Espiral


Espiral

Escrevo e fujo dos rabiscos que fiz. Abandono o caderno ainda aberto. Para as palavras fugirem. E elas me perseguem. Corro para longe. Escorrego nos esses. E volto ao começo. Preso na espiral. Do caderno. Desenho uma porta de saída. Escapo e fujo dos rabiscos que fiz. Se há porta. Tem que haver janela. E por elas escapam as palavras. Viram pássaros. E voam. Em vês me agarram. Pelos ombros. Pelas pernas. Pelos braços. E me lançam de volta. Pela chaminé. E volto ao começo. Preso na espiral.
Da vida. Desenho labirintos de tês e agás. Traço rotas. E fujo dos rabiscos que fiz. Novamente.

(GeraldoCunha/2019)

Selfie (Poema Curto)

De tanto só tirar selfie
Eu me apaixonei por mim
O tanto quanto esqueci de quem estava ali
Eu me desocupei dos lugares
Até do abismo em que fui cair
Eu me deixei levar pela necessidade
Por quem nem estava por ali
Eu não me aproveitei do momento
Preocupado com melhor filtro a inserir

(GeraldoCunha/2019)

Alma gêmea


Não quero pessoas intocáveis, preciso sentir o tato, o cheiro, o sabor e escutar sussurros desassossegados.

Desavergonhadamente quero tocar, cheirar, saborear e silenciar.

Calorosamente quero o toque, o sentir, o saborear e abafar o som da sua voz.

Atrevidamente quero ser tocado, sentido, saboreado e escutado.

Calmamente quero não tatear, não cheirar, não sentir e não escutar, candidamente adormecendo em seus braços.

(GeraldoCunha)

Indiretas (insanidades)


Não gosto das indiretas,
quase sempre acho que são para mim
e gasto horas tentando interpretar
e me encaixar no perfil descrito.

Quando não isso,
outras horas tantas
gasto tentando adivinhar
para quem foram direcionadas
ou qual a circunstância que levou a isso.

É sempre um fardo para mim,
pois aflora uma fraqueza que tento não ter,
mas que tenho e por não conseguir não tê-la,
escondo bem lá no fundo do meu ser.

Aí vem a indireta lançada a quatro ventos,
com endereço certo,
por certo não para mim,
e eu divido com este não sei quem
a dúvida e a certeza da insatisfação do outro.

Pelo menos neste ponto sou um ser solidário.
Fosse eu egoista,
deixava para o outro
a certeza da indireta.

(GeraldoCunha/2016)

Personalidades


Este aí que você vê não sou eu
É apenas o reflexo de uma personalidade
Outras tantas personalidades se escondem
E vão se revelando quando acham conveniente
São tantas e não há conflito do lado de cá
O conflito quando se trava é com o outro lado
A depender da personalidade que se revela
E com quem se cruza pela caminho
À noite todas voltam para casa e dormem de conchinha
Depois que todos os espelhos se voltam para as paredes
E a luzes se apagam escondendo uma a uma as sombras

(GeraldoCunha/2019)

Jogo do tempo (vale a pena publicar de novo)


(texto produzido e publicado originalmente em 2017 – fotogragia 2019)

Hoje eu não quero fazer mais nada, a não ser olhar o tempo.
E já faço muito, pois é tarefa por demais àrdua.
Entro num jogo que quase sempre perco.
Olhar o tempo requer pensar no que foi, no que é e como será.
Ufa!
Só de pensar canso.
Mas não desisto.
O não fazer nada é um engano, embaralhamento das ideias.
Eu sei, mas quero jogar.
O tempo se mistura, o que foi, parece ainda ser e talvez nunca será.
Não, não e não.
Não quero pensar e por isso fico só a olhar o tempo.
Penso não fazer nada, mas faço.
Penso, é isso!
Como esvaziar a mente se penso?
No foi, no é, no agora?.
Mas tudo é hoje, fagulha de tempo, quando se vê, veio e foi.
Então apenas é e fico a olhar o tempo, enquanto não faço nada.
Estou enganando a quem?
A mim talvez.
Só não engano o tempo, que no meio do nada, neste jogo, me lembra o que fiz, quem eu sou e como gostaria que fosse.
Nessa de não fazer nada, acabo fazendo mais do que deveria.
Jogo com o tempo e ele quase sempre ganha, pois tem nas mãos o que foi, o que é e como será.
Nessa de olhar o tempo, entro em um jogo de cartas marcadas em que tenho a meu favor apenas o fator surpresa.
Algumas vezes ganho, em muitas perco, mas continuo.
E eu que não queria fazer nada e só olhar o tempo ?!
(GeraldoCunha/2017)

Convite


no meu coração
terá sempre um cantinho para você,
na minha casa
sempre haverá uma xícara de café quentinho,
no meu corpo
reservarei um ombro para secar as lágrimas
no meu pensamento
buscarei as melhores lembranças
no meu abraço
guardarei as alegrias e expulsarei as tristezas
nos meus gestos
desenharei seus traços
nas minhas palavras
ouvirá afeto com sinceridade
no meu convite
a resposta é a reciprocidade

(GeraldoCunha/2019)