Série sem fôlego – insubordinações

entre a varanda e o quarto derrapam pelos cômodos incômodos os poemas escorregam pelas janelas espreitam pelas frestas ficam caídos no corredor agarram-se na tinta descascada que atormenta a parede sobram poucos que se perdem no escuro da alma assombram misturam-se a tantos outros nestes idos e vindos no friúme dos passos descalços da pedra ao assovio do vento que descuida soprando os restos interrompidos para debaixo da cama repousando o branco da folha amarrotada abrasando no fundo da latrina

(GeraldoCunha/2021)

Série sentimental – olhar de pressa

Não me venha com este olhar de
[pressa
Acusando a falta de tempo
[que não é só sua
Urge o tempo
Urge a lenha que queima
A fogueira da vida arde
[Na pressa dos sem pressa
Se o olhar é de pausa
Não é sobra de tempo
É bom aproveitamento

(GeraldoCunha/2021)

Série poema e imagens – Maré

Um pouco do mar
O navio a balançar
Um pouco de amor
Uma corrente de vento
Uma maresia na face
O suspiro no ar

Meticulosamente o mar
Misteriosamente o amor
A espera do acontecer
Quando o querer é arriscar
Ao som das ondas
É não tentar chegar
Parar no meio do caminho
O silêncio me atordoa
Por isto busco o mar
O som das ondas a balançar

O marujo toca o apito
O golfinho salta a se mostrar
A vista da praia a sereia
De pedra a encantar
É tanto mar
Areia
Céu
Ar
Um vilarejo
Uma cabana
A bandeira a flamejar
As pessoas as passearem
Lagos e pedras
Cachoeiras que se formam
Entre as pedras
Um pouco de mar
Um pouco de praia
Caminhos e trilhas
Mergulho e vista
Pássaros aninhados
Percurso de amor
Percurso de mar
Preciso amar
Preciso ar
Paz
Ar
Mar
Onde o mar ancorar
Âncora de barco
No azul vastidão
Poema e imagens de arquivo pessoal (Ilha de Fernando de Noronha) – GeraldoCunha