R E P E T I Ç Ã O


Eu repito as palavras
Repito
As
Palavras
Repito…
Tem ideias que são boas,
E logo não fazem mais sentido!
Repetição…
Ideias sem sentido!
Sentido.
Até que esbarram no papel.
Impregnam nas ranhuras
E sentem,
Nos acentos tônicos,
Nas interjeições,
Nas interrogações,
Até o ponto
É final.

(GeraldoCunha/2020)

A cidade dorme


Entrego-me aos devaneios da noite
E quando acordo quero voltar a dormir.
Gosto de sentir as dores da noite,
Que tumultuam meu sono,
Confundindo a realidade dos meus sonhos.
Os seres que me visitam se parecem com as sombras dos dias,
Mas tem asas de demônios,
E olhos de sangramento.
Mas não me aterrorizam tanto quanto os sombrios dos dias,
Disfarçados de anjos sem asas.
São as asas que me incomodam,
Pois podem voar e insistem em ficar por aqui.
Gostam das dores da noite,
Tanto quando eu.

(GeraldoCunha/2020)

Dar tempo ao tempo


(Estou também no Instagram @divagacoesgcc.geraldocunha)

Hoje vou dar um tempo ao tempo
D E S L I G A R E I:
O relógio para não despertar;
O telefone para não incomodar;
A televisão para não clarear.
F E C H A R E I:
A cortina para o sol não entrar;
As caixas da mente para não pensar;
O caderno para não criar.
D E I X A R E I :
O tempo descansar …
Dos ponteiros;
Dos clarões;
Do poeta.

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações: Felicidade boba

(Da série experimentações veja também Senhores dos absurdos)

Acordei ouvindo ‘As long as you love me’. Cantei com Backstreet Boys. Dancei com o vento. Enquanto esquentava a água para o café. As torradas não queimaram. A água não ferveu. Cheirava a pó de café. Torrado e moído na hora. Não era. Mas parecia. Cedendo aos gracejos de ‘Pelados em Santos’. Vi alguém sorrindo no espelho. ‘Very very Beautiful’. Parecia comigo. Mais alegre. Tomei da xícara pelas asas. Sorvidos sabores. E as manhãs já não eram mais as mesmas. Pensei. Perseguem tanto a felicidade. E a felicidade é boba. Dá medo de tão fugaz. Duvidei. Então nem me bilisca. Se for sonho. Não quero acordar.

(GeraldoCunha/2020)

Poema falso


Minha tristeza é fingimento
Assim como é minha alegria
Disfarço-me de dor para suportar
Pinto o rosto para me esconder
E a lágrima é apenas um borrão
Tinta seca escorrida à mão

Trago no sorriso uma ilusão
Forjada pelos músculos
De quem não quer se mostrar
Mas que se revela no olhar
Confessando a solidão
Dissimulada pela extravagância

Sou essa falsa lembrança
Uma mentira inteira contada
Sem qualquer constrangimento
Que se torna uma e meia verdade
Roupa esquecida no camarim
Aos poucos ficando desbotada

Sujo de histórias o lenço envelhecido
Umedecido não pelas lágrimas
Mas pela farsa que construí
E o que vejo não sou mais eu
Uma palidez sem reflexo na luz
Depois de representar mais um espetáculo

(GeraldoCunha/2019)

Série experimentações: Dito pelo não dito


O poeta disse…
Disse?
O poeta?
Disse.
Não!
O poeta não disse…
Não disse?
O poeta?
Disse.
Sim!
Nesse disse
Me disse…
Ficou o dito
Pelo não dito.
E o poeta
Nessa toada
Levou um ‘pito’.

(GeraldoCunha/2019)

Cores

Gosto das cores.
Amarelo vibrante
E dos tons pastéis,
Gosto de pastel!
Vermelho fogo
E a frieza do cinza.
Gosto da brasa!
Azul celeste
E do azul mar.
Que é verde!
Que é azul!
Sei lá.
Gosto do mar!
E dos corais,
São todas as cores.
E do sem cor,
Que também é cor
E mata a sede!

(GeraldoCunha/2019)