se segura com barreira de contenção,
Quando é, é avalanche!
Sempre penso se saudade é quanta..
Penso…pois minha saudade:
Não tem alcance,
Não tem o cheiro,
Não permite o encontro!
No tanto mais que eu quero, nem pouco mais posso ter.
Moral da história…
Se ainda se tem saudade que possa ser medida:
Ou não é saudade,
Ou são saudadinhas, que podem ser encurtadas.
Antes de se tornarem saudade.
(GeraldoCunha/2020)

Série poema curto- Vai deixar passar


Poderia ser uma pergunta.
Poderia ser uma afirmação.
Poderia ser uma interjeição.
Mas é só uma frase sem futuro,
Pois quando perceber foi tarde demais…
Passou!
(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Deixe-se levar


Vamos, é a nossa música!
Nós não temos uma música.
Agora temos.
Não sei dançar.
Siga meus pés.
E se eu pisar nos seus?
Eu te carrego pelo salão.
(Um respiro)
Deixe-se levar aos rodopios.
Posso cair.
Eu te seguro no segundo antes do chão.
Mas…
(O corpos se entrelaçam mais forte)
Não tenha medo, entregue-se.
Não tenho.
(Sussurros ao ouvido)
Então feche os olhos.
Já estavam fechados.
Os meus também.
(Suspiros)
(Rodopios)
(Mais rodopios)
(Pausa)
A música parou de tocar.
Mesmo? Não percebi.
Faz mais de uma hora.
Não escutei o tempo parar.
Não abra os olhos.
Deixe-se levar.

(GeraldoCunha/2020)

Recomendo a leitura do poema Nos passos e braços da poesia do amigo poeta mineiro Estevan MATIAZZ do blog Sabedoria do Amor, que surgiu de um delicioso desafio poético.

Séries experimentações: A resposta


De qual poesia você mais gostou?
– aquela que você ainda não escreveu.
Como assim?
– assim mesmo, aquela que está por vir, que faz você vibrar a cada palavra escrita e eu posso daqui ver os seus olhos brilharem, sentir o calor do sorriso acanhado do lado esquerdo da sua boca. É tímido e lindo. E você nem me percebe, ali no outro canto, a abraçar uma xícara de chá, envolver-me em uma manta a espantar o frio a te admirar.
E eu respondo:
– Percebo, pois você é minha inspiração.
E você responde:
– e você é minha poesia.

(GeraldoCunha/2020)

Série elos – Amor virtual

Eu daqui, atravesso a tela
E digo dos nossos beijos distantes,
Ausentes dos toques dos lábios.
Mas nosso amor está mais próximo
Das palavras compartilhadas, tecladas, expondo e envolvendo nossos sentidos, nossos sentimentos;
Dos olhares que se encontram refletidos, qual espelho, e se amam intensamente, mais e mais.
Mesmo sendo através do toque do Touch na tela,
Nosso amor resiste e inside por entre os íons e ondas magnéticas do nosso computador.
Porquê, embora sem ainda termos nos tocado e nos encontrado pessoalmente o amor aconteceu!
Como dizem os poetas, quem ama, ama com o coração e ama mesmo e apesar da distância!
Contigo as minhas noites ficam prazerosamente mais longas…
E os meus sonhos mais bonitos!
A “tela” não é capaz de deter o meu bem querer!
Mesmo com uma “janela aberta” de bate-papo, uma imagem na tela, um fone no ouvido, não me bastam pra matar a saudade, a vontade de me conectar a você total e demoradamente … “Amor Virtual!”

este poema é uma parceria entre
@meus_eseus_escritos_ne &
@divagacoes.gcc.geraldocunha

Série títulos : Show de Truman


A emoção nunca acaba na cena final, vai para os créditos e transborda da tela para a vida real, aonde a verdade é nua e crua, sem trilha sonora e sem roteiro definido, um texto decorado cotidianamente, em um cenário em que os personagens surgem do nada e somem como fumaça.

(GeraldoCunha/2020)

Série títulos : The Walking Dead


Eu conhecia a solidão.
A minha solidão,
Não a solidão dos outros.
A solidão coletiva.
Com o assombro da morte
Desesperam-se,
Iludem-se.
Não sonham!
Os sonhos precisam do ontem e do amanhã.
Rasgamos o ontem.
Cuspimos no amanhã.
Perdemos a liberdade.
E sem a liberdade de viver
É que estamos todos mortos.

(GeraldoCunha/2020)

Série Poema Curto- Desistir


É perder
Se não encontra outra solução
É recuar
Quando o que está à frente apavora
É repensar
Se vale a pena ir adiante
É ponderar
Se o melhor é abrir mão daquilo que te sufoca
É seguir
Se embrenhando por outros caminhos
É morrer
Para tornar a viver

(GeraldoCunha/2020)

Série – Um pouco de mim


Na adolescência o contato com música. Antes não, ou talvez! gostava de algumas coisas no rádio ou na televisão, outras não entendia. Nada para se orgulhar.
Foi quando surgiram os videoclips que veio o interesse. E íamos pelos anos 80. A Blitz foi a banda que ligou o start. Parêntesis aqui para dizer: – recuperei os três LPs e o proibidão (prova da existência da censura). E agradeço por isso, não pela censura. O que era aquilo? entre tantos movimentos ocorrendo e que eu negligenciava, aquela música me fascinava. Meu gosto musical para aqueles tempos não era considerado o mais refinado, quem liga? Havia polarização, saudável! Ou nem tanto. Quando fui apresentado à Legião Urbana, conjurei, apesar de ter ficado hipnotizado por “Índios”, não podia admitir. Hoje devoro toda a obra de Renato Russo, de Cazuza e de tantas bandas nacionais. Escrevo ao som de Cindy Lauper, foi quem me trouxe estas memórias. Quando fui apresentado à cena musical mundial, de imediato me conquistou, assim como Madonna e um furacão, verdadeiramente furacão, chamado Tina Turner. Nem preciso dizer de Michael Jackson. Foi só o início, para quem tinha pouco acesso a este produto, depois fui apresentado à MPB e às bandas internacionais. Foi quando entendi Milton, Caetano, só para começar! Elis, Bethânia, Gal, Rita Lee, Tim Maia…Queem, Duran Duran, The Smiths, Van Hallen, The B-52’s (o que era aquilo?), Dire Straits, até chegar ao U2. E a RPM. Impossível listar. Foi assim que tudo começou, não sou músico, não toco nenhum instrumento, ainda tenho gostos duvidosos, mais sou um apaixonado por música, a ponto de respeitar todas as formas de expressão, o que não quer dizer que toque nas minhas playlists.

(GeraldoCunha/2020)

Série Open- Delay


Quando achar que é hora de dizer adeus
É porque esta hora já passou.
As palavras chegam mais tarde que os sentimentos.
Nesse intervalo de tempo muito se disse:
No silêncio!
Na respiração ofegante!
No calafrio da saudade!
Na dúvida.
Esse breve instante…
O tempo da arrogância disfarçada de teimosia,
O tempo de perceber que tudo vivido não fez sentido,
O tempo da poeira assentar nos móveis,
O tempo das palavras se perderem
E de ouvir o grito da vitória na sala do vizinho.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Manual de como batizar um livro


Advertência: o batismo exige algumas preparações e prévia confissão de fé. Se não estiver preparado volte para a gaveta.
Se optar por seguir, siga as instruções:
1. Escolha do nome
1.1 Dê-lhe um nome;
1.1.a. não importa qual, quando muda de país troca-se;
1.1.b. selecione dois ou três nomes, ou mais, ou talvez, coloque em papéis brancos, cortados em retângulos idênticos e jogue num embornal, sacuda e retire um retângulo que será já diferente dos outros pois foi o escolhido;
1.1.c. se não gostou, dê-lhe como nome de batismo “retângulos”.
1.2. Siga em frente.
2. Escolha da madrinha e do padrinho
2.1. Dê preferência para alguém com espírito crítico, mas atenção, olhe onde pisa, perigo: veneno.
2.2. Opte por alguém que vai ressaltar as qualidades do autor e da obra, escondendo do leitor suas imperfeições;
3. A sagração
3.1. Lance como água sobre a testa o nome:
3.1.a. na capa;
3.1.b. nas orelhas;
3.1.c. na lombada;
3.1.d. na folha de rosto;
3.2. corrente às margens das páginas, para que não tenha opção de renegar a escolha.
4. A purificação
4.1. Estará sacramentado.
4.2. O batismo perdoa todos os pecados originais:
4.2.a .do autor;
4.2.b. das personagens;
4.2.c. do leitor.

(GeraldoCunha- produzido para a Oficina de escrita O verbete, a lista, o manual)

Série poema curto – o que restou de nós?


Só restou nossa música,
Que o tempo não apaga.
É onde você vive em mim.
É ao que ficamos reduzidos.
Uma melodia e ritmo,
Sem nenhuma harmonia,
Mas eu não deixarei de dançar!
(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações: Coisas que compõem o corpo


O dedão do pé;
A quina da cama;
A unha encravada que doí;
A tatuagem que não fiz;
Ronco;
O peito que bate acelerado;
A vertigem;
A saliva escorrida entre os lábios;
A noite que abandona o sono:
O pensamento!
Não sai pela boca e atordoa.
O peso;
O preço pelo doce que não ficou na vitrine;
Os olhos famintos;
Os cheiros que atravessam a narina;
Engasgo com farelo de pão;
As dores todas;
A insistência em olhar no espelho;
A persistência em esconder os cabelos brancos;
As rugas que sulcam a face;
Os passos…

(GeraldoCunha/2020)

Texto produzindo para a oficina de escrita: O verbete, a lista, o manual”, março/2020.
Novas formas de poetizar

Série títulos – rede de intrigas


Fulano disse isso de Sicrano. Eu não sou Fulano nem Sicrano. Não digo nada Beltrano. Só digo que Fulano é fofoqueiro. Sicrano não fica para trás. Estes dias dizia de ti. Mas não digo para não criar intrigas. Não sou destes. Beltrano não seja intrigueiro. Se insisto digo apenas que Fulano não vai bem. Mas isto não é falatório. É constatação. Sicrano fala por não ter nada de si a dizer. Diz dos outros. Eu não. Vivo da minha vida Beltrano. Assunto por demais tenho de mim mesmo. Não há tempo para para gastar seja com Beltrano ou Sicrano. E deles dizem que desdizem o que digo. Mesmo dizendo-lhes que não digo nada a não ser de mim.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- ERROS


Escrevi
Errei
Rasurei
Apaguei
Rabisquei
Recomecei

Datilografei
Errei
Encobri
Corrigi
Puxei
Conformei

Digitei
Errei
Deletei
Teclei
Gostei
Imprimi

Vivi
Errei
Consertei
Errei
Aceitei
Vivi

(GeraldoCunha/2020)

Série Poema de improviso – Indiferença


Todos cuspindo sentimentalidades
Trancados nos seus mundinhos.
Todos surdos pelo egoísmo
Traem os próprios sentimentos.
Todos clamando por visibilidade
Tapam os olhos para o sofrimento alheio.Todos ingênuos arrogantes
Tentando escapar de suas bolhas.
Todos somos nós implorando atenção
Tiranos no mundo que criamos.
Todos defendendo uma razão
Transfigurada de sensibilidade.
Todos sempre solitários
Tramando uma revolução.

(GeraldoCunha/2020)

Série Poema de Improviso: Fantasia


Fantasiei de vida os meus restos,
Atrás da fantasia me escondi,
Ficando refém das máscaras,
Hoje sou a representação
Dos personagens que visto.

Quem me vê enxerga um traje,
Um folião a brincar com a multidão,
Mas não! o que se vê de mim,
São meus olhos tristes,
Destoando da minha euforia.

(GeraldoCunha/2020)

Divagação 83


Por onde passo querem curar minhas dores medicando, aplicando terapias, indicando mantras, fazendo orações, quando o que é preciso é só um abraço sincero e um ombro amigo.

(GeraldoCunha/2020)

Série Poema Curto – Passos


Os meses passam…
E eu lentamente.
Lenta a mente!
E os passos?
Passo a passo…
Lentos nos dias.
E os dias?
Largos nos passos!
Os dias passam…
E eu não passo.
Preso na horas.
Conto os segundos…
Segundos passam.
A passos lentos!

(GeraldoCunha/2020)

Série Open- Torre de Babel


não falamos mais a mesma língua, Sem uma conexão na Torre de Babel. estranhos conhecidos de outrora, Perdidos em palavras dissonantes. duas solidões não conversam. lábios que se movem Para ouvidos surdos pelos próprios pensamentos. olhares que se cruzam e Não se veem. quem somos nesta relação. não sabemos mais E culpamos o tempo. sempre o tempo a desculpar E o tempo é linear. li esta frase em algum livro E compreendi. fragmentadas são as relações, Pelo desgaste que provocamos Pela ausência. que Não é distância física É abandono do sentimento. Desprezo pelo Sentir um do outro E as palavras vão se ressignificando Sem compreensão, Quando nos acomodamos. tudo é tão simples, Mas queríamos alcançar o céu E foi nossa ambição. hoje não sabemos quem somos.

(GeraldoCunha/2020)