Série: Visitando 2016 (tudo começou assim…) – Lá pelas tantas…


Lá pelas tantas não sabia se queria voltar.
Fui longe demais.
Vi, ouvi e falei pelo caminho.
Não era mais o mesmo desde que tudo começou.
Nunca se é.

Fui triste, alegre, indiferente e foi como deixei de ser, para ser outro eu.
No trajeto sempre surgia a dúvida entreve seguir e voltar.
A opção foi sempre seguir, mesmo quando tudo indicava que o melhor era voltar.
Recuei algumas vezes, mas nunca ao ponto da partida.

Recuar parece voltar, mas não é.
Voltar é desistir daquele caminho e não seguir outro.
É ficar.
Recuar é parar, tomar fôlego, avaliar estratégias e escolher entre ir para aquele mesmo lado ou seguir outro, sempre em linha reta.

Encontrei atropelos, resistências físicas e psicológicas minhas e de outros que faziam parte do trajeto.
Sentei um pouco, sem recuar, analisei, assimilei e me curei, para seguir.
Não foram poucas as vezes que estava só, noutras queria estar só.

Quantos também foram os momentos em que, acompanhado, sorri e chorei, ofereci o ombro e fui acalentado.
O caminho desde a partida tem sido longo.

Talvez tenha percorrido a metade do que me foi destinado.
Ou um pouco mais.
Vai saber.
Isto, se um dia foi importante, não mais é.

(GeraldoCunha/2016)

Série Poema Curto: saudade é para o além


Quero ser saudade para só depois da morte.
Não me enterre vivo dizendo da saudade se estou aqui.
Saudade é não poder tocar
E ter de se contentar em abraçar uma fotografia.
Chore saudade somente sobre minha lápide fria.

(GeraldoCunha/2020)

Esfumaçado


Escrevo esfumaçado
Para esconder a tristeza
Destas mãos trêmulas
A desenhar no papel
Fragmentos da vida
Entre receitas de bolos
E listas de compras
No abandono de uma mesa
Com cinco cadeiras vazias
Que exalam saudade

Minha tristeza só cabe
Nestes curtos espaços
Que o amarelado invadiu
Mas que me cede espaço
Para riscar letras dissonantes
Que a borracha vem e rasura
Esfumaçadas enganam
Mas não se escondem
Passam desapercebidas
Entre gramas, quilos e litros

Letras de saudade
Escritas com vigor
E arrancadas das páginas
Jogadas ao lixo
Transparente
Borradas na memória
Um nome rabiscado

(GeraldoCunha/2020)

Vale dos esquecidos


Todos esquecemos
E somos esquecidos.
Só nos esquecemos disto.
Mas eu não esqueci.
Só não estava lembrando.
Memória é coisa que vai e volta.
Tem vez que vai e não volta
E não adianta esperar!
Tem vez que vem e não faz sentido.
É memória roubada.
Pode ter sigo alguém que disse.
Ou é memória pela metade.
Sem o início, o meio ou o fim.

(GeraldoCunha/2020)

Série Open: ausência conformada – sinais


(Da série open, veja também Coração sincero-recado)

Tanta coisa para conversar. Mas que vai se perdendo na ausência. O tempo vai distanciando os dizeres. E a cada retorno uma história já se perdeu e não faz mais sentido ser compartilhada. Abre-se um clarão entre nós. É o tempo para perceber que o descuido nos afastou. Não tanto menos pela distância, mas quanto mais pela ausência conformada.

Um ponto de interrogação. “Hoje não dá”, “fica para depois”, “pode ser amanhã”, “pode esperar”. Substituído gradualmente pelas reticências. E o diálogo vai sendo suprimido, ficando só no subentendido ou no deixa pra lá. No vazio das reticências, os pontos e vírgulas, os dois pontos, as exclamações, as vírgulas e as aspas vão se evaporando. Em apressados “ois”, “tudo bem”, “saudades”, “lembrei de você”, “ligo depois”, que não fazem nenhum sentido.

E a ausência conformada nos impede até mesmo de por um ponto final.

(GeraldoCunha/2020)

Histórias de amizade

Como são lindas as histórias de amizade.
Carregadas de sentimentos.
Sufocadas de abraços.
Enlaçadas pela cumplicidade.
Risos, choro, lágrimas,
Choros, riso, lágrimas,
Acúmulos de amores!
Despretensiosos encontros de almas.
Ausência sentida,
Presença exigida,
Distância compreendida!
Inusitadas relações de opostos que se conectam.
Atropelo de erros e acertos
E entre idas e vindas,
A permanência …
Memória das tristezas e alegrias
Avalanche de saudade!

(GeraldoCunha/2019)

I Wish You Love (inspiration)


Exclua-me da sua vida
Se for para ser só saudade
Ou se o tempo das horas
For desculpa para não estar
Não quero ser um estorvo
Também não vou servir de consolo
Desocupe-me das suas mentiras
É alívio não fingir que acredito
É quando a paciência perde a calma
Se não gosta de estar aqui
O melhor é trocar a fechadura
Me deixando do lado de fora
Carregarei comigo a tristeza
Que não me acompanhará por muito
Dela desviarei na primeira esquina
É quando vou me despindo de você
Desejando-lhe um outro amor

(GeraldoCunha/2019)