Série cotidiano – Beija-flor

Tem um beija-flor na varanda
Todos os dias vem me visitar
Pelas manhãs
No mesmo horário
Entre dez e onze horas
Chego na bancada
E logo vem
Um voo de aproximação
Uma paradinha no ar
Para logo pousar sempre no mesmo galho seco
Por segundos
E voa
O amor vai
Embora

(GeraldoCunha/2020)

Uma saudade

Saudade da meninice
Do riso solto
Da tristeza interrompida no gracejo
Do sem maldade
Do descompromisso espreguiçado
Da pureza do gostar
Da inocência em querer crescer

Saudade é
Cansaço de adulto que bate forte
No turbilhão dos sentimentos gota que se transforma em cachoeira
O sorriso que vai sendo deixado nas idades por não ser cultivado

GeraldoCunha/2020

Série títulos- O diabo de cada dia

Tudo que sai daquela boca
Seria cômico,
Não fosse destruidor.
E os que riem?
São os fantoches.
E os que aplaudem?
São as marionetes.
Fanatismos,
Odeio esta palavra,
Tanto quando desprezo o ódio,
Faz da língua arma,
Cegos os olhos blindados,
Pergunto se a morte dos sonhos é assim.

Lista de romance

Lista de romances

Olhar. A boca. Livro. Um sorriso. Calafrio. Vinho. Uma taça. Outra. Toque. De leve. Rubor. Conchinha. Flerte. Luz. De velas. Pétalas. Por do sol. E luar. O dia todo. E a noite. Uma modinha. Namoradeira. Aquelas de janela. Horizonte. O horizonte. Belo Horizonte. Brisa. Desenho na areia. Que o mar leva. Um passeio. Mãos dadas. Primeiro encontro. Bolo de casamento. Votos. Renovação dos votos. Envelhecer e morrer. Juntos.

Amarração


Você disse que me traria o amor.
Em 7 dias.
Só não disse que ficaria.
No 8º partiria.

O pagamento,
Adiantado.
O resultado,
Garantido.
Sem dinheiro.
Sem volta.

O amor,
O dinheiro,
A esperança,
A confiança!
Sem volta.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Deixe-se levar


Vamos, é a nossa música!
Nós não temos uma música.
Agora temos.
Não sei dançar.
Siga meus pés.
E se eu pisar nos seus?
Eu te carrego pelo salão.
(Um respiro)
Deixe-se levar aos rodopios.
Posso cair.
Eu te seguro no segundo antes do chão.
Mas…
(O corpos se entrelaçam mais forte)
Não tenha medo, entregue-se.
Não tenho.
(Sussurros ao ouvido)
Então feche os olhos.
Já estavam fechados.
Os meus também.
(Suspiros)
(Rodopios)
(Mais rodopios)
(Pausa)
A música parou de tocar.
Mesmo? Não percebi.
Faz mais de uma hora.
Não escutei o tempo parar.
Não abra os olhos.
Deixe-se levar.

(GeraldoCunha/2020)

Recomendo a leitura do poema Nos passos e braços da poesia do amigo poeta mineiro Estevan MATIAZZ do blog Sabedoria do Amor, que surgiu de um delicioso desafio poético.

Série poema curto – Paradoxo


Não ontem
Não mais cedo
Agora
Sou
Uma
Peça
Mínima
Nesta engrenagem
Substituível
Não daqui a pouco
Não amanhã
Agora
Olho
Para
Os lados
Só vejo
As cinzas
Uma semente
Terra
Água

(GeraldoCunha/2020)

Enquanto isso…


Coelhinho da Páscoa não bota ovo
Só esconde os ovos no jardim
E é verdade que são de chocolate
E eu não gosto é do recheio e de Natal

Papai Noel não desce pela lareira
Vem pela porta da frente
Deposita o presente sob a cama
Eu não vi pois estava sonhando

Sonhando com os duendes
Mas eles não vivem nas florestas
Habitam o pote de doces na cozinha
Foi um quem me contou

E eu guardo seu segredo
Em troca de guloseimas
Que a fada dos dentes não me veja
Ou me manda para a terra dos gigantes

E continua …na terra do nunca!

(GeraldoCunha/2020)

Entrelinhas


É o que não foi dito
Entre o começo até o ponto final
Reticências
Frases que evaporaram
Secaram a tinta antes da impressão
Branco, branco, branco
Borrado pensamento

É o silêncio interpretado
Não compreendido
Não compreendido
Interjeição
Que precisa ser explicado
Precisa ser explicado
Interrogação
Entremeio de ausência
Espaço de alucinações

É o espaço do aposto
Em branco
Entre vírgulas
O vazio
E não se entende nada
Não se pede explanação
Fica o não dito pelo dito

É todo o pensar contido
Interrompido
O silêncio das palavras
Um livro de entrelinhas
Entre as linhas o nada
E tantos intérpretes
Sem exclamação

(GeraldoCunha/2020)

Séries experimentações: A resposta


De qual poesia você mais gostou?
– aquela que você ainda não escreveu.
Como assim?
– assim mesmo, aquela que está por vir, que faz você vibrar a cada palavra escrita e eu posso daqui ver os seus olhos brilharem, sentir o calor do sorriso acanhado do lado esquerdo da sua boca. É tímido e lindo. E você nem me percebe, ali no outro canto, a abraçar uma xícara de chá, envolver-me em uma manta a espantar o frio a te admirar.
E eu respondo:
– Percebo, pois você é minha inspiração.
E você responde:
– e você é minha poesia.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- destrutividade


Minha criatividade acabou.
Os últimos suspiros coloquei em um papel, embolei e depositei no saco preto do lixo. Rabisquei as últimas linhas dos restos que restaram do papel picado, papel de árvore plantada e destruída. Desgastei o lápis até onde o tato não podia mais alcançar e guardei como lembrança.
O grafite. Preto, sujando-se os dedos. Para mim, como um pedaço mínimo de carvão que criava, carvão de planta morta, queimada, reduzida a …carvão. Agora uma lembrança, que como todas as outras, será confundida, esquecida.

(GeraldoCunha/2020)

Sem título


Estive escondido pela vida,
Que quando ressurgi assustei
Aos outros,
A mim.
Quando olhei para trás
E a porta se fechou,
Não tinha como voltar,
Como me esconder.
E já não era o que eu queria.
A cada passo uma luz se acende,
Tremula,
Pisca fraca e vai se fortalecendo.
Sigo, desafiando os que dizem:
– não pode!
– não é capaz!

(Sempre quis fazer um poema sem
Título)

GeraldoCunha

Viagem ao espaço tempo


Viajar é se permitir.
Estar aberto para novas experiências.
Voe sem amarras.
Esqueça as malas.
Você sem asas.
Rasgue as roupas e saia.
De saia dance em ondas.
Veleja o ar.
Embarque no vento.
Rasgue o bilhete e ande.
Sinta o cheiro da terra com os pés descalços.
Peça carona e deixe ir.
Mude a rota e conheça o mar.
Não se vive só de cachoeiras.
Não se sobrevive só de asfalto.
Recolha a chuva e beba.
Com os restos que escorrem se lave.
Seque ao sol.
Ou revire na areia da praia e tome banho de mar.
Tempere a pele.
Salgue os cabelos.
Agarre a crina do cavalo pelo pescoço ou cauda.
Cavalgue o tempo.
Recoste sob a sombra de uma paineira, sobre a grama molhada.
Cubra-se com suas flores.
Sonhe.
Sonhar é viajar.
Conhecer o outro lado por dentro.
O inconsciente.

(GeraldoCunha/2020)

Tempos sombrios


Não é o tempo que está diferente,
Éramos nós os indiferentes.
E ainda somos!
Sempre choveu e o tempo se fechou como de luto.
E para o tempo a tristeza destes dias não é diferente de hoje.
O medo, a insegurança, a dúvida sobre o amanhã aflora os sentimentos.
Nos faz perceber que só temos o hoje.
E como não percebemos isto antes?
O tempo percebeu.
Inventou o passado e o futuro para rir de nós.
Enquanto uma camada cinza redoma nossas cabeças,
Nos tranca com nossos pensamentos no sombrio do solitário.
Jogamos com o tempo, como se fosse o adversário, o rival, o inimigo.
Engano!
Lutamos com nosso reflexo que trêmula na poça d’água.
Indignamos como nossas próprias atitudes medíocres, quase sempre disfarçadas por vis atos nobres.

(GeraldoCunha/2020)

Série títulos : Show de Truman


A emoção nunca acaba na cena final, vai para os créditos e transborda da tela para a vida real, aonde a verdade é nua e crua, sem trilha sonora e sem roteiro definido, um texto decorado cotidianamente, em um cenário em que os personagens surgem do nada e somem como fumaça.

(GeraldoCunha/2020)

POR AQUI


Aqui tudo em paz, na mesma.
Comendo e engordando,
Exercitando e desistindo,
Lavando e passando,
Passando o tempo,
Passando entre o móveis,
Imóveis.
Esquecido e esquecendo,
Lembrando e nostalgizando,
Observando e espreitando,
Trabalhando e esperando,
Lendo e esperando,
Escrevendo e esperando
E esperançando…

(GeraldoCunha/2020)

Palavras


Escreva
As
Palavras
E
Rasgue

Não rasgue
S E R E N I D A D E
Nem
Embole
E
Jogue
Na
Lixeira

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Manual de como batizar um livro


Advertência: o batismo exige algumas preparações e prévia confissão de fé. Se não estiver preparado volte para a gaveta.
Se optar por seguir, siga as instruções:
1. Escolha do nome
1.1 Dê-lhe um nome;
1.1.a. não importa qual, quando muda de país troca-se;
1.1.b. selecione dois ou três nomes, ou mais, ou talvez, coloque em papéis brancos, cortados em retângulos idênticos e jogue num embornal, sacuda e retire um retângulo que será já diferente dos outros pois foi o escolhido;
1.1.c. se não gostou, dê-lhe como nome de batismo “retângulos”.
1.2. Siga em frente.
2. Escolha da madrinha e do padrinho
2.1. Dê preferência para alguém com espírito crítico, mas atenção, olhe onde pisa, perigo: veneno.
2.2. Opte por alguém que vai ressaltar as qualidades do autor e da obra, escondendo do leitor suas imperfeições;
3. A sagração
3.1. Lance como água sobre a testa o nome:
3.1.a. na capa;
3.1.b. nas orelhas;
3.1.c. na lombada;
3.1.d. na folha de rosto;
3.2. corrente às margens das páginas, para que não tenha opção de renegar a escolha.
4. A purificação
4.1. Estará sacramentado.
4.2. O batismo perdoa todos os pecados originais:
4.2.a .do autor;
4.2.b. das personagens;
4.2.c. do leitor.

(GeraldoCunha- produzido para a Oficina de escrita O verbete, a lista, o manual)

Chuva


Gosto dos barulhos da chuva.
Quando leve,
É sinfonia que faz acalmar,
É melodia que embala o pensar,
É fluidez!
Quando forte,
Anuncia-se sem temores,
Causa tremores,
Tanto arrasa quanto limpa!

Gosto da água que cai.
As gotas que batem na janela,
O cheiro da terra molhada vindo de fora,
Convidando-se para entrar,
Escorrem pelo vidro
Procuram frestas
Molham o chão.

São torrentes que escorrem,
Traçando seu próprio caminho,
Invadem sem pedir licença,
Avançam rumo ao lago, ao rio, ao mar,
O pouco que terra não conseguiu drenar.

(GeraldoCunha/2020)

(Colaboração Eliana Cunha)

Série Poema de improviso – Indiferença


Todos cuspindo sentimentalidades
Trancados nos seus mundinhos.
Todos surdos pelo egoísmo
Traem os próprios sentimentos.
Todos clamando por visibilidade
Tapam os olhos para o sofrimento alheio.Todos ingênuos arrogantes
Tentando escapar de suas bolhas.
Todos somos nós implorando atenção
Tiranos no mundo que criamos.
Todos defendendo uma razão
Transfigurada de sensibilidade.
Todos sempre solitários
Tramando uma revolução.

(GeraldoCunha/2020)