Série sentimental – Velhice melancólica

Hoje acordei triste,
Manhã daquelas melancólicas.
Pensando nas despedidas
E as mudanças decorrentes.

Envelhecer e ver as pessoas morrendo de velhice entristece.
É o passado que vai sendo desfeito,
Somos nós que vamos deixando de ser futuro, presente e passamos a ser o passado.

Tem manhãs destes desatinos
Em que a nostalgia sacoleja a cabeça.
E eu me pergunto onde estão todos?
Hoje estão nas fotografias esquecidas.

Do colorido que a velhice deveria,
Vejo em preto e branco… fantasmas.
Em câmara lenta envoltos na neblina perambulam.
Circulando entre as cores que já não importam.

Nos olhos tristes a felicidade roubada.
Na boca o sorriso abandonado.
No silêncio a certeza de que o mundo está ficando surdo.
GeraldoCunha/2021

Série cotidianos- Outrora

O poeta repousa em versos
dispensados sobre a mesinha ao lado da poltrona.
Descansa as letras no escuro da madeira.
Afaga com as costas as almofadas que resistem
para logo cederem.

Os olhos se voltam para o Belo
Horizonte que invade pela janela,
Atraídos pelos perfumes que perfuram as narinas.
O cheiro do verde, do orvalho que não veio, do vento da chuva que ameaça, da terra adubada,
Traz outrora.

Infância de pés descalços,
Represando os rios deixados pela chuva,
Desafiando a lama que escorrega o corpo,
No inocente do barro lambuzando as vestes,
Respingando na boca,
Provocando risadas entusiasmadas,
No susto ….interrompidas pelo grito
de uma voz carinhosamente irritada.

Dormências lembrando as idades,
Recobro do tempo esquecido no dantes,
Sentindo o presente despertando,
o poeta se espreguiça, sacode os versos,
que pulam para as mãos ainda letárgicas,
Marcando com o dedo por onde a leitura continua.

GeraldoCunha/2021