Série cotidianos- diário

do começo

o dia agarra-se

da necessidade da esperança

batalhas

lutam-se no diário vida

nas folhas descritas

as horas não passam

em branco

enganam-se os que se apegam ao vazio

a tinta invisível denúncia

aos olhos atentos

a rotina cortina os sentimentos

arrasta para debaixo do tapete

os desejos

escrevo os dias

desenho as horas

fotografo os segundos

embalo o tempo

(GeraldoCunha/2021)

Série vale à pena ver de novo – Útero

Quero voltar para o útero de minha mãe.
De onde não queria sair.
Fui expulso!
Não tive escolha, o mundo se abriu.
E eu curioso quis ver como era.
Achei tudo hipnotizante.
Não entendi bem o que vi.
Não compreendi o que as pessoas diziam.
E quis voltar para o útero de minha mãe!
Mas me foi oferecido só os peitos.
Foi o que bastou para eu querer ficar.
No colo me senti tal-qualmente protegido.
Até o momento que ouvi: vai pra vida!
Criei coragem
E eu fui!
Do que venho vivendo
Muito desgostei,
Outros tantos me foi é indiferente,
Um quanto de tudo e um pouco mais, gostei.
Mesmo assim, hoje quero voltar para o útero de minha mãe.

Que todas as mães em todo o universo sejam abençoadas no seu dia especial … que são todos os dias.

GeraldoCunha

Série sentimental – olhar de pressa

Não me venha com este olhar de
[pressa
Acusando a falta de tempo
[que não é só sua
Urge o tempo
Urge a lenha que queima
A fogueira da vida arde
[Na pressa dos sem pressa
Se o olhar é de pausa
Não é sobra de tempo
É bom aproveitamento

(GeraldoCunha/2021)

Série sentimental – cheiro e sabor / ciclos da vida

Tem música com sabor.
Arroz com carne moída,
Fins de tarde em família,
Recordações da infância,
Sítio do Picapau Amarelo!

Tem música com cheiro.
Perfume do primeiro amor,
Amizades incondicionais,
Lembranças da adolescência,
Roda de violão e coca-cola!

Tem música com sabor.
Pão de queijo com linguiça,
Café que acabou de ser coado,
Memórias da juventude,
RPM tocando na vitrola!

Tem música com cheiro.
Flor dama da noite,
Jardim da faculdade,
Reminiscência da mais idade.
Pipoca doce de saquinho!

(GeraldoCunha/2021)

Série listas – É suspiro É saudade

Alegria triste
Riso bobo
Coceira no coração
Frio na espinha
Cheiro bom
Areia no olho
Olhar no nada
Ir querendo ficar
Canção mordida
Abraço vazio
Toque no invisível
Infinito invadido
O mar sem praia

(GeraldoCunha/2021)

Série reciclos- Penas

duras penas
se arrancam
no tempo
não sangram
consomem-se em arte
voejam

assopram
o vento coça o nariz
plúmulas
descansam
sobre planadas
cerdas
aguçam os sentidos

pena
sinto
dos
que
sangram
e não sentem

(GeraldoCunha/2021)

O mendigo (projeto de Oficinas de escrita)

TOMADA I

Um homem. Bigode farto. Estaciona o táxi. Aponta para o passeio. Diz ao passageiro que desce – Aquele lá já foi muito rico. Recebe o valor da corrida. Com um aceno. Agradece. Arranca o carro.

TOMADA II

Aquele lá sou eu. Pés vestidos de lama seca. Penso . Aqui debaixo tudo é gigante. A minha casa é o imenso. A calçada. A marquise. O passeio. Estes trapos. Meu mundo. Restos de memória.

TOMADA III

O passageiro. Pasta de couro. Invade minha casa. Mesmo de gravata. Não pede licença. Passa sisudo e vai embora. São tantos invasores. Muitos me olham. Poucos me veem. Eu não me vejo.

TOMADA IV

A beata. Terço na mão. Cruza a rua. Na minha direção. Para. Pergunta – Tem parente, qual seu nome. Penso .Já não me lembro. Não respondo. Não importa. Deixa uma moeda. Sai. Sem pedir licença.

TOMADA V

A mãe passa. Devagar. Com a criança. E o pet. Suja o tapete. Não recolhe. Não pede desculpa. Torce o nariz. Penso . Acha que sou cachorro. De rua. Eu me pergunto – Fui criança. Não respondo. Não me lembro.

TOMADA VI

O doutor passa. Apressado. Elegante. De branco. Penso . Só pode ser médico. Este pode invadir. É importante. Logo me levanto. Estendo a mão – Uma esmola. Por favor. Ele segue. Indiferente.

TOMADA VII

O motoqueiro. De capacete. Entra na padaria. Correndo. Todos estranham. Eu não. Penso . Está atrasado. Eles devem pensar . É assalto. Minutos depois . Sai apressado. Um saco na mão. Me entrega. Sobe na moto. Sai zunindo. Olho . Dentro tem um pão.

TOMADA VIII

Uma moça. E o rapaz. Sei pelas roupas. Pelos modos. Mãos dadas. Namorados certamente. Se olham. Me olham. Franzem a testa. Ao mesmo tempo. Falam algo. É sobre dignidade. E seguem. Penso . Não conheço esta palavra.

TOMADA IX

Deito ao sol. Senhor do tempo. Pergunto – Quando foi que o relógio parou, É hora do café, Já passou do almoço, Vai ter janta. Não sei. Enfio a mão no bolso. Tantos trecos. Uma moeda. Da beata. Não sou rico. Isto é lenda. Não sei quem sou. Respondo ao taxista. Que já foi embora.

TOMADA X

Ensaiado. Todos em seus lugares. Atenção. Silêncio. Gravando.

(GeraldoCunha- republicado)

Série listas – ideias para compor um poema

Palavra manchada de vinho
Roupa embriagada pelo café
Tudo no plural
Na singularidade dos versos
Dicionário folheado
Sobra do vento assoprado
Suspiro do tempo
Lista de nomes
Alguns riscados
Os negritados…
Saudades acumuladas
Amores desesquecidos
Palavras inventadas
Rompante
Gotas de ódio
Destilados dos outros
Diluídos de amor
Dilúvio
Memórias que não são minhas
Inconsciente atrevido
Novamente memória
Agora coletiva
O voo do super homem
E nem precisa da capa
S de esperança
Chama à realidade
A poesia tem que ser concreta
Fogo que arde sem se ver
Isto já escreveram
Enfrente os clichês
Flores
Sonhos
Amores
Espinhos
AÍ!

GeraldoCunha/2021

Série sentimental – Velhice melancólica

Hoje acordei triste,
Manhã daquelas melancólicas.
Pensando nas despedidas
E as mudanças decorrentes.

Envelhecer e ver as pessoas morrendo de velhice entristece.
É o passado que vai sendo desfeito,
Somos nós que vamos deixando de ser futuro, presente e passamos a ser o passado.

Tem manhãs destes desatinos
Em que a nostalgia sacoleja a cabeça.
E eu me pergunto onde estão todos?
Hoje estão nas fotografias esquecidas.

Do colorido que a velhice deveria,
Vejo em preto e branco… fantasmas.
Em câmara lenta envoltos na neblina perambulam.
Circulando entre as cores que já não importam.

Nos olhos tristes a felicidade roubada.
Na boca o sorriso abandonado.
No silêncio a certeza de que o mundo está ficando surdo.
GeraldoCunha/2021

Série cotidianos- Outrora

O poeta repousa em versos
dispensados sobre a mesinha ao lado da poltrona.
Descansa as letras no escuro da madeira.
Afaga com as costas as almofadas que resistem
para logo cederem.

Os olhos se voltam para o Belo
Horizonte que invade pela janela,
Atraídos pelos perfumes que perfuram as narinas.
O cheiro do verde, do orvalho que não veio, do vento da chuva que ameaça, da terra adubada,
Traz outrora.

Infância de pés descalços,
Represando os rios deixados pela chuva,
Desafiando a lama que escorrega o corpo,
No inocente do barro lambuzando as vestes,
Respingando na boca,
Provocando risadas entusiasmadas,
No susto ….interrompidas pelo grito
de uma voz carinhosamente irritada.

Dormências lembrando as idades,
Recobro do tempo esquecido no dantes,
Sentindo o presente despertando,
o poeta se espreguiça, sacode os versos,
que pulam para as mãos ainda letárgicas,
Marcando com o dedo por onde a leitura continua.

GeraldoCunha/2021

Série poemamínimo – Brasil

Série títulos longos – Desbotadas cores vivas pululantes preenchem o papel invadem vida expulsam os tons pastéis para as bordas

tons pastéis
nas bordas
traçados espaços
definindo limites
régua prisional

tremer das mãos
desafiando os contornos
rompimento

lápis
carrega a cor
salta
para o papel
preenche pontilhados
em miúdos círculos
concêntricos
marejados

em algum momento
as cores
Escapam da tela
tonificam a pele
reverberando vida

GeraldoCunha/2021

Série poesia concreta- intermitências

Série sem fôlego- Felicidade não se pontua

A felicidade pode estar presa dentro de uma caixinha que se abre ao toque das sensações que envolvida em papel de seda ao abrir exala memória perfumada do que foi cativado e daquilo que o desejo almeja e sem barreiras num instante escapa

(GeraldoCunha/2021)

Série poema curto – Pelas Beiradas

Nada que começo termino
Vou guardando os poucos
As frases estão incompletas
Agonia dos pensamentos
Vou comendo pelas beiradas
Uma palavra aqui
Outra acolá
Perdidas entre os textos revisados

GeraldoCunha/2021

Série dedicados – No sopro do tempo

Tudo se modificando tão depressa
No lentamente do tempo
Os anos passam
Um sobre o outro
Entre rosas e bolos
Se acendem
E se apagam
Ao sopro da vela
Rajada de vida
Ventos de sonhos
Desejos em ebulição
Um mundo novo por colorir
Com as cores de sua escolha
Refletindo suas realizações

GeraldoCunha/2021

Dedicado a Gabriela Borges, afilhada querida, pelo seu aniversário.

Presenteamos com que temos de melhor.

Rumos do poema


I ATO
O poema se completa a partir das memórias de quem o lê
Tantas vezes lido se transforma em outros tantos
O poema tem o seu tempo
Que é todo o tempo que é lido
Pode morrer ali, na última palavra, ou se perpetuar

II ATO
O poema muda de direção
Caminha pela tristeza
Percorre atalhos de alegria
Nas curvas da saudade descansa na calçada da solidão
Observa os passos dispersos
Aproxima do abismo esperando resgate

GeraldoCunha/2021

Piração

Respiro inspiração,
Seguro no fôlego as palavras,
Levo no suspiro os desejos.
Exalo os sentimentos!
Contraditórios sentidos…

Piração !

Invento as frases desconexas,
Perturbo os acentos:
Circunflexo,
Arco dobrado,
Em forma de crescente,
Ângulos que se juntam,
Noutra ponta se separam.

Piração !!

Jogo com as letras,
Palavras cruzadas,
Ou se atropelam
Ou derrubo o tabuleiro!
Ninguém marca ponto.
E pronto!

Piração !!!

Provoco os olhos dos incompreensíveis,
Ao regozijo dos meus.
Pisco e as frases aparecem…
Pisco e as frases somem…
Sobrevivem as capturadas no relance.

Piração !!!!

Rabisco o papel com aquarela.
A base é de água, tento mesclar e mancha.
Tudo desaparece no borrão das cores e a sensação é boa.
Ninguém jamais saberá o que foi o poema.

Provocação !!!!!

GeraldoCunha/2021

Série poema curto – flerte noturno

Vou dormir meu sono
Acordar meus sonhos
Flertar com a insônia
Rolar meu travesseiro
De encontro ao peito
Chutar a manta que me descobre
Depois de muito resistir
Abraçar os fantasmas que me visitam

GeraldoCunha/2021

Série de improviso – depois de muitos idos

Depois dos cinquenta, e poucos,

Decidi apagar o passado.

Rasgar as páginas, todas…uma a uma:

As bem escritas, as malescritas, as rasuradas, aquelas que ficaram em brancos tons de cinza, principalmente aquelas, e até as censuradas.

Para reescrever uma nova história o melhor é apagar o passado, muito se diz do contrário desta afirmação, para o agora penso por negação, está negação pode!

Vão me desdizer os filósofos, os psicólogos, os analistas e até aquele da mesa ao lado.

Lê-se um livro, fechando o outro.

A mesma técnica aplico ao meu caderno, recém comprado, que vou chamar de vida, não de nova vida, e que não terá prefácio.

(…no improviso tudo pode mudar a qualquer momento!)

GeraldoCunha/2021