Crônica de um sujeito sem rumo (vale a pena publicar de novo)


Fazia planos todas as noites, esperando começar a realizá-los logo que o dia amanhecesse. Mas o sono não vinha, se vinha era por pouco tempo, sobrava tempo para mais reflexões e mais planos eram idealizados, diante da percepção de que muito ainda podia ser feito para alterar por completo aquela vida que estava ali, por tanto anos, parada, no mesmo lugar, sabotando qualquer tentativa de fazer diferente.
Amanheceu, agora sonolento pela noite mal dormida, já não se lembra de todos os planos traçados, os poucos que se recorda pensa que podem ficar para outro dia, o sono tardio convida a ficar na cama.
Desperto, já tarde do dia, percebe que nada mudou, acordou, tomou café, ouviu a música de sempre, comeu a refeição e deitou novamente, depois de tentativas de sair daquela rotina. Já não importavam os planos traçados na noite anterior. Dentre os poucos de que ainda se recorda, para cada um, uma desculpa para começar a colocá-los em prática mais tarde.
Com a tarde indo embora e a noite querendo se mostrar, percebe-se sem rumo, nada fez, permitiu que a vida continuasse exatamente como está. Fez um lanche, comeu uma fruta e tomou um gole de café. Em frente à televisão hipnotizado e sem esperança, fazendo-se acreditar que os planos não eram para hoje e que poderiam ser colocados em prática amanhã, quando aquelas desculpas já não fizessem mais sentido e outras não pudessem ser inventadas, espera por nada, até a hora de tomar um copo de leite e deitar novamente.
A noite chegou, deitado, é hora de refazer os planos, pensar nos motivos e desculpas que impediram fossem realizados e ter esperança de que estes novos planos lhe darão um rumo diferente, mas o sono não vem.
(GeraldoCunha/2016) texto original, sem alterações ou correções.

Séries experimentações: A resposta


De qual poesia você mais gostou?
– aquela que você ainda não escreveu.
Como assim?
– assim mesmo, aquela que está por vir, que faz você vibrar a cada palavra escrita e eu posso daqui ver os seus olhos brilharem, sentir o calor do sorriso acanhado do lado esquerdo da sua boca. É tímido e lindo. E você nem me percebe, ali no outro canto, a abraçar uma xícara de chá, envolver-me em uma manta a espantar o frio a te admirar.
E eu respondo:
– Percebo, pois você é minha inspiração.
E você responde:
– e você é minha poesia.

(GeraldoCunha/2020)

Tempos sombrios


Não é o tempo que está diferente,
Éramos nós os indiferentes.
E ainda somos!
Sempre choveu e o tempo se fechou como de luto.
E para o tempo a tristeza destes dias não é diferente de hoje.
O medo, a insegurança, a dúvida sobre o amanhã aflora os sentimentos.
Nos faz perceber que só temos o hoje.
E como não percebemos isto antes?
O tempo percebeu.
Inventou o passado e o futuro para rir de nós.
Enquanto uma camada cinza redoma nossas cabeças,
Nos tranca com nossos pensamentos no sombrio do solitário.
Jogamos com o tempo, como se fosse o adversário, o rival, o inimigo.
Engano!
Lutamos com nosso reflexo que trêmula na poça d’água.
Indignamos como nossas próprias atitudes medíocres, quase sempre disfarçadas por vis atos nobres.

(GeraldoCunha/2020)

Série títulos : Show de Truman


A emoção nunca acaba na cena final, vai para os créditos e transborda da tela para a vida real, aonde a verdade é nua e crua, sem trilha sonora e sem roteiro definido, um texto decorado cotidianamente, em um cenário em que os personagens surgem do nada e somem como fumaça.

(GeraldoCunha/2020)

Série – Um pouco de mim


Na adolescência o contato com música. Antes não, ou talvez! gostava de algumas coisas no rádio ou na televisão, outras não entendia. Nada para se orgulhar.
Foi quando surgiram os videoclips que veio o interesse. E íamos pelos anos 80. A Blitz foi a banda que ligou o start. Parêntesis aqui para dizer: – recuperei os três LPs e o proibidão (prova da existência da censura). E agradeço por isso, não pela censura. O que era aquilo? entre tantos movimentos ocorrendo e que eu negligenciava, aquela música me fascinava. Meu gosto musical para aqueles tempos não era considerado o mais refinado, quem liga? Havia polarização, saudável! Ou nem tanto. Quando fui apresentado à Legião Urbana, conjurei, apesar de ter ficado hipnotizado por “Índios”, não podia admitir. Hoje devoro toda a obra de Renato Russo, de Cazuza e de tantas bandas nacionais. Escrevo ao som de Cindy Lauper, foi quem me trouxe estas memórias. Quando fui apresentado à cena musical mundial, de imediato me conquistou, assim como Madonna e um furacão, verdadeiramente furacão, chamado Tina Turner. Nem preciso dizer de Michael Jackson. Foi só o início, para quem tinha pouco acesso a este produto, depois fui apresentado à MPB e às bandas internacionais. Foi quando entendi Milton, Caetano, só para começar! Elis, Bethânia, Gal, Rita Lee, Tim Maia…Queem, Duran Duran, The Smiths, Van Hallen, The B-52’s (o que era aquilo?), Dire Straits, até chegar ao U2. E a RPM. Impossível listar. Foi assim que tudo começou, não sou músico, não toco nenhum instrumento, ainda tenho gostos duvidosos, mais sou um apaixonado por música, a ponto de respeitar todas as formas de expressão, o que não quer dizer que toque nas minhas playlists.

(GeraldoCunha/2020)