Dar tempo ao tempo


(Estou também no Instagram @divagacoesgcc.geraldocunha)

Hoje vou dar um tempo ao tempo
D E S L I G A R E I:
O relógio para não despertar;
O telefone para não incomodar;
A televisão para não clarear.
F E C H A R E I:
A cortina para o sol não entrar;
As caixas da mente para não pensar;
O caderno para não criar.
D E I X A R E I :
O tempo descansar …
Dos ponteiros;
Dos clarões;
Do poeta.

(GeraldoCunha/2020)

Útero


Quero voltar para o útero de minha mãe.
De onde não queria sair.
Fui expulso!
Não tive escolha, o mundo se abriu.
E eu curioso quis ver como era.
Achei tudo hipnotizante.
Não entendi bem o que vi.
Não compreendi o que as pessoas diziam.
E quis voltar para o útero de minha mãe!
Mas me foi oferecido só os peitos.
Foi o que bastou para eu querer ficar.
No colo me senti tal-qualmente protegido.
Até o momento que ouvi: vai pra vida!
Criei coragem
E eu fui!
Do que venho vivendo
Muito desgostei,
Outros tantos me foi é indiferente,
Um quanto de tudo e um pouco mais, gostei.
Mesmo assim, hoje quero voltar para o útero de minha mãe.

(GeraldoCunha/2020)

Vale dos esquecidos


Todos esquecemos
E somos esquecidos.
Só nos esquecemos disto.
Mas eu não esqueci.
Só não estava lembrando.
Memória é coisa que vai e volta.
Tem vez que vai e não volta
E não adianta esperar!
Tem vez que vem e não faz sentido.
É memória roubada.
Pode ter sigo alguém que disse.
Ou é memória pela metade.
Sem o início, o meio ou o fim.

(GeraldoCunha/2020)

Céu de fé

(Veja também Das dores)

Quando olhei o céu
Não vi estrelas.
Tudo quieto!
Estava sozinho…
E chorei!
Restava o amanhecer.
Esperei…
E não veio.
Fiquei preso na noite!
No escuro dos sentidos,
Sentia … as lágrimas!
Frias, escorriam até a boca.
Umedecendo os lábios,
Com sal!
Toquei o céu da boca.
Olhei o céu sem estrelas.
Umedecendo os lábios,
Descansei os olhos
Imaginei estrelas
E me pus a rezar
Na noite cárcere.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações: Felicidade boba

(Da série experimentações veja também Senhores dos absurdos)

Acordei ouvindo ‘As long as you love me’. Cantei com Backstreet Boys. Dancei com o vento. Enquanto esquentava a água para o café. As torradas não queimaram. A água não ferveu. Cheirava a pó de café. Torrado e moído na hora. Não era. Mas parecia. Cedendo aos gracejos de ‘Pelados em Santos’. Vi alguém sorrindo no espelho. ‘Very very Beautiful’. Parecia comigo. Mais alegre. Tomei da xícara pelas asas. Sorvidos sabores. E as manhãs já não eram mais as mesmas. Pensei. Perseguem tanto a felicidade. E a felicidade é boba. Dá medo de tão fugaz. Duvidei. Então nem me bilisca. Se for sonho. Não quero acordar.

(GeraldoCunha/2020)

Série Open: ausência conformada – sinais


(Da série open, veja também Coração sincero-recado)

Tanta coisa para conversar. Mas que vai se perdendo na ausência. O tempo vai distanciando os dizeres. E a cada retorno uma história já se perdeu e não faz mais sentido ser compartilhada. Abre-se um clarão entre nós. É o tempo para perceber que o descuido nos afastou. Não tanto menos pela distância, mas quanto mais pela ausência conformada.

Um ponto de interrogação. “Hoje não dá”, “fica para depois”, “pode ser amanhã”, “pode esperar”. Substituído gradualmente pelas reticências. E o diálogo vai sendo suprimido, ficando só no subentendido ou no deixa pra lá. No vazio das reticências, os pontos e vírgulas, os dois pontos, as exclamações, as vírgulas e as aspas vão se evaporando. Em apressados “ois”, “tudo bem”, “saudades”, “lembrei de você”, “ligo depois”, que não fazem nenhum sentido.

E a ausência conformada nos impede até mesmo de por um ponto final.

(GeraldoCunha/2020)

R E L Ó G I O D O T E M P O


Tudo tem o seu tempo!
Frase de efeito.
Ou se come cru.
Ou se come queimado.
Há quem espera o tempo certo.
Há quem coma a ansiedade.
Certo é que do tempo não se escapa.

O tempo não para!
Foi o poeta quem disse.
Ou se corre muito
E atropela!
Ou vai no d e v a g a r
E é atropelado!
Se parar passam por cima.

O tempo rouba a memória!
Sou eu quem digo.
Se os ponteiros não correm juntos,
O risco é ficar para trás ou sumir na frente.
Isto o relógio não perdoa!
Implacável é fiel ao tempo.
É quando a saudade dá o seu jeito.

(GeraldoCunha/2020)