Fantasminha


Quando criança brincava com meu amiguinho fantasma.
Divertidas manhãs e tardes,
Boas risadas em meio a discussões sem sentido,
Que acabavam em mais risadas.
Eu cresci, ele não!
Eu continuei a brincar, ele não!
Ficou sisudo.
Criança emburrada!
Desmancha o castelinho de cartas,
Toma da minha mão o carrinho, dizendo: – éeee mêuuuu!
Para a brincadeira quando está perdendo nos dados.
Não ri mais das minhas piadas,
Que ainda são muito boas!
Fica parado, estático:
Observa, mas não vê,
Pensa, mas não fala.
Deixa tudo espalhado pelo quarto,
Eu piso, escorrego e não me irrito,
Ponho os brinquedos na caixa e vou dormir!

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- destrutividade


Minha criatividade acabou.
Os últimos suspiros coloquei em um papel, embolei e depositei no saco preto do lixo. Rabisquei as últimas linhas dos restos que restaram do papel picado, papel de árvore plantada e destruída. Desgastei o lápis até onde o tato não podia mais alcançar e guardei como lembrança.
O grafite. Preto, sujando-se os dedos. Para mim, como um pedaço mínimo de carvão que criava, carvão de planta morta, queimada, reduzida a …carvão. Agora uma lembrança, que como todas as outras, será confundida, esquecida.

(GeraldoCunha/2020)

Traga uma notícia boa


Invada a minha casa,
Pela porta,
Pela janela.
Grite!
De alegria.
Traga uma notícia boa!
Ocupe os espaços vazios.
Incomode o silêncio,
Incomode os vizinhos,
Que não vão se importar.
Encha de vida,
A sala,
O quarto.
A varanda.
O copo.
O corpo.
Atropele as palavras,
Troque gargalhadas,
Compartilhe risadas,
Fale! Fale! Fale!
De coisas boas
De ontem,
De hoje,
Para amanhã!

(GeraldoCunha/2020)

Sem título


Estive escondido pela vida,
Que quando ressurgi assustei
Aos outros,
A mim.
Quando olhei para trás
E a porta se fechou,
Não tinha como voltar,
Como me esconder.
E já não era o que eu queria.
A cada passo uma luz se acende,
Tremula,
Pisca fraca e vai se fortalecendo.
Sigo, desafiando os que dizem:
– não pode!
– não é capaz!

(Sempre quis fazer um poema sem
Título)

GeraldoCunha

Sangra


A poesia para mim sempre é restauradora, ainda que triste ou angustiante.
A maioria dos meus poemas surge de pensamentos de dor que me invadem, as mais diversas “dores” (saudade, solidão, rancores, mágoas, despedidas, etc).
A cada verso que escrevo, reescrevo, revisito, sangro.
Exponho a carne e vou me despindo destes sentimentos e termino restaurado.
É uma terapia em que sou o terapeuta e o paciente.

(GeraldoCunha/2020)

Viagem ao espaço tempo


Viajar é se permitir.
Estar aberto para novas experiências.
Voe sem amarras.
Esqueça as malas.
Você sem asas.
Rasgue as roupas e saia.
De saia dance em ondas.
Veleja o ar.
Embarque no vento.
Rasgue o bilhete e ande.
Sinta o cheiro da terra com os pés descalços.
Peça carona e deixe ir.
Mude a rota e conheça o mar.
Não se vive só de cachoeiras.
Não se sobrevive só de asfalto.
Recolha a chuva e beba.
Com os restos que escorrem se lave.
Seque ao sol.
Ou revire na areia da praia e tome banho de mar.
Tempere a pele.
Salgue os cabelos.
Agarre a crina do cavalo pelo pescoço ou cauda.
Cavalgue o tempo.
Recoste sob a sombra de uma paineira, sobre a grama molhada.
Cubra-se com suas flores.
Sonhe.
Sonhar é viajar.
Conhecer o outro lado por dentro.
O inconsciente.

(GeraldoCunha/2020)

Tempos sombrios


Não é o tempo que está diferente,
Éramos nós os indiferentes.
E ainda somos!
Sempre choveu e o tempo se fechou como de luto.
E para o tempo a tristeza destes dias não é diferente de hoje.
O medo, a insegurança, a dúvida sobre o amanhã aflora os sentimentos.
Nos faz perceber que só temos o hoje.
E como não percebemos isto antes?
O tempo percebeu.
Inventou o passado e o futuro para rir de nós.
Enquanto uma camada cinza redoma nossas cabeças,
Nos tranca com nossos pensamentos no sombrio do solitário.
Jogamos com o tempo, como se fosse o adversário, o rival, o inimigo.
Engano!
Lutamos com nosso reflexo que trêmula na poça d’água.
Indignamos como nossas próprias atitudes medíocres, quase sempre disfarçadas por vis atos nobres.

(GeraldoCunha/2020)

Desbotado


Quando você partiu
E foi aos poucos,
Não imaginava
Que o silêncio tinha cor.
A tristeza tem cor desbotada e com respingos.
As lembranças foram-se manchando, perdendo os tons!
O vermelho não era mais vermelho,
O azul tomou-se de um cinza amargurado.
O amarelo, com suas nuanças, já não tinha o brilho que aquecia.
Empalideceu!
E foi assim aos poucos,
Descorando-se.
A voz já não segurava as cores.

(GeraldoCunha/2020)

Série títulos : Show de Truman


A emoção nunca acaba na cena final, vai para os créditos e transborda da tela para a vida real, aonde a verdade é nua e crua, sem trilha sonora e sem roteiro definido, um texto decorado cotidianamente, em um cenário em que os personagens surgem do nada e somem como fumaça.

(GeraldoCunha/2020)

Sempre em ti


O tom da voz
Sussurrando silêncio
Envolve-me
Encanta-me
Seduz-me
Sou em ti

O cheiro que exala
Do sem perfume
Enlaça-me
Confunde-me
Penetra-me
Estou em ti

O sabor da pele
Sentida ao toque
Alimenta-me
Completa-me
Aquece-me
Mergulho em ti

O brilho dos olhos
Que se querem abertos
Ruboriza-me
Hipnotiza-me
Percorre-me
Sempre em ti

(GeraldoCunha/2020)

Série títulos : The Walking Dead


Eu conhecia a solidão.
A minha solidão,
Não a solidão dos outros.
A solidão coletiva.
Com o assombro da morte
Desesperam-se,
Iludem-se.
Não sonham!
Os sonhos precisam do ontem e do amanhã.
Rasgamos o ontem.
Cuspimos no amanhã.
Perdemos a liberdade.
E sem a liberdade de viver
É que estamos todos mortos.

(GeraldoCunha/2020)

Série Poema Curto- Desistir


É perder
Se não encontra outra solução
É recuar
Quando o que está à frente apavora
É repensar
Se vale a pena ir adiante
É ponderar
Se o melhor é abrir mão daquilo que te sufoca
É seguir
Se embrenhando por outros caminhos
É morrer
Para tornar a viver

(GeraldoCunha/2020)

Série – Um pouco de mim


Na adolescência o contato com música. Antes não, ou talvez! gostava de algumas coisas no rádio ou na televisão, outras não entendia. Nada para se orgulhar.
Foi quando surgiram os videoclips que veio o interesse. E íamos pelos anos 80. A Blitz foi a banda que ligou o start. Parêntesis aqui para dizer: – recuperei os três LPs e o proibidão (prova da existência da censura). E agradeço por isso, não pela censura. O que era aquilo? entre tantos movimentos ocorrendo e que eu negligenciava, aquela música me fascinava. Meu gosto musical para aqueles tempos não era considerado o mais refinado, quem liga? Havia polarização, saudável! Ou nem tanto. Quando fui apresentado à Legião Urbana, conjurei, apesar de ter ficado hipnotizado por “Índios”, não podia admitir. Hoje devoro toda a obra de Renato Russo, de Cazuza e de tantas bandas nacionais. Escrevo ao som de Cindy Lauper, foi quem me trouxe estas memórias. Quando fui apresentado à cena musical mundial, de imediato me conquistou, assim como Madonna e um furacão, verdadeiramente furacão, chamado Tina Turner. Nem preciso dizer de Michael Jackson. Foi só o início, para quem tinha pouco acesso a este produto, depois fui apresentado à MPB e às bandas internacionais. Foi quando entendi Milton, Caetano, só para começar! Elis, Bethânia, Gal, Rita Lee, Tim Maia…Queem, Duran Duran, The Smiths, Van Hallen, The B-52’s (o que era aquilo?), Dire Straits, até chegar ao U2. E a RPM. Impossível listar. Foi assim que tudo começou, não sou músico, não toco nenhum instrumento, ainda tenho gostos duvidosos, mais sou um apaixonado por música, a ponto de respeitar todas as formas de expressão, o que não quer dizer que toque nas minhas playlists.

(GeraldoCunha/2020)

Estranhos poemas


Tudo que não disse com palavras,
Mas deixou escapar pelo olhar.
O espaço entre as minhas mãos e os seus cabelos.
A fumaça que escapa da xícara, atravessa as narinas e dissipa.
As letras escapando entre os dedos.
A folha que se desprende do galho e pousa suave sobre a página a virar.
A última frase da música ou talvez a primeira, nunca o refrão.
O atrevimento inesperado no memento tão esperado.
O soco, já disseram isto também. O soco!
O risco na parede, direcionado para a janela.
Janelas são poemas prontos, que se renovam todos os dias.
Tudo que pensei no segundo seguinte àquele olhar.
Nenhuma das opções acima, ou todas, exceto uma.

(GeraldoCunha/2020)

Série Open- Delay


Quando achar que é hora de dizer adeus
É porque esta hora já passou.
As palavras chegam mais tarde que os sentimentos.
Nesse intervalo de tempo muito se disse:
No silêncio!
Na respiração ofegante!
No calafrio da saudade!
Na dúvida.
Esse breve instante…
O tempo da arrogância disfarçada de teimosia,
O tempo de perceber que tudo vivido não fez sentido,
O tempo da poeira assentar nos móveis,
O tempo das palavras se perderem
E de ouvir o grito da vitória na sala do vizinho.

(GeraldoCunha/2020)

POR AQUI


Aqui tudo em paz, na mesma.
Comendo e engordando,
Exercitando e desistindo,
Lavando e passando,
Passando o tempo,
Passando entre o móveis,
Imóveis.
Esquecido e esquecendo,
Lembrando e nostalgizando,
Observando e espreitando,
Trabalhando e esperando,
Lendo e esperando,
Escrevendo e esperando
E esperançando…

(GeraldoCunha/2020)

Palavras


Escreva
As
Palavras
E
Rasgue

Não rasgue
S E R E N I D A D E
Nem
Embole
E
Jogue
Na
Lixeira

(GeraldoCunha/2020)

Série poema curto – o que restou de nós?


Só restou nossa música,
Que o tempo não apaga.
É onde você vive em mim.
É ao que ficamos reduzidos.
Uma melodia e ritmo,
Sem nenhuma harmonia,
Mas eu não deixarei de dançar!
(GeraldoCunha/2020)

Poesias rasgadas


Não era poeta, era ninguém.
Em meio ao vazio do cotidiano não era ninguém.
No percurso, palavras, frases e versos sequestrados.
Palavras extraídas dos letreiros que iam ficando.
Frases de soslaio roubadas das conversas triviais.
Versos surrupiados dos objetos e olhares distantes.

Era poeta. Era ninguém.
Aprisionadas em um diário secreto.
As palavras não se queriam solitárias.
As frases sentiam-se incompletas.
Os versos tentavam fazer algum sentido.
Sem liberdade conformavam-se em poesia.
Em meio ao vazio existencial era poeta.

Não era ninguém, era poeta.
Poeta de versos que nunca seriam lidos.
Poeta que se escondia atrás da rotina e melancolia.
Poeta das segundas a segundas.
Poeta de versos guardados.
Poeta que só na intimidade se conhecia.

Não era alguém, não era poeta.
Se a intenção do destino era o cárcere.
Outro foi o que do gesto se podia esperar.
Todas as poesias foram rasgadas.
Em minúsculos retalhos espalhadas.
O chão se encheu de poesias misturadas e desesperança.

Era poeta, era alguém.
Se o intuito era negar o sentimento.
Nem tudo precisa ser sempre igual. O destino pode indicar o contrário.
Em páginas em branco a serem preenchidas.
A esperança como rotina.
Letreiros, esquinas, um cão sempre a espera.
Não era ninguém, não era poeta, era cotidiano.

(Poema despretenciosamente inspirado no filme Paterson).

(GeraldoCunha/2020)

Silêncio dos olhos


Hoje quis não enxergar as palavras,
Fazer com que silenciassem na mente.
Deixando de perturbar meus pensamentos.
Que tudo fosse um apagão.
Preciso descansar das palavras.
Quero um livro que não aceite as letras.
Que seja uma compilação de poemas nunca escritos.
Páginas e páginas em branco,
Passadas uma a uma caladamente.
Mas quando estou para cair
E vozes incessantes me atordoam,
São as palavras que me restauram.
Hoje preciso que fiquem mudas!

(GeraldoCunha/2020)