Série dedicados – No sopro do tempo

Tudo se modificando tão depressa
No lentamente do tempo
Os anos passam
Um sobre o outro
Entre rosas e bolos
Se acendem
E se apagam
Ao sopro da vela
Rajada de vida
Ventos de sonhos
Desejos em ebulição
Um mundo novo por colorir
Com as cores de sua escolha
Refletindo suas realizações

GeraldoCunha/2021

Dedicado a Gabriela Borges, afilhada querida, pelo seu aniversário.

Presenteamos com que temos de melhor.

Série de improviso – depois de muitos idos

Depois dos cinquenta, e poucos,

Decidi apagar o passado.

Rasgar as páginas, todas…uma a uma:

As bem escritas, as malescritas, as rasuradas, aquelas que ficaram em brancos tons de cinza, principalmente aquelas, e até as censuradas.

Para reescrever uma nova história o melhor é apagar o passado, muito se diz do contrário desta afirmação, para o agora penso por negação, está negação pode!

Vão me desdizer os filósofos, os psicólogos, os analistas e até aquele da mesa ao lado.

Lê-se um livro, fechando o outro.

A mesma técnica aplico ao meu caderno, recém comprado, que vou chamar de vida, não de nova vida, e que não terá prefácio.

(…no improviso tudo pode mudar a qualquer momento!)

GeraldoCunha/2021

Série livros que li – Crônica de uma morte anunciada

Atravessa os instantes das horas

à espera da morte

“Augúrio aziago”

Desatento ao prenúncio

No disse me disse dos testemunhos

O desenrolar dos acontecidos

Como cama vazia

Aconchego de tristeza

Perde-se a cabeça

Entrega-se à primeira paixão

Desonra das carnes

Vingada no arrebatar de facas

No que dizem ser defesa da honra

Oculta a covardia

do olho por olho

do dente por dente

Sem notas de arrependimento

Vida que se despede

Presságio

“nunca houve morte mais anunciada”, disse Gabo

Enquanto o luto veste-se de vermelho

Morre-se sem entender a morte

De facas que escorrem sangue inocente

📖

Obra de Gabriel Garcia Márquez

Na percepção de GeraldoCunha

Os destaques em “ ” são da obra

Prefácio: “O que explica a tragédia que se abateu sobre o protagonista de Crônica de uma morte anunciada?”

Série poesia concreta – em desconstrução

Série palavras ao vento – Voz

Poemas fugidios

Os poemas pularam da gaveta
Encontraram a porta da rua
E sairam a passear
E não foi a primeira vez

Escapando aos pisados
Andaram pelas ruas
À cata dos desavisados
Quebraram a última esquina
Rasgaram em rompante

Sumiram no horizonte
Nunca mais foram vistos
Estavam era fugindo
Desassossegados ao enfurno
lúgubre em que se achavam

Não mais regressaram
Grudaram à parede de outros espaços
Mostrados aos sentimentos dos aturdidos

(GeraldoCunha/2020)

Série PoemaCurto – Coloquial

E aí?
Choveu?
Aí?
Choveu?

Está chovendo!
São os lábios que dizem
Ao sentir do salgar da língua.

(GeraldoCunha/2020)

Fonte vida

Tu carregas em baldes a vida
Catados nas cisternas do teu ser
Do breu despertas o subterrâneo
Traz do profundo as águas
À corda içadas ao sarilho

Não te entregas aos cansaços
Sentes dos suplícios o peso
Despertas com o frescor
Dominas os medos
Da rotina as dores suplanta

Abrandas as poeiras os respingos
Que aos braços fortes escapam
Molhando ao suor
Das idas e vindas
Misturados ao corpo
Secas ao calor do sol

Derramas da fonte sobre o tempo
Espalhas em cacos espelho
Ao debruçar sobre o jarro
Irriga, nutre, alivia

(GeraldoCunha/2020)

Série cotidiano – Beija-flor

Tem um beija-flor na varanda
Todos os dias vem me visitar
Pelas manhãs
No mesmo horário
Entre dez e onze horas
Chego na bancada
E logo vem
Um voo de aproximação
Uma paradinha no ar
Para logo pousar sempre no mesmo galho seco
Por segundos
E voa
O amor vai
Embora

(GeraldoCunha/2020)

Uma saudade

Saudade da meninice
Do riso solto
Da tristeza interrompida no gracejo
Do sem maldade
Do descompromisso espreguiçado
Da pureza do gostar
Da inocência em querer crescer

Saudade é
Cansaço de adulto que bate forte
No turbilhão dos sentimentos gota que se transforma em cachoeira
O sorriso que vai sendo deixado nas idades por não ser cultivado

GeraldoCunha/2020

Série títulos- O diabo de cada dia

Tudo que sai daquela boca
Seria cômico,
Não fosse destruidor.
E os que riem?
São os fantoches.
E os que aplaudem?
São as marionetes.
Fanatismos,
Odeio esta palavra,
Tanto quando desprezo o ódio,
Faz da língua arma,
Cegos os olhos blindados,
Pergunto se a morte dos sonhos é assim.

Lista de romance

Lista de romances

Olhar. A boca. Livro. Um sorriso. Calafrio. Vinho. Uma taça. Outra. Toque. De leve. Rubor. Conchinha. Flerte. Luz. De velas. Pétalas. Por do sol. E luar. O dia todo. E a noite. Uma modinha. Namoradeira. Aquelas de janela. Horizonte. O horizonte. Belo Horizonte. Brisa. Desenho na areia. Que o mar leva. Um passeio. Mãos dadas. Primeiro encontro. Bolo de casamento. Votos. Renovação dos votos. Envelhecer e morrer. Juntos.

Amarração


Você disse que me traria o amor.
Em 7 dias.
Só não disse que ficaria.
No 8º partiria.

O pagamento,
Adiantado.
O resultado,
Garantido.
Sem dinheiro.
Sem volta.

O amor,
O dinheiro,
A esperança,
A confiança!
Sem volta.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Deixe-se levar


Vamos, é a nossa música!
Nós não temos uma música.
Agora temos.
Não sei dançar.
Siga meus pés.
E se eu pisar nos seus?
Eu te carrego pelo salão.
(Um respiro)
Deixe-se levar aos rodopios.
Posso cair.
Eu te seguro no segundo antes do chão.
Mas…
(O corpos se entrelaçam mais forte)
Não tenha medo, entregue-se.
Não tenho.
(Sussurros ao ouvido)
Então feche os olhos.
Já estavam fechados.
Os meus também.
(Suspiros)
(Rodopios)
(Mais rodopios)
(Pausa)
A música parou de tocar.
Mesmo? Não percebi.
Faz mais de uma hora.
Não escutei o tempo parar.
Não abra os olhos.
Deixe-se levar.

(GeraldoCunha/2020)

Recomendo a leitura do poema Nos passos e braços da poesia do amigo poeta mineiro Estevan MATIAZZ do blog Sabedoria do Amor, que surgiu de um delicioso desafio poético.

Série poema curto – Paradoxo


Não ontem
Não mais cedo
Agora
Sou
Uma
Peça
Mínima
Nesta engrenagem
Substituível
Não daqui a pouco
Não amanhã
Agora
Olho
Para
Os lados
Só vejo
As cinzas
Uma semente
Terra
Água

(GeraldoCunha/2020)

Enquanto isso…


Coelhinho da Páscoa não bota ovo
Só esconde os ovos no jardim
E é verdade que são de chocolate
E eu não gosto é do recheio e de Natal

Papai Noel não desce pela lareira
Vem pela porta da frente
Deposita o presente sob a cama
Eu não vi pois estava sonhando

Sonhando com os duendes
Mas eles não vivem nas florestas
Habitam o pote de doces na cozinha
Foi um quem me contou

E eu guardo seu segredo
Em troca de guloseimas
Que a fada dos dentes não me veja
Ou me manda para a terra dos gigantes

E continua …na terra do nunca!

(GeraldoCunha/2020)

Entrelinhas


É o que não foi dito
Entre o começo até o ponto final
Reticências
Frases que evaporaram
Secaram a tinta antes da impressão
Branco, branco, branco
Borrado pensamento

É o silêncio interpretado
Não compreendido
Não compreendido
Interjeição
Que precisa ser explicado
Precisa ser explicado
Interrogação
Entremeio de ausência
Espaço de alucinações

É o espaço do aposto
Em branco
Entre vírgulas
O vazio
E não se entende nada
Não se pede explanação
Fica o não dito pelo dito

É todo o pensar contido
Interrompido
O silêncio das palavras
Um livro de entrelinhas
Entre as linhas o nada
E tantos intérpretes
Sem exclamação

(GeraldoCunha/2020)

Séries experimentações: A resposta


De qual poesia você mais gostou?
– aquela que você ainda não escreveu.
Como assim?
– assim mesmo, aquela que está por vir, que faz você vibrar a cada palavra escrita e eu posso daqui ver os seus olhos brilharem, sentir o calor do sorriso acanhado do lado esquerdo da sua boca. É tímido e lindo. E você nem me percebe, ali no outro canto, a abraçar uma xícara de chá, envolver-me em uma manta a espantar o frio a te admirar.
E eu respondo:
– Percebo, pois você é minha inspiração.
E você responde:
– e você é minha poesia.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- destrutividade


Minha criatividade acabou.
Os últimos suspiros coloquei em um papel, embolei e depositei no saco preto do lixo. Rabisquei as últimas linhas dos restos que restaram do papel picado, papel de árvore plantada e destruída. Desgastei o lápis até onde o tato não podia mais alcançar e guardei como lembrança.
O grafite. Preto, sujando-se os dedos. Para mim, como um pedaço mínimo de carvão que criava, carvão de planta morta, queimada, reduzida a …carvão. Agora uma lembrança, que como todas as outras, será confundida, esquecida.

(GeraldoCunha/2020)