Relógio


Falo tanto sobre o tempo
Que tenho receio de me repetir
O tempo não se repete
O passado não se reinventa
Fica guardado na memória
E vai se desfazendo
O presente é o milésimo de segundo
Ou menos que isto
Quer tanto o futuro
Quando se vê já é passado
O tempo é o instante
O relógio se repete
O tempo dele não

(GeraldoCunha/2019)

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Café da manhã


(@divagacoesgcc.geraldocunha – mais um canal de interação)

Derrame a xícara com fel na pia
E nos sirva um café coado na hora
Ponha uma colher de mel para adoçar
Duas gotas de chocolate para meu bem estar
Sente ao meu lado e vamos degustar
A manhã que se inicia
A notícia que não é novidade
Que o amargor escorra pelo ralo
E os aromas nos envolvam as narinas
E que o dia comece assim
Sem mágoas
Sem rancores
Só amores
Uma tela em branco
Pronta para ser pintada

(GeraldoCunha/2019)

Ninho


A minha mente está povoada de palavras:
ninho, aninhar, afagar.
O que pode significar?
Construir o ninho, graveto a graveto.
Aninhar, preparar para chocar!
Afagar a cria, cuidar, alimentar.
Ninho, construção de carinho.
O que pode significar?
Casa de aninhar, afagar.
Ninho de aquecer, aninhar.
Afagar com as asas, abraçar!
Ninar a ninhada, preparar para voar.
A minha mente está povoada de palavras:
abraçar, soltar, voar.
O que pode significar?

(GeraldoCunha/2019)

Alto-falante


(Ensaio/experimento da Oficina O Cinema da Escrita)
Sentando na varanda. Ouve-se um som contínuo de um alto-falante. Alguém aos berros. Como se precisasse do equipamento. Levanto a cabeça. Posiciono os ouvidos de um lado. Nada. Vou para outro lado. Ainda não se entende. Não se sabe o que grita. Mas não para. Neste tempo de ajeitar os ouvidos pensa-se em tudo. Pode ser uma passeata. Há muitas nos dias de hoje. No passado também havia. Não. Não é. Não são palavras de protesto. O livro foi abandonado na poltrona. Insisto em ouvir. Ele em gritar. Não é o músico do prédio de frente. Não ouço violino. Quando há música sempre há violinos. E piano. Não. Não é. Acostumados os ouvidos. Escuto: “olha os morangos, morangos graúdos, quem vai querer, 3 por 10, tá barato freguês”.

(GeraldoCunha/2019)

Estação partida


Sempre estou pronto para partir.
Não que eu queira ir!
É que não tenho razão para ficar.
As pessoas são estranhas neste lugar.
Falam uma linguagem que não sei decifrar.
E os ouvidos são incapazes de me alcançar.
Dizem que é por ter escolhido a solidão,
Mas se enganam.
Foi a solidāo quem me escolheu!
Não dá para dizer que foi uma opção.
Enquanto espero nesta estação,
Vou observando os que chegam,
E me despedindo dos que antes partem.
Convivendo como posso com os passantes,
Ignorando como devo os que entediam.
Só observando!
Só esperando!
Só esperançando…
Tendo sempre a solidão como companheira,
Mas de quem por tantas vezes quis me divorciar.
E não me julguem!
Sempre procurei um jeito de reconciliar.
Sai perambulando e sem me encontrar,
Voltei para o mesmo lugar,
Sentei na mala e estou a esperar
A hora definitiva de embarcar,
Não que eu queira partir!
É que não pertenço a este lugar!
Fico pensando que é melhor eu voltar,
Mas não sei em qual trem embarcar.
Abraço a companheira e espero.

(GeraldoCunha/2019)

(inspiração: A música Encontros e despedidas de Milton Nascimento e Fernando Brant)

I Wish You Love (inspiration)


Exclua-me da sua vida
Se for para ser só saudade
Ou se o tempo das horas
For desculpa para não estar
Não quero ser um estorvo
Também não vou servir de consolo
Desocupe-me das suas mentiras
É alívio não fingir que acredito
É quando a paciência perde a calma
Se não gosta de estar aqui
O melhor é trocar a fechadura
Me deixando do lado de fora
Carregarei comigo a tristeza
Que não me acompanhará por muito
Dela desviarei na primeira esquina
É quando vou me despindo de você
Desejando-lhe um outro amor

(GeraldoCunha/2019)

Saudade volta (Poema curto)


Levaram minha saudade embora.
Deixaram um coração vazio.
Foi o que me restou.
O que me restou.
Me restou.
Restou.
Foi!

Saudade volta para este coração.

(GeraldoCunha/2019)