Série sem fôlego – insubordinações

entre a varanda e o quarto derrapam pelos cômodos incômodos os poemas escorregam pelas janelas espreitam pelas frestas ficam caídos no corredor agarram-se na tinta descascada que atormenta a parede sobram poucos que se perdem no escuro da alma assombram misturam-se a tantos outros nestes idos e vindos no friúme dos passos descalços da pedra ao assovio do vento que descuida soprando os restos interrompidos para debaixo da cama repousando o branco da folha amarrotada abrasando no fundo da latrina

(GeraldoCunha/2021)

Série sentimental – cheiro e sabor / ciclos da vida

Tem música com sabor.
Arroz com carne moída,
Fins de tarde em família,
Recordações da infância,
Sítio do Picapau Amarelo!

Tem música com cheiro.
Perfume do primeiro amor,
Amizades incondicionais,
Lembranças da adolescência,
Roda de violão e coca-cola!

Tem música com sabor.
Pão de queijo com linguiça,
Café que acabou de ser coado,
Memórias da juventude,
RPM tocando na vitrola!

Tem música com cheiro.
Flor dama da noite,
Jardim da faculdade,
Reminiscência da mais idade.
Pipoca doce de saquinho!

(GeraldoCunha/2021)

Série listas – É suspiro É saudade

Alegria triste
Riso bobo
Coceira no coração
Frio na espinha
Cheiro bom
Areia no olho
Olhar no nada
Ir querendo ficar
Canção mordida
Abraço vazio
Toque no invisível
Infinito invadido
O mar sem praia

(GeraldoCunha/2021)

Série reciclos- Penas

duras penas
se arrancam
no tempo
não sangram
consomem-se em arte
voejam

assopram
o vento coça o nariz
plúmulas
descansam
sobre planadas
cerdas
aguçam os sentidos

pena
sinto
dos
que
sangram
e não sentem

(GeraldoCunha/2021)

Série poema e imagens – Maré

Um pouco do mar
O navio a balançar
Um pouco de amor
Uma corrente de vento
Uma maresia na face
O suspiro no ar

Meticulosamente o mar
Misteriosamente o amor
A espera do acontecer
Quando o querer é arriscar
Ao som das ondas
É não tentar chegar
Parar no meio do caminho
O silêncio me atordoa
Por isto busco o mar
O som das ondas a balançar

O marujo toca o apito
O golfinho salta a se mostrar
A vista da praia a sereia
De pedra a encantar
É tanto mar
Areia
Céu
Ar
Um vilarejo
Uma cabana
A bandeira a flamejar
As pessoas as passearem
Lagos e pedras
Cachoeiras que se formam
Entre as pedras
Um pouco de mar
Um pouco de praia
Caminhos e trilhas
Mergulho e vista
Pássaros aninhados
Percurso de amor
Percurso de mar
Preciso amar
Preciso ar
Paz
Ar
Mar
Onde o mar ancorar
Âncora de barco
No azul vastidão
Poema e imagens de arquivo pessoal (Ilha de Fernando de Noronha) – GeraldoCunha

Poema coletivo – Janelas & Paisagens (tudo junto e misturado)

Enquanto flores refletem o espelho,
Rústicos traços riscam.
Da janela vejo a riqueza do tempo,
Celeste infinito descerra.
Vejo o azul que desvela,
Pandêmica tarde revela,
A lua vai nascer.
Olho pela janela,
A luz ilumina a bancada,
O medo se perde na paisagem
Do belo e do perfeito.
Todo o mundo fica feliz!
Bateu isso na cabeça …
Velhos umbrais
Arrastam paisagens,
Paineira pintada em aquarela!
A vida pulsante é mais que existir no mundo.
Os animais vão dormir à espera do acordar para outro dia começar.
A criança,
O adulto,
Brincam de versos.
Os pássaros,
Ao buscarem alimento na janela
Alimentam estas almas poéticas.

Criação coletiva de @mcmistturacriativa (Michele Cruz), @vicendron (Virgínia Carvalho), @dudinhaborbacunha (Maria Eduarda), @estevammatiazzi (Estevam Matiazzi), Fernando (do blog Chrosnofer), @divagacoesgcc.geraldocunha (GeraldoCunha), a partir do poema de mesmo título das Séries elos e agora desenhos.

Ficam os agradecimentos a todos.

Séries elos & agora desenhos – Janelas e paisagens

Obrigado a todos que participaram do poema elos.

Poemas de: @mcmistturacriativa (Michele Cruz), @vicendron (Virgínia Carvalho), @dudinhaborbacunha (Maria Eduarda), @estevammatiazzi (Estevam Matiazzi do blog @sabedoriadoamor), Fernando (do blog http://Chrosnofer2.WordPress.com @Chrosnofer2.WordPress.com), @divagacoesgcc.geraldocunha (GeraldoCunha).

Ilustrações: GeraldoCunha

Série poema curto – Refúgio

Quando tudo foi se tornando mais difícil,

As vozes foram se silenciando,

Os ouvidos se distanciando,

Refugie-me na poesia.

Encontrei conforto nas palavras

Que me atordoavam,

Transformei o processo de loucura na minha arte,

Fiz dos poetas meus terapeutas,

Da escrita minha companhia,

Foi onde encontrei abrigo.

O refúgio!

O escape!

GeraldoCunha/2021

Série poesia concreta- FOTOGRAFIA

Série poemamínimo – Brasil

Série dedicados – No sopro do tempo

Tudo se modificando tão depressa
No lentamente do tempo
Os anos passam
Um sobre o outro
Entre rosas e bolos
Se acendem
E se apagam
Ao sopro da vela
Rajada de vida
Ventos de sonhos
Desejos em ebulição
Um mundo novo por colorir
Com as cores de sua escolha
Refletindo suas realizações

GeraldoCunha/2021

Dedicado a Gabriela Borges, afilhada querida, pelo seu aniversário.

Presenteamos com que temos de melhor.

Piração

Respiro inspiração,
Seguro no fôlego as palavras,
Levo no suspiro os desejos.
Exalo os sentimentos!
Contraditórios sentidos…

Piração !

Invento as frases desconexas,
Perturbo os acentos:
Circunflexo,
Arco dobrado,
Em forma de crescente,
Ângulos que se juntam,
Noutra ponta se separam.

Piração !!

Jogo com as letras,
Palavras cruzadas,
Ou se atropelam
Ou derrubo o tabuleiro!
Ninguém marca ponto.
E pronto!

Piração !!!

Provoco os olhos dos incompreensíveis,
Ao regozijo dos meus.
Pisco e as frases aparecem…
Pisco e as frases somem…
Sobrevivem as capturadas no relance.

Piração !!!!

Rabisco o papel com aquarela.
A base é de água, tento mesclar e mancha.
Tudo desaparece no borrão das cores e a sensação é boa.
Ninguém jamais saberá o que foi o poema.

Provocação !!!!!

GeraldoCunha/2021

Série poesia concreta – em desconstrução

Série cotidianos- Lírio da paz

Ontem replantei o jardim. Vasos novos para a varanda. Os antigos, quebradiços, Sufocavam as viventes. Alguns, sem piedade, despencaram, ao susto. Sucumbiram ao atropelo do tempo. Desiludidos lá foram ao chão. Aviso das necessidades. Desplantados e descartados, Terra revolvida, Renovada e fortificada. Plantas desbastadas Raizes aparadas Regalos para a nova morada. Berços preparados Com pedrinhas de drenagem. Replantio: Terra, afago, húmus, afago, planta, afago, água. Um a um… dedicadamente, Os vasos habitados, Ao esquecimento das horas. Lá da sala o lírio da paz observava todo o movimento. É que há poucos dias decidiu que ia florescer. Do lado de fora, valsando entre as folhas da frondosa árvore, O beija-flor, daquele primeiro poema veio ver o acontecer. (GeraldoCunha/2021)

Série palavras ao vento – Voz

Poemas fugidios

Os poemas pularam da gaveta
Encontraram a porta da rua
E sairam a passear
E não foi a primeira vez

Escapando aos pisados
Andaram pelas ruas
À cata dos desavisados
Quebraram a última esquina
Rasgaram em rompante

Sumiram no horizonte
Nunca mais foram vistos
Estavam era fugindo
Desassossegados ao enfurno
lúgubre em que se achavam

Não mais regressaram
Grudaram à parede de outros espaços
Mostrados aos sentimentos dos aturdidos

(GeraldoCunha/2020)

Fonte vida

Tu carregas em baldes a vida
Catados nas cisternas do teu ser
Do breu despertas o subterrâneo
Traz do profundo as águas
À corda içadas ao sarilho

Não te entregas aos cansaços
Sentes dos suplícios o peso
Despertas com o frescor
Dominas os medos
Da rotina as dores suplanta

Abrandas as poeiras os respingos
Que aos braços fortes escapam
Molhando ao suor
Das idas e vindas
Misturados ao corpo
Secas ao calor do sol

Derramas da fonte sobre o tempo
Espalhas em cacos espelho
Ao debruçar sobre o jarro
Irriga, nutre, alivia

(GeraldoCunha/2020)

Enquanto isso…


Coelhinho da Páscoa não bota ovo
Só esconde os ovos no jardim
E é verdade que são de chocolate
E eu não gosto é do recheio e de Natal

Papai Noel não desce pela lareira
Vem pela porta da frente
Deposita o presente sob a cama
Eu não vi pois estava sonhando

Sonhando com os duendes
Mas eles não vivem nas florestas
Habitam o pote de doces na cozinha
Foi um quem me contou

E eu guardo seu segredo
Em troca de guloseimas
Que a fada dos dentes não me veja
Ou me manda para a terra dos gigantes

E continua …na terra do nunca!

(GeraldoCunha/2020)

Fantasminha


Quando criança brincava com meu amiguinho fantasma.
Divertidas manhãs e tardes,
Boas risadas em meio a discussões sem sentido,
Que acabavam em mais risadas.
Eu cresci, ele não!
Eu continuei a brincar, ele não!
Ficou sisudo.
Criança emburrada!
Desmancha o castelinho de cartas,
Toma da minha mão o carrinho, dizendo: – éeee mêuuuu!
Para a brincadeira quando está perdendo nos dados.
Não ri mais das minhas piadas,
Que ainda são muito boas!
Fica parado, estático:
Observa, mas não vê,
Pensa, mas não fala.
Deixa tudo espalhado pelo quarto,
Eu piso, escorrego e não me irrito,
Ponho os brinquedos na caixa e vou dormir!

(GeraldoCunha/2020)

Série experimentações- destrutividade


Minha criatividade acabou.
Os últimos suspiros coloquei em um papel, embolei e depositei no saco preto do lixo. Rabisquei as últimas linhas dos restos que restaram do papel picado, papel de árvore plantada e destruída. Desgastei o lápis até onde o tato não podia mais alcançar e guardei como lembrança.
O grafite. Preto, sujando-se os dedos. Para mim, como um pedaço mínimo de carvão que criava, carvão de planta morta, queimada, reduzida a …carvão. Agora uma lembrança, que como todas as outras, será confundida, esquecida.

(GeraldoCunha/2020)