Lista de romance

Lista de romances

Olhar. A boca. Livro. Um sorriso. Calafrio. Vinho. Uma taça. Outra. Toque. De leve. Rubor. Conchinha. Flerte. Luz. De velas. Pétalas. Por do sol. E luar. O dia todo. E a noite. Uma modinha. Namoradeira. Aquelas de janela. Horizonte. O horizonte. Belo Horizonte. Brisa. Desenho na areia. Que o mar leva. Um passeio. Mãos dadas. Primeiro encontro. Bolo de casamento. Votos. Renovação dos votos. Envelhecer e morrer. Juntos.

Amarração


Você disse que me traria o amor.
Em 7 dias.
Só não disse que ficaria.
No 8º partiria.

O pagamento,
Adiantado.
O resultado,
Garantido.
Sem dinheiro.
Sem volta.

O amor,
O dinheiro,
A esperança,
A confiança!
Sem volta.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Deixe-se levar


Vamos, é a nossa música!
Nós não temos uma música.
Agora temos.
Não sei dançar.
Siga meus pés.
E se eu pisar nos seus?
Eu te carrego pelo salão.
(Um respiro)
Deixe-se levar aos rodopios.
Posso cair.
Eu te seguro no segundo antes do chão.
Mas…
(O corpos se entrelaçam mais forte)
Não tenha medo, entregue-se.
Não tenho.
(Sussurros ao ouvido)
Então feche os olhos.
Já estavam fechados.
Os meus também.
(Suspiros)
(Rodopios)
(Mais rodopios)
(Pausa)
A música parou de tocar.
Mesmo? Não percebi.
Faz mais de uma hora.
Não escutei o tempo parar.
Não abra os olhos.
Deixe-se levar.

(GeraldoCunha/2020)

Recomendo a leitura do poema Nos passos e braços da poesia do amigo poeta mineiro Estevan MATIAZZ do blog Sabedoria do Amor, que surgiu de um delicioso desafio poético.

Série poema curto – Paradoxo


Não ontem
Não mais cedo
Agora
Sou
Uma
Peça
Mínima
Nesta engrenagem
Substituível
Não daqui a pouco
Não amanhã
Agora
Olho
Para
Os lados
Só vejo
As cinzas
Uma semente
Terra
Água

(GeraldoCunha/2020)

Enquanto isso…


Coelhinho da Páscoa não bota ovo
Só esconde os ovos no jardim
E é verdade que são de chocolate
E eu não gosto é do recheio e de Natal

Papai Noel não desce pela lareira
Vem pela porta da frente
Deposita o presente sob a cama
Eu não vi pois estava sonhando

Sonhando com os duendes
Mas eles não vivem nas florestas
Habitam o pote de doces na cozinha
Foi um quem me contou

E eu guardo seu segredo
Em troca de guloseimas
Que a fada dos dentes não me veja
Ou me manda para a terra dos gigantes

E continua …na terra do nunca!

(GeraldoCunha/2020)

Entrelinhas


É o que não foi dito
Entre o começo até o ponto final
Reticências
Frases que evaporaram
Secaram a tinta antes da impressão
Branco, branco, branco
Borrado pensamento

É o silêncio interpretado
Não compreendido
Não compreendido
Interjeição
Que precisa ser explicado
Precisa ser explicado
Interrogação
Entremeio de ausência
Espaço de alucinações

É o espaço do aposto
Em branco
Entre vírgulas
O vazio
E não se entende nada
Não se pede explanação
Fica o não dito pelo dito

É todo o pensar contido
Interrompido
O silêncio das palavras
Um livro de entrelinhas
Entre as linhas o nada
E tantos intérpretes
Sem exclamação

(GeraldoCunha/2020)

Séries experimentações: A resposta


De qual poesia você mais gostou?
– aquela que você ainda não escreveu.
Como assim?
– assim mesmo, aquela que está por vir, que faz você vibrar a cada palavra escrita e eu posso daqui ver os seus olhos brilharem, sentir o calor do sorriso acanhado do lado esquerdo da sua boca. É tímido e lindo. E você nem me percebe, ali no outro canto, a abraçar uma xícara de chá, envolver-me em uma manta a espantar o frio a te admirar.
E eu respondo:
– Percebo, pois você é minha inspiração.
E você responde:
– e você é minha poesia.

(GeraldoCunha/2020)

Série elos – Amor virtual

Eu daqui, atravesso a tela
E digo dos nossos beijos distantes,
Ausentes dos toques dos lábios.
Mas nosso amor está mais próximo
Das palavras compartilhadas, tecladas, expondo e envolvendo nossos sentidos, nossos sentimentos;
Dos olhares que se encontram refletidos, qual espelho, e se amam intensamente, mais e mais.
Mesmo sendo através do toque do Touch na tela,
Nosso amor resiste e inside por entre os íons e ondas magnéticas do nosso computador.
Porquê, embora sem ainda termos nos tocado e nos encontrado pessoalmente o amor aconteceu!
Como dizem os poetas, quem ama, ama com o coração e ama mesmo e apesar da distância!
Contigo as minhas noites ficam prazerosamente mais longas…
E os meus sonhos mais bonitos!
A “tela” não é capaz de deter o meu bem querer!
Mesmo com uma “janela aberta” de bate-papo, uma imagem na tela, um fone no ouvido, não me bastam pra matar a saudade, a vontade de me conectar a você total e demoradamente … “Amor Virtual!”

este poema é uma parceria entre
@meus_eseus_escritos_ne &
@divagacoes.gcc.geraldocunha

Série experimentações- destrutividade


Minha criatividade acabou.
Os últimos suspiros coloquei em um papel, embolei e depositei no saco preto do lixo. Rabisquei as últimas linhas dos restos que restaram do papel picado, papel de árvore plantada e destruída. Desgastei o lápis até onde o tato não podia mais alcançar e guardei como lembrança.
O grafite. Preto, sujando-se os dedos. Para mim, como um pedaço mínimo de carvão que criava, carvão de planta morta, queimada, reduzida a …carvão. Agora uma lembrança, que como todas as outras, será confundida, esquecida.

(GeraldoCunha/2020)

Sem título


Estive escondido pela vida,
Que quando ressurgi assustei
Aos outros,
A mim.
Quando olhei para trás
E a porta se fechou,
Não tinha como voltar,
Como me esconder.
E já não era o que eu queria.
A cada passo uma luz se acende,
Tremula,
Pisca fraca e vai se fortalecendo.
Sigo, desafiando os que dizem:
– não pode!
– não é capaz!

(Sempre quis fazer um poema sem
Título)

GeraldoCunha

Tempos sombrios


Não é o tempo que está diferente,
Éramos nós os indiferentes.
E ainda somos!
Sempre choveu e o tempo se fechou como de luto.
E para o tempo a tristeza destes dias não é diferente de hoje.
O medo, a insegurança, a dúvida sobre o amanhã aflora os sentimentos.
Nos faz perceber que só temos o hoje.
E como não percebemos isto antes?
O tempo percebeu.
Inventou o passado e o futuro para rir de nós.
Enquanto uma camada cinza redoma nossas cabeças,
Nos tranca com nossos pensamentos no sombrio do solitário.
Jogamos com o tempo, como se fosse o adversário, o rival, o inimigo.
Engano!
Lutamos com nosso reflexo que trêmula na poça d’água.
Indignamos como nossas próprias atitudes medíocres, quase sempre disfarçadas por vis atos nobres.

(GeraldoCunha/2020)

Poema insano


As letras
Escapando
Entre
Os
Dedos.
Uma mancha no papel.
Papel carbono, quem lembra?
Ainda vendem?
As digitais estão espalhadas e ninguém percebe.
Os dedos
Presos
Entre
As teclas.
Mas eu não tenho máquina de escrever.
Foi vendida para pagar a conta de luz.
As letras
Presas
Entre
Os
Dedos.
Continuo no escuro!

(GeraldoCunha/2020)

Estranhos poemas


Tudo que não disse com palavras,
Mas deixou escapar pelo olhar.
O espaço entre as minhas mãos e os seus cabelos.
A fumaça que escapa da xícara, atravessa as narinas e dissipa.
As letras escapando entre os dedos.
A folha que se desprende do galho e pousa suave sobre a página a virar.
A última frase da música ou talvez a primeira, nunca o refrão.
O atrevimento inesperado no memento tão esperado.
O soco, já disseram isto também. O soco!
O risco na parede, direcionado para a janela.
Janelas são poemas prontos, que se renovam todos os dias.
Tudo que pensei no segundo seguinte àquele olhar.
Nenhuma das opções acima, ou todas, exceto uma.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- Manual de como batizar um livro


Advertência: o batismo exige algumas preparações e prévia confissão de fé. Se não estiver preparado volte para a gaveta.
Se optar por seguir, siga as instruções:
1. Escolha do nome
1.1 Dê-lhe um nome;
1.1.a. não importa qual, quando muda de país troca-se;
1.1.b. selecione dois ou três nomes, ou mais, ou talvez, coloque em papéis brancos, cortados em retângulos idênticos e jogue num embornal, sacuda e retire um retângulo que será já diferente dos outros pois foi o escolhido;
1.1.c. se não gostou, dê-lhe como nome de batismo “retângulos”.
1.2. Siga em frente.
2. Escolha da madrinha e do padrinho
2.1. Dê preferência para alguém com espírito crítico, mas atenção, olhe onde pisa, perigo: veneno.
2.2. Opte por alguém que vai ressaltar as qualidades do autor e da obra, escondendo do leitor suas imperfeições;
3. A sagração
3.1. Lance como água sobre a testa o nome:
3.1.a. na capa;
3.1.b. nas orelhas;
3.1.c. na lombada;
3.1.d. na folha de rosto;
3.2. corrente às margens das páginas, para que não tenha opção de renegar a escolha.
4. A purificação
4.1. Estará sacramentado.
4.2. O batismo perdoa todos os pecados originais:
4.2.a .do autor;
4.2.b. das personagens;
4.2.c. do leitor.

(GeraldoCunha- produzido para a Oficina de escrita O verbete, a lista, o manual)

Série experimentações: Coisas que compõem o corpo


O dedão do pé;
A quina da cama;
A unha encravada que doí;
A tatuagem que não fiz;
Ronco;
O peito que bate acelerado;
A vertigem;
A saliva escorrida entre os lábios;
A noite que abandona o sono:
O pensamento!
Não sai pela boca e atordoa.
O peso;
O preço pelo doce que não ficou na vitrine;
Os olhos famintos;
Os cheiros que atravessam a narina;
Engasgo com farelo de pão;
As dores todas;
A insistência em olhar no espelho;
A persistência em esconder os cabelos brancos;
As rugas que sulcam a face;
Os passos…

(GeraldoCunha/2020)

Texto produzindo para a oficina de escrita: O verbete, a lista, o manual”, março/2020.
Novas formas de poetizar

Série experimentações- ERROS


Escrevi
Errei
Rasurei
Apaguei
Rabisquei
Recomecei

Datilografei
Errei
Encobri
Corrigi
Puxei
Conformei

Digitei
Errei
Deletei
Teclei
Gostei
Imprimi

Vivi
Errei
Consertei
Errei
Aceitei
Vivi

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações: Felicidade boba

(Da série experimentações veja também Senhores dos absurdos)

Acordei ouvindo ‘As long as you love me’. Cantei com Backstreet Boys. Dancei com o vento. Enquanto esquentava a água para o café. As torradas não queimaram. A água não ferveu. Cheirava a pó de café. Torrado e moído na hora. Não era. Mas parecia. Cedendo aos gracejos de ‘Pelados em Santos’. Vi alguém sorrindo no espelho. ‘Very very Beautiful’. Parecia comigo. Mais alegre. Tomei da xícara pelas asas. Sorvidos sabores. E as manhãs já não eram mais as mesmas. Pensei. Perseguem tanto a felicidade. E a felicidade é boba. Dá medo de tão fugaz. Duvidei. Então nem me bilisca. Se for sonho. Não quero acordar.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações: Senhores dos absurdos

Da série experimentações veja também Felicidade boba

Um absurdo vai se sobrepondo ao outro e assim acostumamos com as barbáries. Fingimos uma felicidade plástica. Fazemos piada daquilo que faz o outro chorar. Banalizamos os atos de violência. Rimos risos nervosos de vergonha, defendendo o indefensável, para sobrepor a vontade individual. E fazemos isto em nome da coletividade, vendo com naturalidade os horrores patrocinados pela ganância vendida aos ignorantes iludidos. Anestesiados, fechamos os olhos para as misérias estampadas nas calçadas. Enquanto nosso lixo se acumula nos bueiros em sacolas plásticas, indignamos com desastres ambientais. Gritamos não à violência, no conforto de nossos lares, diante da tragédia anunciada. Ao mesmo tempo repudiamos quem às ruas lutam pelas igualdades. Acreditamos em liberdade, garantida por opressão. Exigimos respeito e não respeitamos um simples cidadão. Somos o absurdo dos absurdos.

(GeraldoCunha/2019)

Série experimentações: Dito pelo não dito


O poeta disse…
Disse?
O poeta?
Disse.
Não!
O poeta não disse…
Não disse?
O poeta?
Disse.
Sim!
Nesse disse
Me disse…
Ficou o dito
Pelo não dito.
E o poeta
Nessa toada
Levou um ‘pito’.

(GeraldoCunha/2019)