Série elos – Algumas distâncias são necessárias

Do olhar no horizonte
necessário descanso dos olhos
ao calmo do mar.
Percurso das ondas
Ditando o rumo do vento,
Que chega lento à face,
Em forma de brisa!

A estrada que se alonga sem curvas,
Leva o olhar para o horizonte,
Repetindo e repetindo a paisagem,
Esquecendo os zunidos de volantes afoitos,
Abafando as ofegantes buzinas que se perdem.

A árvore que se observa por sob,
No afastado da mata,
No silêncio longo das folhas,
Que se rompe ao sopro,
Afugentando os pássaros,
Que partem em debandadas asas.

Olhos que se prendem ao livro,
Perseguindo as mesmas palavras,
Em demoradas horas.
Esquecidas páginas.
No breve cochilo,
Escapam das mãos,
Devolvendo o pensamento à razão.

Música que se perde nos ouvidos,
à exaustão dos agrados intermináveis dos acordes,
Na penumbra calma da noite a engolir o dia,
Cobrindo com sonhos os ruidosos noturnos.

Título cedido por Alex konrado
TextoEarte GeraldoCunha

Rumos do poema


I ATO
O poema se completa a partir das memórias de quem o lê
Tantas vezes lido se transforma em outros tantos
O poema tem o seu tempo
Que é todo o tempo que é lido
Pode morrer ali, na última palavra, ou se perpetuar

II ATO
O poema muda de direção
Caminha pela tristeza
Percorre atalhos de alegria
Nas curvas da saudade descansa na calçada da solidão
Observa os passos dispersos
Aproxima do abismo esperando resgate

GeraldoCunha/2021

Piração

Respiro inspiração,
Seguro no fôlego as palavras,
Levo no suspiro os desejos.
Exalo os sentimentos!
Contraditórios sentidos…

Piração !

Invento as frases desconexas,
Perturbo os acentos:
Circunflexo,
Arco dobrado,
Em forma de crescente,
Ângulos que se juntam,
Noutra ponta se separam.

Piração !!

Jogo com as letras,
Palavras cruzadas,
Ou se atropelam
Ou derrubo o tabuleiro!
Ninguém marca ponto.
E pronto!

Piração !!!

Provoco os olhos dos incompreensíveis,
Ao regozijo dos meus.
Pisco e as frases aparecem…
Pisco e as frases somem…
Sobrevivem as capturadas no relance.

Piração !!!!

Rabisco o papel com aquarela.
A base é de água, tento mesclar e mancha.
Tudo desaparece no borrão das cores e a sensação é boa.
Ninguém jamais saberá o que foi o poema.

Provocação !!!!!

GeraldoCunha/2021

Série poema curto – flerte noturno

Vou dormir meu sono
Acordar meus sonhos
Flertar com a insônia
Rolar meu travesseiro
De encontro ao peito
Chutar a manta que me descobre
Depois de muito resistir
Abraçar os fantasmas que me visitam

GeraldoCunha/2021

Série de improviso – depois de muitos idos

Depois dos cinquenta, e poucos,

Decidi apagar o passado.

Rasgar as páginas, todas…uma a uma:

As bem escritas, as malescritas, as rasuradas, aquelas que ficaram em brancos tons de cinza, principalmente aquelas, e até as censuradas.

Para reescrever uma nova história o melhor é apagar o passado, muito se diz do contrário desta afirmação, para o agora penso por negação, está negação pode!

Vão me desdizer os filósofos, os psicólogos, os analistas e até aquele da mesa ao lado.

Lê-se um livro, fechando o outro.

A mesma técnica aplico ao meu caderno, recém comprado, que vou chamar de vida, não de nova vida, e que não terá prefácio.

(…no improviso tudo pode mudar a qualquer momento!)

GeraldoCunha/2021

Série livros que li – Crônica de uma morte anunciada

Atravessa os instantes das horas

à espera da morte

“Augúrio aziago”

Desatento ao prenúncio

No disse me disse dos testemunhos

O desenrolar dos acontecidos

Como cama vazia

Aconchego de tristeza

Perde-se a cabeça

Entrega-se à primeira paixão

Desonra das carnes

Vingada no arrebatar de facas

No que dizem ser defesa da honra

Oculta a covardia

do olho por olho

do dente por dente

Sem notas de arrependimento

Vida que se despede

Presságio

“nunca houve morte mais anunciada”, disse Gabo

Enquanto o luto veste-se de vermelho

Morre-se sem entender a morte

De facas que escorrem sangue inocente

📖

Obra de Gabriel Garcia Márquez

Na percepção de GeraldoCunha

Os destaques em “ ” são da obra

Prefácio: “O que explica a tragédia que se abateu sobre o protagonista de Crônica de uma morte anunciada?”

Série poesia concreta – em desconstrução

Série cotidianos- Lírio da paz

Ontem replantei o jardim. Vasos novos para a varanda. Os antigos, quebradiços, Sufocavam as viventes. Alguns, sem piedade, despencaram, ao susto. Sucumbiram ao atropelo do tempo. Desiludidos lá foram ao chão. Aviso das necessidades. Desplantados e descartados, Terra revolvida, Renovada e fortificada. Plantas desbastadas Raizes aparadas Regalos para a nova morada. Berços preparados Com pedrinhas de drenagem. Replantio: Terra, afago, húmus, afago, planta, afago, água. Um a um… dedicadamente, Os vasos habitados, Ao esquecimento das horas. Lá da sala o lírio da paz observava todo o movimento. É que há poucos dias decidiu que ia florescer. Do lado de fora, valsando entre as folhas da frondosa árvore, O beija-flor, daquele primeiro poema veio ver o acontecer. (GeraldoCunha/2021)

Poemas fugidios

Os poemas pularam da gaveta
Encontraram a porta da rua
E sairam a passear
E não foi a primeira vez

Escapando aos pisados
Andaram pelas ruas
À cata dos desavisados
Quebraram a última esquina
Rasgaram em rompante

Sumiram no horizonte
Nunca mais foram vistos
Estavam era fugindo
Desassossegados ao enfurno
lúgubre em que se achavam

Não mais regressaram
Grudaram à parede de outros espaços
Mostrados aos sentimentos dos aturdidos

(GeraldoCunha/2020)

Série agora desenhos – Crista do dia

Série PoemaCurto – Coloquial

E aí?
Choveu?
Aí?
Choveu?

Está chovendo!
São os lábios que dizem
Ao sentir do salgar da língua.

(GeraldoCunha/2020)

Fonte vida

Tu carregas em baldes a vida
Catados nas cisternas do teu ser
Do breu despertas o subterrâneo
Traz do profundo as águas
À corda içadas ao sarilho

Não te entregas aos cansaços
Sentes dos suplícios o peso
Despertas com o frescor
Dominas os medos
Da rotina as dores suplanta

Abrandas as poeiras os respingos
Que aos braços fortes escapam
Molhando ao suor
Das idas e vindas
Misturados ao corpo
Secas ao calor do sol

Derramas da fonte sobre o tempo
Espalhas em cacos espelho
Ao debruçar sobre o jarro
Irriga, nutre, alivia

(GeraldoCunha/2020)

Volúpia

Volúpia

Leve
A xícara na boca
Escorrega os lábios
O aquecido da língua
esquecido
O tempo de outrora
Seguro na alça
Firme no calor
exalado
Pela fumaça
Da canela
Em pó
O aroma
Vertigem da memória
relampejo
Ao repouso da louça
O beijo marcado
De onde deslisa
a lágrima
Alcança o pires
Seca ao dedo
Que vai à boca
tênue
Repouso lento
Do nascer do dia
Ressaca da noite
volúpia

(GeraldoCunha/2020)

Uma saudade

Saudade da meninice
Do riso solto
Da tristeza interrompida no gracejo
Do sem maldade
Do descompromisso espreguiçado
Da pureza do gostar
Da inocência em querer crescer

Saudade é
Cansaço de adulto que bate forte
No turbilhão dos sentimentos gota que se transforma em cachoeira
O sorriso que vai sendo deixado nas idades por não ser cultivado

GeraldoCunha/2020

Série open – Passos

Passos

Se só você é quem dá os primeiros passos:
Pare!
Pense!
Continue se valer a pegada.
Se te faz sofrer
Dê um basta!
Não deixe de dar os passos,
Apenas siga noutra direção.
Cuide de você
E de quem mereça o seu tempo.
Ocupe-se de você.
Dê tempo ao ócio
Que é melhor aproveitado.
Economize os pés,
Descanse a mente,
Deixe de caminhar na direção do egoísmo,
Não sinta culpa, rejeição ou desprezo.
Sinta alívio!

Série poema curto – arranca pela raiz

Quando algo faz mal
Arranca
Cheira a raiz
Para não esquecer
E queima
Joga as cinza no mato
Amarra os cadarços
Caminhe
Não siga a trilha
Suje a sola da bota
Encharque-se
Está pesado?
Solta a boca do balão
Vento leva

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações – sem as vontades

sem as vontades

gostava era da conversa menorzinha no ouvido

sentindo o calor das letras juntando palavras

cócegas nos tímpanos

começava triste no fim de tudo rindo

não dava vontade de parar não

cadinho de esperança… alento!

vontades mais não preguiça curta de não falar

mãos poucas frases por terminar

emudecendo na folha

branca

sem as vontades da borracha

agonizam solidão

para as coisas do chá: conversa palavras gostava

para agora um gostar pouco

das faltas das vontades

esfria o esquecido

as palavras congelam

livros interrompidos

são só desejos pinicam faltam as vontades

hoje não! tem dias…

quando é assim jeito não

vai ficando…

amanhã talvez!

Plantando bananeira

Um poema é para ser lido pela frente, do avesso, nas entrelinhas, linha a linha, costurando as frases, emendando um a outro, remendando, de trás para frente, pelos meios, pelas beiradas, na beira de um rio, pelas margens, dentro de um barco, sem o remo, sentindo os respingos da brisa, enxugando as lágrimas, salteando palavras, pulando corda, respirando, suspirando, do começo ao fim, só o fim, só o começo, se conseguir, cantarolando, rimando, compassando, aos passos, sem tropeços, sentado, concentrado, deitado, sem dormir, se dormir, sonhando, um poema é para ser lido plantando bananeira.

GeraldoCunha/2020