Volúpia

Volúpia

Leve
A xícara na boca
Escorrega os lábios
O aquecido da língua
esquecido
O tempo de outrora
Seguro na alça
Firme no calor
exalado
Pela fumaça
Da canela
Em pó
O aroma
Vertigem da memória
relampejo
Ao repouso da louça
O beijo marcado
De onde deslisa
a lágrima
Alcança o pires
Seca ao dedo
Que vai à boca
tênue
Repouso lento
Do nascer do dia
Ressaca da noite
volúpia

(GeraldoCunha/2020)

Série cotidiano – Beija-flor

Tem um beija-flor na varanda
Todos os dias vem me visitar
Pelas manhãs
No mesmo horário
Entre dez e onze horas
Chego na bancada
E logo vem
Um voo de aproximação
Uma paradinha no ar
Para logo pousar sempre no mesmo galho seco
Por segundos
E voa
O amor vai
Embora

(GeraldoCunha/2020)

Uma saudade

Saudade da meninice
Do riso solto
Da tristeza interrompida no gracejo
Do sem maldade
Do descompromisso espreguiçado
Da pureza do gostar
Da inocência em querer crescer

Saudade é
Cansaço de adulto que bate forte
No turbilhão dos sentimentos gota que se transforma em cachoeira
O sorriso que vai sendo deixado nas idades por não ser cultivado

GeraldoCunha/2020

Série poema curto – arranca pela raiz

Quando algo faz mal
Arranca
Cheira a raiz
Para não esquecer
E queima
Joga as cinza no mato
Amarra os cadarços
Caminhe
Não siga a trilha
Suje a sola da bota
Encharque-se
Está pesado?
Solta a boca do balão
Vento leva

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações – sem as vontades

sem as vontades

gostava era da conversa menorzinha no ouvido

sentindo o calor das letras juntando palavras

cócegas nos tímpanos

começava triste no fim de tudo rindo

não dava vontade de parar não

cadinho de esperança… alento!

vontades mais não preguiça curta de não falar

mãos poucas frases por terminar

emudecendo na folha

branca

sem as vontades da borracha

agonizam solidão

para as coisas do chá: conversa palavras gostava

para agora um gostar pouco

das faltas das vontades

esfria o esquecido

as palavras congelam

livros interrompidos

são só desejos pinicam faltam as vontades

hoje não! tem dias…

quando é assim jeito não

vai ficando…

amanhã talvez!

Série títulos- O diabo de cada dia

Tudo que sai daquela boca
Seria cômico,
Não fosse destruidor.
E os que riem?
São os fantoches.
E os que aplaudem?
São as marionetes.
Fanatismos,
Odeio esta palavra,
Tanto quando desprezo o ódio,
Faz da língua arma,
Cegos os olhos blindados,
Pergunto se a morte dos sonhos é assim.

Percurso e chegada

Estivemos juntos ou não, mas presentes em pensamentos.
Preferimos o silêncio às palavras, mas assim nos comunicamos.
Nos estranhamos às vezes, mas no final estávamos ali juntos.

Percorremos caminhos, seguimos o rumo que achávamos o certo.
Pegamos atalhos, quando acreditávamos ser a melhor opção.
Nessa nos aproximamos e nos distanciamos.

Tentamos o quanto foi possível.
Entre tentativas e frustrações, algumas desistimos, outras acreditamos.
Gratidão sempre pelo percurso, que é o mais importante.

Cruzamos a linha de chegada.
Sem querer olhar para frente ou para trás.
Mas com muita vontade de olhar para o lado e lá estar você.


Lista de romance

Lista de romances

Olhar. A boca. Livro. Um sorriso. Calafrio. Vinho. Uma taça. Outra. Toque. De leve. Rubor. Conchinha. Flerte. Luz. De velas. Pétalas. Por do sol. E luar. O dia todo. E a noite. Uma modinha. Namoradeira. Aquelas de janela. Horizonte. O horizonte. Belo Horizonte. Brisa. Desenho na areia. Que o mar leva. Um passeio. Mãos dadas. Primeiro encontro. Bolo de casamento. Votos. Renovação dos votos. Envelhecer e morrer. Juntos.

Série poema curto – Ecos inaudíveis

Tantas vozes silenciaram.
Dentro de mim (…) o eco.
Fora emudeceram.
As palavras não foram
Nem cortadas ao meio,
Nem interrompidas,
Foram (…) silenciadas
Veladas (…) inaudíveis.

O silêncio (…) os outros
Me fizeram calar.

Absentismo

Ausente, a falta não foi sentida.
Já não pertencia àquele lugar.
Não era percebido, sentido e observado.
Mas de algum modo fazia parte daquela cena.
Clamava por atenção em seu anonimato.
Mas em silêncio ficou, esperou e observou.
Era tempo mesmo de ficar.
Não tinha para onde ir.
Não tinha com quem ir.
Sozinho, não queria estar só.
Somente não era tempo de partir.
(GeraldoCunha)

Caderno de resiliência (Poema dedicado)


Sou um caderno de emoções,
Diário de sentimentos,
Escrevo, apago e reescrevo quem sou.
Não deixo as páginas em branco.
Marco-as com as tintas da vida.
Uso todas da palheta!
Preencho com o vibrante dos tons
Os momentos de otimismo e felicidade,
Rasuro os cinzas dos meus medos,
Procurando resgatar as cores.
Envergo o pincel, mas não me sucumbo.
Com as mãos firmes, seguro o tremor,
Contenho os temores e transponho a página,
Restaurando meu passado,
Renascendo no capítulo seguinte,
Para mais um salto à frente,
Vencendo meus medos com serenidade
E colorindo de amarelo os meus dias que eram de cinzas.

(GeraldoCunha/2020)

Imenso


Imenso

Do imenso do tempo, desafio a tempestade.
No atrevimento das horas,
Engulo os raios.
Postergo a calmaria.
Sucumbo às avalanches.
No enorme deste desassossego,
O minúsculo se agiganta.

Com as mãos ordeno o tempo.
Deito-as em punhos rijos.
Dissolvo as barras do não existir.
Agarro com os dedos a vida.
Clamo ao imenso a resiliência.
Enfrento o temor dos ventos.
Faço das lágrimas chuva de esperança.

Do imenso abismo roto,
Escalo as rochas úmidas.
No escorregadio do lodo,
Agarro-me ao impossível!
Pés firmes
Supero e sigo.

(GeraldoCunha/2020)

Amarração


Você disse que me traria o amor.
Em 7 dias.
Só não disse que ficaria.
No 8º partiria.

O pagamento,
Adiantado.
O resultado,
Garantido.
Sem dinheiro.
Sem volta.

O amor,
O dinheiro,
A esperança,
A confiança!
Sem volta.

(GeraldoCunha/2020)

Recheio


O melhor do queijo é a goiabada
O melhor do livro é o recheio
O melhor do pão é a manteiga
O melhor da vida é o recheio
O melhor do rio é a cachoeira
O melhor da cama é o recheio
O melhor do mar é a terra
O melhor da roupa é o recheio
O melhor da carteira é o dinheiro
O melhor do abraço é o recheio

(GeraldoCunha/2020)

Série open – Saudade quanta


De quanta saudade estamos falando?
Daquela que está à distância:
De um toque,
De um telefonema,
De um … abraço?
Daquela que não vai ter mais os braços?
Tem saudade demais para pouca ação.
Saudade falada, mais que sentida!
É saudade?
A saudade que eu reconheço hoje é aquela:
Que não se alcança,
Que não tem voz,
Que não tem…mais!
Saudade, se está ao alcance, pode ser contida, acalmada.
Aí são só saudadinhas!
Que carregam mágoas,
Que são só nostalgias.
A causa sempre é a ausência,
O sentimento de incompletude.
É o que se encontra nos dicionários,
Para o qualquer que se chame saudade!
Os poetas nem sempre se contentam:
Com estas distâncias,
Com estas definições,
Com estas quantidades.
Querem o imensurável!
Saudade não tem medida certa,
Não se segura com barreira de contenção,
Quando é, é avalanche!
Sempre penso se saudade é quanta..
Penso…pois minha saudade:
Não tem alcance,
Não tem o cheiro,
Não permite o encontro!
No tanto mais que eu quero, nem pouco mais posso ter.
Moral da história…
Se ainda se tem saudade que possa ser medida:
Ou não é saudade,
Ou são saudadinhas, que podem ser encurtadas.
Antes de se tornarem saudade.
(GeraldoCunha/2020)

NOS PASSOS E BRAÇOS DA POESIA – desafio poético …ENTÃO FLUTUE


Dançam os cabelos ao vento,
Escondendo o rosto que esconde o sorriso.
A valsa dos ventos e versos.
As folhas roçando os galhos em sinfonia.
Um poema que se vai construindo.

Dançam as folhas secas ao vento,
Flutuam meigas pelo ar.
Tocam a pele leve …. leve… leve,
Prendem nos cabelos que enfeitam,
Como as palavras que se abraçam em poesia.

Dançam os pássaros, enquanto assobiam a melodia.
Valsam entre os cabelos que voam,
Cobrem o rosto que já não esconde o sorriso.
Passos que flutuam, asas que valsam.
Braços que se enlaçam em versos.

(Um delicioso desafio de escrita proposto pelo poeta mineiro Estevan, do blog Sabedoria do Amor, https://estevamweb.wordpress.com/, um amigo escritor, de elevada cultura e conhecimento, que sempre com muito carinho prestigia a minha escrita simples e que transforma em poesias belíssimas suas experiências e as questões sociais atuais, nos chamando à reflexão)
A partir do poema Deixe-se levar” foi-se nascendo este poema “Então flutue” e a poesia Nos passos e braços da poesia deste ilustre poeta mineiro.
São só agradecimentos…

Série poema curto- Vai deixar passar


Poderia ser uma pergunta.
Poderia ser uma afirmação.
Poderia ser uma interjeição.
Mas é só uma frase sem futuro,
Pois quando perceber foi tarde demais…
Passou!
(GeraldoCunha/2020)

Lábios secos


Com os lábios secos
As primeiras palavras não saem
A boca presa à garganta cala
As palavras exiladas percorrem o corpo
E derramam pelas mãos trêmulas
Em rabiscos generosos se libertam
Nutrem o corpo
Umedecem a língua
Que passeia entre os lábios
Antes secos
Agora umedecidos
Deixando escapar a última que falta ao poema
Mas que o poeta em um assombro de egoísmo
Guarda para si
Ou para outro poema

(GeraldoCunha/2020)

Gostou? Tem mais este poema Entrelinhas

Série experimentações- Deixe-se levar


Vamos, é a nossa música!
Nós não temos uma música.
Agora temos.
Não sei dançar.
Siga meus pés.
E se eu pisar nos seus?
Eu te carrego pelo salão.
(Um respiro)
Deixe-se levar aos rodopios.
Posso cair.
Eu te seguro no segundo antes do chão.
Mas…
(O corpos se entrelaçam mais forte)
Não tenha medo, entregue-se.
Não tenho.
(Sussurros ao ouvido)
Então feche os olhos.
Já estavam fechados.
Os meus também.
(Suspiros)
(Rodopios)
(Mais rodopios)
(Pausa)
A música parou de tocar.
Mesmo? Não percebi.
Faz mais de uma hora.
Não escutei o tempo parar.
Não abra os olhos.
Deixe-se levar.

(GeraldoCunha/2020)

Recomendo a leitura do poema Nos passos e braços da poesia do amigo poeta mineiro Estevan MATIAZZ do blog Sabedoria do Amor, que surgiu de um delicioso desafio poético.

Estatística (vale a pena publicar de novo)


Para muitos sou apenas estatística.
Faço parte daquele grupo de 10% de alguma coisa.
Estou entre os que contribuem com 30% para alguma coisa.
Pertenço a uma categoria que corresponde a 80% de alguma coisa.

Para muitos sou apenas o que diz minha ficha técnica.
Não tenho nome, apenas um número que me identifica e me difere.
Não tenho sobrenome, apenas um diagnóstico do que estou sentindo.
Não tenho codinome, apenas um receituário que não tem rosto.

Para muitos sou apenas mais um.
Que anda pelas calçadas forçando o desvio.
Que apressadamente ocupa a única cadeira desocupada.
Que inadvertidamente lança um olhar que intimida.

Para muitos sou apenas um gráfico.
Numa escala de um a cem, sou qualquer número.
Entre duas linhas, vertical e horizontal, estou para mais ou para menos.
Numa reta, oscilo entre altos e baixos.

Para muitos sou apenas estatística.
Para mim sou corpo e mente.
Para muitos sou apenas ficha técnica.
Para mim sou nome e sobrenome.

Para muitos sou apenas mais um.
Para mim sou um a mais.
Para muitos sou apenas um gráfico.
Para mim sou representatividade.

(GeraldoCunha/2017)