Série Títulos: Caverna do Dragão


Os infelizes vivem. Não percebem a felicidade que passa. Enquanto isso gritam e choram. Buscam uma saída sem saberem o que há do outro lado. Só querem fugir. Só querem retornar. São felizes não sabem. Acreditam que a felicidade está lá fora. Insistem na felicidade que ficou no passado. Tentam uma saída para o escape das mazelas. Sempre voltam ao começo. Vivem e não percebem a aventura. Têm medo da felicidade. Do presente e do futuro. Acreditam que ao alcançarem a felicidade serão plenitude. E morrerão tentando ou serão castigados. Não enxergam as recompensas. Seguem infelizes os viventes. Enquanto a felicidade lhes sorri. Sorri para o vazio dos que a buscam. Os infelizes acreditam que a felicidade é o amanhã. Pobres coitados.

(GeraldoCunha/2020)

Porta entreaberta


Não queria estar só.
Timidamente me recolhia,
escondendo atrás das cortinas,
espreitando as frestas das janelas.
Na iminência da proximidade,
sorrateiramente me entranhava
entre as cobertas e ficava ali,
atenciosamente,
prendendo a respiração ofegante,
esperando retornar ao conforto da minha solidão.
Novamente sozinho pensava ter
recuperado minha liberdade,
antes ameaçada,
mas logo percebia que o estar
sozinho não era liberdade
e sim solidão.
E só eu não queria estar.
Impulsivamente eu emergia
daquelas cobertas
que serviam de refúgio e,
ainda ofegante,
abria as cortinas atrás das quais me escondia,
escancarava as janelas,
deixando o ar e sol invadir aquele quarto
e, loucamente,
pedia para você voltar
pela porta entreaberta.

(GeraldoCunha/2017)

Cá fé


(Este café teve a gentil companhia de Eliana Cunha, irmã/amiga e assídua leitora 🙏🏼)

Nas manhãs
Bebida quente
Para aquecer o dia
Uns preferem café
Outros vão de chá
Há aqueles etílicos
Não os julgo
Prefiro café
Que trás fé
Para cá

(GeraldoCunha/2020)

Ciclos


Sou feito de ciclos!
Entre revoltas e conformação,
Vivo!
E disto retiro o que se tem de melhor.

Nos ciclos de revoltas,
Esbravejo o mundo,
Insisto e desisto,
Revejo conceitos,
Expurgo rancores,
Desintoxico!

Nos ciclos de conformação,
Reciclo ideias,
Acomodo pensamentos,
Resignado à ordem,
Reestruturo!

Nos intervalos,
Vivo!
Assim sou constituído,
Ora desconstrução,
Ora reconstrução,
Ser em evolução.
Um apanhado de erros,
Um bocado de acertos,
Vertigem!

(GeraldoCunha/2019)

Histórias de amizade

Como são lindas as histórias de amizade.
Carregadas de sentimentos.
Sufocadas de abraços.
Enlaçadas pela cumplicidade.
Risos, choro, lágrimas,
Choros, riso, lágrimas,
Acúmulos de amores!
Despretensiosos encontros de almas.
Ausência sentida,
Presença exigida,
Distância compreendida!
Inusitadas relações de opostos que se conectam.
Atropelo de erros e acertos
E entre idas e vindas,
A permanência …
Memória das tristezas e alegrias
Avalanche de saudade!

(GeraldoCunha/2019)

Alma gêmea


Não quero pessoas intocáveis, preciso sentir o tato, o cheiro, o sabor e escutar sussurros desassossegados.

Desavergonhadamente quero tocar, cheirar, saborear e silenciar.

Calorosamente quero o toque, o sentir, o saborear e abafar o som da sua voz.

Atrevidamente quero ser tocado, sentido, saboreado e escutado.

Calmamente quero não tatear, não cheirar, não sentir e não escutar, candidamente adormecendo em seus braços.

(GeraldoCunha)

Convite


no meu coração
terá sempre um cantinho para você,
na minha casa
sempre haverá uma xícara de café quentinho,
no meu corpo
reservarei um ombro para secar as lágrimas
no meu pensamento
buscarei as melhores lembranças
no meu abraço
guardarei as alegrias e expulsarei as tristezas
nos meus gestos
desenharei seus traços
nas minhas palavras
ouvirá afeto com sinceridade
no meu convite
a resposta é a reciprocidade

(GeraldoCunha/2019)