Série cotidianos- 15 minutos

As mãos interrompem o corte
Repousando na tábua
O verde do alimento
no envolvimento dos ramos que assuntam o vento

Os olhos cansados
Interrompem o cotidiano
repousam no tempo
Que de fora invade

O feijão cozinhando na panela
A pressão do sol nas vistas
Do horizonte que congela os olhos
os vapores do trem do fervor

Embaralham os sentidos a fumaça
do feijão do trem do horizonte

Os ouvidos se perdem

tic-tac chuá chuá có-có-ricó
tic-tac croac croac tic-tac tri tri tri tum-tum bzzz bzzz piu-piu tum-tum au au chuá chuá vuuuuu vuuuuu

piuííí! piuííí! piuííí! piuííí! …

O apito avisa:
O feijão cozinhou.
O tempo passou.
O horizonte ficou.

GeraldoCunha/2021

Série enigmático

Reeditado- Útero

Série poema curto- pedregulho

Série poesia concreta- encolha

Série cotidiano- Beija-flor de outrora

o beija-flor que outrora
rondava a varanda
cumprimentava e partia
do cotidiano virou poema

no atrevimento dos sentidos rompeu a tela
ocupou todo o espaço
no reconhecimento da área
saudou o pé de maracujá
que sobe pelo beiral
os ramos do hortelã
recém plantado

procurou pelas flores
encontrou os Chicos
em estado de oração
pausou sem pousar
e novamente se foi

no abandono
fico aguardando
no mesmo horário
todas as manhãs
a companhia

(GeraldoCunha/2021)

Pegadas

Poemas são como pegadas,
Vão ficando pelo caminho,
Por onde tantos passam,
Se dispondo em compasso,
Se dissipando com o vento!

Palavras são como o vento,
Invadem os espaços vazios,
Suspiram janelas entreabertas,
Enchem de poeira o papel,
E se transformam em versos!

Poemas são nossas digitais
Estampadas na escrivaninha,
Dando formas às palavras,
Desenhando sentimentos,
Direcionando nossas pegadas!

Palavras são estes traços,
Que feito nossas pegadas,
Unem-se para contar,
Qual poema desenhado,
Excertos de nossas verdades.

(GeraldoCunha/2021)

Lágrimas derramadas

As lágrimas que escorrem calmamente,
São como nascentes que vão secando,
São como rios que vão morrendo,
São como oceanos que vão se retraindo.
Escorrem até não mais!

As lágrimas que umedecem meu rosto,
São como orvalho em manhãs de frio,
São como cristais que revelam emoções,
São como brisa soprando a beira-mar.
Umedecem sem explicação!

As lágrimas que molham a fronha,
São como vento que corta a face,
São como gelo que derrete ao sol,
São como faca que perfura a alma.
Molham rejeitando acolhimento!

As lágrimas que encharcam o travesseiro,
São como gotas de chuva formando poças,
São como lagos que transbordam nas cheias,
São como enchentes de sentimentos.
Derramam absurdas sem qualquer razão!

GeraldoCunha

Série surtados – projeto Instagram

O que aprendi

A tomar chá quente.
Que quem se preocupa liga.
A entender que a solidão não é só minha.
Que não sou só eu quem precisa dar o primeiro passo.
A não levar as mãos no nariz.
Que quem tem ambição continuará tendo ambição.
A lembrar de regar as plantas.
Que quem é solidário ainda é mais solidário quando é preciso ser solidário.
A não acumular porque vai ter que limpar.
Que quando alguém ausente diz “você está guardado no meu coração” é porque perdeu a chave.
A ocupar os espaço vazios.
Que os alienados continuarão alienados ou mais.
A deixar o acaso dizer a que veio.
Que as maiores distâncias podem ser percorridas em um passo.
A não ter pressa ou pensar que tinha.

(GeraldoCunha)

Série agora desenhos: florais – brotados

(parte 1 – rascunhando)
✏️
Desenho à mão livre com lápis de cor

Série cotidianos- diário

do começo

o dia agarra-se

da necessidade da esperança

batalhas

lutam-se no diário vida

nas folhas descritas

as horas não passam

em branco

enganam-se os que se apegam ao vazio

a tinta invisível denúncia

aos olhos atentos

a rotina cortina os sentimentos

arrasta para debaixo do tapete

os desejos

escrevo os dias

desenho as horas

fotografo os segundos

embalo o tempo

(GeraldoCunha/2021)

Série vale à pena ver de novo – Útero

Quero voltar para o útero de minha mãe.
De onde não queria sair.
Fui expulso!
Não tive escolha, o mundo se abriu.
E eu curioso quis ver como era.
Achei tudo hipnotizante.
Não entendi bem o que vi.
Não compreendi o que as pessoas diziam.
E quis voltar para o útero de minha mãe!
Mas me foi oferecido só os peitos.
Foi o que bastou para eu querer ficar.
No colo me senti tal-qualmente protegido.
Até o momento que ouvi: vai pra vida!
Criei coragem
E eu fui!
Do que venho vivendo
Muito desgostei,
Outros tantos me foi é indiferente,
Um quanto de tudo e um pouco mais, gostei.
Mesmo assim, hoje quero voltar para o útero de minha mãe.

Que todas as mães em todo o universo sejam abençoadas no seu dia especial … que são todos os dias.

GeraldoCunha

Série sentimental – olhar de pressa

Não me venha com este olhar de
[pressa
Acusando a falta de tempo
[que não é só sua
Urge o tempo
Urge a lenha que queima
A fogueira da vida arde
[Na pressa dos sem pressa
Se o olhar é de pausa
Não é sobra de tempo
É bom aproveitamento

(GeraldoCunha/2021)

Série sentimental – cheiro e sabor / ciclos da vida

Tem música com sabor.
Arroz com carne moída,
Fins de tarde em família,
Recordações da infância,
Sítio do Picapau Amarelo!

Tem música com cheiro.
Perfume do primeiro amor,
Amizades incondicionais,
Lembranças da adolescência,
Roda de violão e coca-cola!

Tem música com sabor.
Pão de queijo com linguiça,
Café que acabou de ser coado,
Memórias da juventude,
RPM tocando na vitrola!

Tem música com cheiro.
Flor dama da noite,
Jardim da faculdade,
Reminiscência da mais idade.
Pipoca doce de saquinho!

(GeraldoCunha/2021)

Série listas – É suspiro É saudade

Alegria triste
Riso bobo
Coceira no coração
Frio na espinha
Cheiro bom
Areia no olho
Olhar no nada
Ir querendo ficar
Canção mordida
Abraço vazio
Toque no invisível
Infinito invadido
O mar sem praia

(GeraldoCunha/2021)

Série reciclos- Penas

duras penas
se arrancam
no tempo
não sangram
consomem-se em arte
voejam

assopram
o vento coça o nariz
plúmulas
descansam
sobre planadas
cerdas
aguçam os sentidos

pena
sinto
dos
que
sangram
e não sentem

(GeraldoCunha/2021)

O mendigo (projeto de Oficinas de escrita)

TOMADA I

Um homem. Bigode farto. Estaciona o táxi. Aponta para o passeio. Diz ao passageiro que desce – Aquele lá já foi muito rico. Recebe o valor da corrida. Com um aceno. Agradece. Arranca o carro.

TOMADA II

Aquele lá sou eu. Pés vestidos de lama seca. Penso . Aqui debaixo tudo é gigante. A minha casa é o imenso. A calçada. A marquise. O passeio. Estes trapos. Meu mundo. Restos de memória.

TOMADA III

O passageiro. Pasta de couro. Invade minha casa. Mesmo de gravata. Não pede licença. Passa sisudo e vai embora. São tantos invasores. Muitos me olham. Poucos me veem. Eu não me vejo.

TOMADA IV

A beata. Terço na mão. Cruza a rua. Na minha direção. Para. Pergunta – Tem parente, qual seu nome. Penso .Já não me lembro. Não respondo. Não importa. Deixa uma moeda. Sai. Sem pedir licença.

TOMADA V

A mãe passa. Devagar. Com a criança. E o pet. Suja o tapete. Não recolhe. Não pede desculpa. Torce o nariz. Penso . Acha que sou cachorro. De rua. Eu me pergunto – Fui criança. Não respondo. Não me lembro.

TOMADA VI

O doutor passa. Apressado. Elegante. De branco. Penso . Só pode ser médico. Este pode invadir. É importante. Logo me levanto. Estendo a mão – Uma esmola. Por favor. Ele segue. Indiferente.

TOMADA VII

O motoqueiro. De capacete. Entra na padaria. Correndo. Todos estranham. Eu não. Penso . Está atrasado. Eles devem pensar . É assalto. Minutos depois . Sai apressado. Um saco na mão. Me entrega. Sobe na moto. Sai zunindo. Olho . Dentro tem um pão.

TOMADA VIII

Uma moça. E o rapaz. Sei pelas roupas. Pelos modos. Mãos dadas. Namorados certamente. Se olham. Me olham. Franzem a testa. Ao mesmo tempo. Falam algo. É sobre dignidade. E seguem. Penso . Não conheço esta palavra.

TOMADA IX

Deito ao sol. Senhor do tempo. Pergunto – Quando foi que o relógio parou, É hora do café, Já passou do almoço, Vai ter janta. Não sei. Enfio a mão no bolso. Tantos trecos. Uma moeda. Da beata. Não sou rico. Isto é lenda. Não sei quem sou. Respondo ao taxista. Que já foi embora.

TOMADA X

Ensaiado. Todos em seus lugares. Atenção. Silêncio. Gravando.

(GeraldoCunha- republicado)

Série listas – ideias para compor um poema

Palavra manchada de vinho
Roupa embriagada pelo café
Tudo no plural
Na singularidade dos versos
Dicionário folheado
Sobra do vento assoprado
Suspiro do tempo
Lista de nomes
Alguns riscados
Os negritados…
Saudades acumuladas
Amores desesquecidos
Palavras inventadas
Rompante
Gotas de ódio
Destilados dos outros
Diluídos de amor
Dilúvio
Memórias que não são minhas
Inconsciente atrevido
Novamente memória
Agora coletiva
O voo do super homem
E nem precisa da capa
S de esperança
Chama à realidade
A poesia tem que ser concreta
Fogo que arde sem se ver
Isto já escreveram
Enfrente os clichês
Flores
Sonhos
Amores
Espinhos
AÍ!

GeraldoCunha/2021

Série sentimental – Velhice melancólica

Hoje acordei triste,
Manhã daquelas melancólicas.
Pensando nas despedidas
E as mudanças decorrentes.

Envelhecer e ver as pessoas morrendo de velhice entristece.
É o passado que vai sendo desfeito,
Somos nós que vamos deixando de ser futuro, presente e passamos a ser o passado.

Tem manhãs destes desatinos
Em que a nostalgia sacoleja a cabeça.
E eu me pergunto onde estão todos?
Hoje estão nas fotografias esquecidas.

Do colorido que a velhice deveria,
Vejo em preto e branco… fantasmas.
Em câmara lenta envoltos na neblina perambulam.
Circulando entre as cores que já não importam.

Nos olhos tristes a felicidade roubada.
Na boca o sorriso abandonado.
No silêncio a certeza de que o mundo está ficando surdo.
GeraldoCunha/2021