Série experimentações: Felicidade boba

(Da série experimentações veja também Senhores dos absurdos)

Acordei ouvindo ‘As long as you love me’. Cantei com Backstreet Boys. Dancei com o vento. Enquanto esquentava a água para o café. As torradas não queimaram. A água não ferveu. Cheirava a pó de café. Torrado e moído na hora. Não era. Mas parecia. Cedendo aos gracejos de ‘Pelados em Santos’. Vi alguém sorrindo no espelho. ‘Very very Beautiful’. Parecia comigo. Mais alegre. Tomei da xícara pelas asas. Sorvidos sabores. E as manhãs já não eram mais as mesmas. Pensei. Perseguem tanto a felicidade. E a felicidade é boba. Dá medo de tão fugaz. Duvidei. Então nem me bilisca. Se for sonho. Não quero acordar.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações: Senhores dos absurdos

Da série experimentações veja também Felicidade boba

Um absurdo vai se sobrepondo ao outro e assim acostumamos com as barbáries. Fingimos uma felicidade plástica. Fazemos piada daquilo que faz o outro chorar. Banalizamos os atos de violência. Rimos risos nervosos de vergonha, defendendo o indefensável, para sobrepor a vontade individual. E fazemos isto em nome da coletividade, vendo com naturalidade os horrores patrocinados pela ganância vendida aos ignorantes iludidos. Anestesiados, fechamos os olhos para as misérias estampadas nas calçadas. Enquanto nosso lixo se acumula nos bueiros em sacolas plásticas, indignamos com desastres ambientais. Gritamos não à violência, no conforto de nossos lares, diante da tragédia anunciada. Ao mesmo tempo repudiamos quem às ruas lutam pelas igualdades. Acreditamos em liberdade, garantida por opressão. Exigimos respeito e não respeitamos um simples cidadão. Somos o absurdo dos absurdos.

(GeraldoCunha/2019)

Série experimentações: Dito pelo não dito


O poeta disse…
Disse?
O poeta?
Disse.
Não!
O poeta não disse…
Não disse?
O poeta?
Disse.
Sim!
Nesse disse
Me disse…
Ficou o dito
Pelo não dito.
E o poeta
Nessa toada
Levou um ‘pito’.

(GeraldoCunha/2019)