Série sentimental – Faces do perdido

Depois de todo este tempo
O passado se vai distante
Imagens disformes
Formas perdidas
Rostos sem faces
Névoa
Nada

O futuro não ecoa
Escuridão dos planos
Imersão na ausência
Sem corpos
O Inominável
Breu

O tempo que resta
O agora
E é triste
Tem esperança
E basta
Quando não há

GeraldoCunha/2021

Série poemamínimo – Brasil

Série títulos longos – Desbotadas cores vivas pululantes preenchem o papel invadem vida expulsam os tons pastéis para as bordas

tons pastéis
nas bordas
traçados espaços
definindo limites
régua prisional

tremer das mãos
desafiando os contornos
rompimento

lápis
carrega a cor
salta
para o papel
preenche pontilhados
em miúdos círculos
concêntricos
marejados

em algum momento
as cores
Escapam da tela
tonificam a pele
reverberando vida

GeraldoCunha/2021

Série sem fôlego- Felicidade não se pontua

A felicidade pode estar presa dentro de uma caixinha que se abre ao toque das sensações que envolvida em papel de seda ao abrir exala memória perfumada do que foi cativado e daquilo que o desejo almeja e sem barreiras num instante escapa

(GeraldoCunha/2021)

Série poema curto – flerte noturno

Vou dormir meu sono
Acordar meus sonhos
Flertar com a insônia
Rolar meu travesseiro
De encontro ao peito
Chutar a manta que me descobre
Depois de muito resistir
Abraçar os fantasmas que me visitam

GeraldoCunha/2021

Divagação 86

Tem discussão que para não continuar a única resposta possível é:
– pare! Isso tudo é uma grande bagagem.

(GeraldoCunha/2021)

Série cotidiano – Beija-flor

Tem um beija-flor na varanda
Todos os dias vem me visitar
Pelas manhãs
No mesmo horário
Entre dez e onze horas
Chego na bancada
E logo vem
Um voo de aproximação
Uma paradinha no ar
Para logo pousar sempre no mesmo galho seco
Por segundos
E voa
O amor vai
Embora

(GeraldoCunha/2020)

Divagação 85

Você percebe que o mundo não está bem quando o terapeuta vira seu paciente.

(GeraldoCunha/2020)

Divagação 84


Nos fazem acreditar em coisas que não somos
E quase sempre somos nós que só acreditamos em coisas
Ser… coisa…ser
Nos … desata!
(GeraldoCunha/2020)

Série poema curto – Paradoxo


Não ontem
Não mais cedo
Agora
Sou
Uma
Peça
Mínima
Nesta engrenagem
Substituível
Não daqui a pouco
Não amanhã
Agora
Olho
Para
Os lados
Só vejo
As cinzas
Uma semente
Terra
Água

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- destrutividade


Minha criatividade acabou.
Os últimos suspiros coloquei em um papel, embolei e depositei no saco preto do lixo. Rabisquei as últimas linhas dos restos que restaram do papel picado, papel de árvore plantada e destruída. Desgastei o lápis até onde o tato não podia mais alcançar e guardei como lembrança.
O grafite. Preto, sujando-se os dedos. Para mim, como um pedaço mínimo de carvão que criava, carvão de planta morta, queimada, reduzida a …carvão. Agora uma lembrança, que como todas as outras, será confundida, esquecida.

(GeraldoCunha/2020)

Sem título


Estive escondido pela vida,
Que quando ressurgi assustei
Aos outros,
A mim.
Quando olhei para trás
E a porta se fechou,
Não tinha como voltar,
Como me esconder.
E já não era o que eu queria.
A cada passo uma luz se acende,
Tremula,
Pisca fraca e vai se fortalecendo.
Sigo, desafiando os que dizem:
– não pode!
– não é capaz!

(Sempre quis fazer um poema sem
Título)

GeraldoCunha

Desbotado


Quando você partiu
E foi aos poucos,
Não imaginava
Que o silêncio tinha cor.
A tristeza tem cor desbotada e com respingos.
As lembranças foram-se manchando, perdendo os tons!
O vermelho não era mais vermelho,
O azul tomou-se de um cinza amargurado.
O amarelo, com suas nuanças, já não tinha o brilho que aquecia.
Empalideceu!
E foi assim aos poucos,
Descorando-se.
A voz já não segurava as cores.

(GeraldoCunha/2020)

Estranhos poemas


Tudo que não disse com palavras,
Mas deixou escapar pelo olhar.
O espaço entre as minhas mãos e os seus cabelos.
A fumaça que escapa da xícara, atravessa as narinas e dissipa.
As letras escapando entre os dedos.
A folha que se desprende do galho e pousa suave sobre a página a virar.
A última frase da música ou talvez a primeira, nunca o refrão.
O atrevimento inesperado no memento tão esperado.
O soco, já disseram isto também. O soco!
O risco na parede, direcionado para a janela.
Janelas são poemas prontos, que se renovam todos os dias.
Tudo que pensei no segundo seguinte àquele olhar.
Nenhuma das opções acima, ou todas, exceto uma.

(GeraldoCunha/2020)

Divagação 83


Por onde passo querem curar minhas dores medicando, aplicando terapias, indicando mantras, fazendo orações, quando o que é preciso é só um abraço sincero e um ombro amigo.

(GeraldoCunha/2020)

Divagação 82


Queria apagar todas as poesias.
Mas não se apaga o passado.
Nem o desejo de um futuro melhor.
É só um desalento poético do presente.

(GeraldoCunha/2020)

Divagação 81


Não deixe que o silêncio e a indiferença do outro diante das suas escolhas te defina.
Se foi capaz de fazer escolhas é capaz de minar a indiferença dos outros com seu sucesso pessoal.

Dar tempo ao tempo


(Estou também no Instagram @divagacoesgcc.geraldocunha)

Hoje vou dar um tempo ao tempo
D E S L I G A R E I:
O relógio para não despertar;
O telefone para não incomodar;
A televisão para não clarear.
F E C H A R E I:
A cortina para o sol não entrar;
As caixas da mente para não pensar;
O caderno para não criar.
D E I X A R E I :
O tempo descansar …
Dos ponteiros;
Dos clarões;
Do poeta.

(GeraldoCunha/2020)

Divagação 80

Meus olhos enxergam
Mais do que a mente pode alcançar,
Tropeço nas sombras dos rancores.
Prefiro andar de olhos fechados!

(GeraldoCunha/2019)

Divagação 78

Quando aprendi a estar só, entendi o que é estar sozinho, me acostumei com a solidão e compreendi que nela pode haver felicidade, aconchego e sossego.

(GeraldoCunha/2018)