Flash Back

(série: Ensaios/experimentações – poema produzido na Oficina O Cinema da Escrita)
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A câmara no meio da rua registra. De um lado, botas brancas em foco. Passos nervosos. Dividida a tela, do outro lado, óculos escuros. Em movimentos tensos. O plano é fechado. O sol teima em brilhar. Caminham na mesma direção. De lados opostos do passeio. Cruzam a câmara que se desloca rapidamente. À frente o letreiro anuncia. Love Store – Uma História de amor. Ao fundo já se houve ao piano “theme from love story”. Do lado de fora a trilha sonora é outra. Som dos carros, buzinas, apitos, a criança que chora. Bilhete entregue ao olhar desatento do lanterninha. Cabeça baixa. Agora em plano aberto caminha. Por detrás a cortina vermelha que se fecha. À frente a câmara vai em direção às cadeiras vazias. Na penumbra só uma ocupada. Desfaz-se do lenço que protegia. Senta ao lado, se olham discretamente. Corte para as mãos que se tocam. Alianças esquecidas. Voltam ao passado. A câmara passeia pelas paredes manchadas e do fundo se projeta para a tela. Os protagonistas se beijam. O filme já vai terminar.

(GeraldoCunha/2019)

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Carinho

Também no instagram @divagacoesgcc.geraldocunha
…segunda parte poema (com)sequência.

Eu preciso dos seus carinhos
E não me fale que é carência
É um tanto amor, um tanto a falta

Eu sinto falta dos teus beijos
É que a boca está seca
Sedenta dos teus prazeres

Eu necessito do teu afago
É quando me afogo e gosto
Mergulho na maciez do toque

Eu sinto falta dos teus cheiros
Que entram pelas narinas
Aquecendo e me fazendo delirar

(GeraldoCunha/2019)

Saudade dormida


A saudade fica escondida no coração!
Dormida no travesseiro
Em que repousam as lágrimas,
À espera do refrão.

A saudade rabisca o papel!
Rasurando as partituras,
Enchendo o ar de emoção,
Ecoando nas canções.

A saudade dormida,
Embalada pela canção,
Acalanta o coração,
Faz companhia para solidão.

(GeraldoCunha/2019)

Poema aos Pais


(Não é usual eu fazer poemas de datas comemorativas, mas meu coração pediu e a ele não sei dizer não)

Ah, Pai.
Este olhar de preocupação…Eu sei!
Quando se recebe uma encomenda especial que não vem com manual de instrução:
É carinho, cuidado…proteção.

Ah, Pai.
Este semblante calmo…Eu sei!
Quando quer apresentar o mundo aos poucos, mas como é:
É disfarce para as tristezas que, inevitáveis, virão.

Ah, Pai.
Este sorriso desconfiado…Eu sei!
Quando a alternativa é deixar partir:
É resistência em entregar ao mundo quem tanto protegeu.

Ah, Pai.
Este ar de satisfação…Eu sei!
Quando olha para a frente e vê quem construiu:
É certeza de dever cumprido, medida exata da felicidade.

Parabéns àquele que verdadeiramente honra ser chamado: Pai, Papai, Paizinho, Papito, Painho…Eu sei!
Conheço muitos.

(Homenagem póstuma ao meu Pai)

Se me queres


Se me queres
Só imagem,
Eu sumo!
Viro fumaça.

Se me queres,
Queira por inteiro.
As minhas metades
Não divido!

Se me queres
Só por hoje,
Eu passo!
Vou adiante.

Se me queres,
Queira os dias,
Implore pelas noites,
Engane o tempo!

Se me queres
Por momentos,
Nem venha!
Não sou stories.

Se me queres
Só por um tempo,
Marque a lápis.
A borracha vai apagar!

Se me queres
Por costume
Eu dispenso!
Poupe o tempo.

Se me queres,
Que seja deleite.
Vontade de ficar,
Desejo de voltar!

(GeraldoCunha/2019)

O encontro

Quando você chegou
A cama estava arrumada
Pétalas vermelhas salpicadas
Não que precisasse
Mimos do amor

Quando você ficou
A mesa estava posta
Duas taças dispostas
E o vinho para aquecer
Arroubos da paixão

Quando você se foi
A porta ficou aberta
Para que voltasse
Para que quisesse ficar
Manias do coração

(GeraldoCunha/2019)

Poema da saudade


É como vir à terra como anjo
E ter as asas arrancadas
É não poder regressar
E ficar sem ter sentido

É querer muito e não alcançar
E ter a certeza do nunca
É querer se agarrar ao pouco
E não ter onde segurar

É lutar para não esquecer
E ter as lembranças embaçadas
É sofrer com a ausência
E achar na dor esperança

(GeraldoCunha/2019)

Imagem: Inhotim/Brumadinho-MG