Série sem fôlego – insubordinações

entre a varanda e o quarto derrapam pelos cômodos incômodos os poemas escorregam pelas janelas espreitam pelas frestas ficam caídos no corredor agarram-se na tinta descascada que atormenta a parede sobram poucos que se perdem no escuro da alma assombram misturam-se a tantos outros nestes idos e vindos no friúme dos passos descalços da pedra ao assovio do vento que descuida soprando os restos interrompidos para debaixo da cama repousando o branco da folha amarrotada abrasando no fundo da latrina

(GeraldoCunha/2021)

Série sentimental – olhar de pressa

Não me venha com este olhar de
[pressa
Acusando a falta de tempo
[que não é só sua
Urge o tempo
Urge a lenha que queima
A fogueira da vida arde
[Na pressa dos sem pressa
Se o olhar é de pausa
Não é sobra de tempo
É bom aproveitamento

(GeraldoCunha/2021)

Série reciclos- Penas

duras penas
se arrancam
no tempo
não sangram
consomem-se em arte
voejam

assopram
o vento coça o nariz
plúmulas
descansam
sobre planadas
cerdas
aguçam os sentidos

pena
sinto
dos
que
sangram
e não sentem

(GeraldoCunha/2021)

Série listas – ideias para compor um poema

Palavra manchada de vinho
Roupa embriagada pelo café
Tudo no plural
Na singularidade dos versos
Dicionário folheado
Sobra do vento assoprado
Suspiro do tempo
Lista de nomes
Alguns riscados
Os negritados…
Saudades acumuladas
Amores desesquecidos
Palavras inventadas
Rompante
Gotas de ódio
Destilados dos outros
Diluídos de amor
Dilúvio
Memórias que não são minhas
Inconsciente atrevido
Novamente memória
Agora coletiva
O voo do super homem
E nem precisa da capa
S de esperança
Chama à realidade
A poesia tem que ser concreta
Fogo que arde sem se ver
Isto já escreveram
Enfrente os clichês
Flores
Sonhos
Amores
Espinhos
AÍ!

GeraldoCunha/2021

Série cotidianos- Outrora

O poeta repousa em versos
dispensados sobre a mesinha ao lado da poltrona.
Descansa as letras no escuro da madeira.
Afaga com as costas as almofadas que resistem
para logo cederem.

Os olhos se voltam para o Belo
Horizonte que invade pela janela,
Atraídos pelos perfumes que perfuram as narinas.
O cheiro do verde, do orvalho que não veio, do vento da chuva que ameaça, da terra adubada,
Traz outrora.

Infância de pés descalços,
Represando os rios deixados pela chuva,
Desafiando a lama que escorrega o corpo,
No inocente do barro lambuzando as vestes,
Respingando na boca,
Provocando risadas entusiasmadas,
No susto ….interrompidas pelo grito
de uma voz carinhosamente irritada.

Dormências lembrando as idades,
Recobro do tempo esquecido no dantes,
Sentindo o presente despertando,
o poeta se espreguiça, sacode os versos,
que pulam para as mãos ainda letárgicas,
Marcando com o dedo por onde a leitura continua.

GeraldoCunha/2021

Série poemamínimo – Brasil

Série títulos longos – Desbotadas cores vivas pululantes preenchem o papel invadem vida expulsam os tons pastéis para as bordas

tons pastéis
nas bordas
traçados espaços
definindo limites
régua prisional

tremer das mãos
desafiando os contornos
rompimento

lápis
carrega a cor
salta
para o papel
preenche pontilhados
em miúdos círculos
concêntricos
marejados

em algum momento
as cores
Escapam da tela
tonificam a pele
reverberando vida

GeraldoCunha/2021

Série poesia concreta- intermitências

Série sem fôlego- Felicidade não se pontua

A felicidade pode estar presa dentro de uma caixinha que se abre ao toque das sensações que envolvida em papel de seda ao abrir exala memória perfumada do que foi cativado e daquilo que o desejo almeja e sem barreiras num instante escapa

(GeraldoCunha/2021)

Série dedicados – No sopro do tempo

Tudo se modificando tão depressa
No lentamente do tempo
Os anos passam
Um sobre o outro
Entre rosas e bolos
Se acendem
E se apagam
Ao sopro da vela
Rajada de vida
Ventos de sonhos
Desejos em ebulição
Um mundo novo por colorir
Com as cores de sua escolha
Refletindo suas realizações

GeraldoCunha/2021

Dedicado a Gabriela Borges, afilhada querida, pelo seu aniversário.

Presenteamos com que temos de melhor.

Série de improviso – depois de muitos idos

Depois dos cinquenta, e poucos,

Decidi apagar o passado.

Rasgar as páginas, todas…uma a uma:

As bem escritas, as malescritas, as rasuradas, aquelas que ficaram em brancos tons de cinza, principalmente aquelas, e até as censuradas.

Para reescrever uma nova história o melhor é apagar o passado, muito se diz do contrário desta afirmação, para o agora penso por negação, está negação pode!

Vão me desdizer os filósofos, os psicólogos, os analistas e até aquele da mesa ao lado.

Lê-se um livro, fechando o outro.

A mesma técnica aplico ao meu caderno, recém comprado, que vou chamar de vida, não de nova vida, e que não terá prefácio.

(…no improviso tudo pode mudar a qualquer momento!)

GeraldoCunha/2021

Série livros que li – Crônica de uma morte anunciada

Atravessa os instantes das horas

à espera da morte

“Augúrio aziago”

Desatento ao prenúncio

No disse me disse dos testemunhos

O desenrolar dos acontecidos

Como cama vazia

Aconchego de tristeza

Perde-se a cabeça

Entrega-se à primeira paixão

Desonra das carnes

Vingada no arrebatar de facas

No que dizem ser defesa da honra

Oculta a covardia

do olho por olho

do dente por dente

Sem notas de arrependimento

Vida que se despede

Presságio

“nunca houve morte mais anunciada”, disse Gabo

Enquanto o luto veste-se de vermelho

Morre-se sem entender a morte

De facas que escorrem sangue inocente

📖

Obra de Gabriel Garcia Márquez

Na percepção de GeraldoCunha

Os destaques em “ ” são da obra

Prefácio: “O que explica a tragédia que se abateu sobre o protagonista de Crônica de uma morte anunciada?”

Série poesia concreta – em desconstrução

Série palavras ao vento – Voz

Poemas fugidios

Os poemas pularam da gaveta
Encontraram a porta da rua
E sairam a passear
E não foi a primeira vez

Escapando aos pisados
Andaram pelas ruas
À cata dos desavisados
Quebraram a última esquina
Rasgaram em rompante

Sumiram no horizonte
Nunca mais foram vistos
Estavam era fugindo
Desassossegados ao enfurno
lúgubre em que se achavam

Não mais regressaram
Grudaram à parede de outros espaços
Mostrados aos sentimentos dos aturdidos

(GeraldoCunha/2020)

Série PoemaCurto – Coloquial

E aí?
Choveu?
Aí?
Choveu?

Está chovendo!
São os lábios que dizem
Ao sentir do salgar da língua.

(GeraldoCunha/2020)

Fonte vida

Tu carregas em baldes a vida
Catados nas cisternas do teu ser
Do breu despertas o subterrâneo
Traz do profundo as águas
À corda içadas ao sarilho

Não te entregas aos cansaços
Sentes dos suplícios o peso
Despertas com o frescor
Dominas os medos
Da rotina as dores suplanta

Abrandas as poeiras os respingos
Que aos braços fortes escapam
Molhando ao suor
Das idas e vindas
Misturados ao corpo
Secas ao calor do sol

Derramas da fonte sobre o tempo
Espalhas em cacos espelho
Ao debruçar sobre o jarro
Irriga, nutre, alivia

(GeraldoCunha/2020)

Série cotidiano – Beija-flor

Tem um beija-flor na varanda
Todos os dias vem me visitar
Pelas manhãs
No mesmo horário
Entre dez e onze horas
Chego na bancada
E logo vem
Um voo de aproximação
Uma paradinha no ar
Para logo pousar sempre no mesmo galho seco
Por segundos
E voa
O amor vai
Embora

(GeraldoCunha/2020)

Uma saudade

Saudade da meninice
Do riso solto
Da tristeza interrompida no gracejo
Do sem maldade
Do descompromisso espreguiçado
Da pureza do gostar
Da inocência em querer crescer

Saudade é
Cansaço de adulto que bate forte
No turbilhão dos sentimentos gota que se transforma em cachoeira
O sorriso que vai sendo deixado nas idades por não ser cultivado

GeraldoCunha/2020