Convite


no meu coração
terá sempre um cantinho para você,
na minha casa
sempre haverá uma xícara de café quentinho,
no meu corpo
reservarei um ombro para secar as lágrimas
no meu pensamento
buscarei as melhores lembranças
no meu abraço
guardarei as alegrias e expulsarei as tristezas
nos meus gestos
desenharei seus traços
nas minhas palavras
ouvirá afeto com sinceridade
no meu convite
a resposta é a reciprocidade

(GeraldoCunha/2019)

Estação partida


Sempre estou pronto para partir.
Não que eu queira ir!
É que não tenho razão para ficar.
As pessoas são estranhas neste lugar.
Falam uma linguagem que não sei decifrar.
E os ouvidos são incapazes de me alcançar.
Dizem que é por ter escolhido a solidão,
Mas se enganam.
Foi a solidāo quem me escolheu!
Não dá para dizer que foi uma opção.
Enquanto espero nesta estação,
Vou observando os que chegam,
E me despedindo dos que antes partem.
Convivendo como posso com os passantes,
Ignorando como devo os que entediam.
Só observando!
Só esperando!
Só esperançando…
Tendo sempre a solidão como companheira,
Mas de quem por tantas vezes quis me divorciar.
E não me julguem!
Sempre procurei um jeito de reconciliar.
Sai perambulando e sem me encontrar,
Voltei para o mesmo lugar,
Sentei na mala e estou a esperar
A hora definitiva de embarcar,
Não que eu queira partir!
É que não pertenço a este lugar!
Fico pensando que é melhor eu voltar,
Mas não sei em qual trem embarcar.
Abraço a companheira e espero.

(GeraldoCunha/2019)

(inspiração: A música Encontros e despedidas de Milton Nascimento e Fernando Brant)

Poema aos Pais


(Não é usual eu fazer poemas de datas comemorativas, mas meu coração pediu e a ele não sei dizer não)

Ah, Pai.
Este olhar de preocupação…Eu sei!
Quando se recebe uma encomenda especial que não vem com manual de instrução:
É carinho, cuidado…proteção.

Ah, Pai.
Este semblante calmo…Eu sei!
Quando quer apresentar o mundo aos poucos, mas como é:
É disfarce para as tristezas que, inevitáveis, virão.

Ah, Pai.
Este sorriso desconfiado…Eu sei!
Quando a alternativa é deixar partir:
É resistência em entregar ao mundo quem tanto protegeu.

Ah, Pai.
Este ar de satisfação…Eu sei!
Quando olha para a frente e vê quem construiu:
É certeza de dever cumprido, medida exata da felicidade.

Parabéns àquele que verdadeiramente honra ser chamado: Pai, Papai, Paizinho, Papito, Painho…Eu sei!
Conheço muitos.

(Homenagem póstuma ao meu Pai)

Mãos de afeto


Toque suave nos cabelos
Negros fios a tocar a pele
Seda a escorrer entre os dedos
Cuidado nos prazeres

Mãos de afeto a deslizarem
Envolvendo de amor a face
Calor perfumado que protege
Percorrendo os sentidos

Toque preciso das mãos
Envolvendo a massa
Adoçando os paladares
Servindo aos sabores

Mãos tocadas em oração
Professando a fé
Suplicando uma graça
Agradecendo por devoção

(GeraldoCunha/2019)

Reflexo


Gosto desta imagem aí do espelho.
Jovem! brincando com suas rugas.
Vaidosa! se escondendo dos cabelos brancos.
Atrevida! meio a caras e bocas.
Dissimulada! escondendo partes.
Envergonhada! disfarçando os medos.

Este reflexo que observa
E no silêncio, mudo diz tanto do que reflete.
Este reflexo que se observa
Não pela perspectiva do outro,
Mas do que propriamente construiu.

Gosto deste reflexo aí do espelho.
Revelador das cicatrizes disfarçadas.
Desnudo das inibições cotidianas.
Observador nos detalhes mínimos.
Honesto na medida exata.
Denunciador mesmo do tempo.

Esta imagem às vezes distorcida.
São os percalços da vida…inevitáveis.
Esta imagem às vezes embaçada.
São as angústias da alma…inquietudes.
Este Eu que se esconde e se mostra!

(GeraldoCunha/2019)

Meu olhar


(Em dezembro/2016 publiquei IMPURO E VIRTUOSO)///…
Se olho para trás é para aprender com meus erros e me alegrar pelos meus acertos,
Meu trunfo é esta história que escrevi,
Com tantos rabiscos, páginas rasuradas e reticências.
Em meu olhar o reflexo de quem sou!

Se olho para o lado é para saber com quem ando e escolher a quem dar a mão.
Meu maior orgulho é ter feito escolhas certas entre tantos equívocos,
Sem que nunca me tivesse faltado uma palavra de apoio.
Em meu olhar o espelho das minhas escolhas!

Se olho para a frente é para não perder o foco e ter um motivo para não querer voltar.
Não dá para insistir em voltar as páginas da vida,
Pois quando uma mão se perde no caminho outra logo se estende.
Em meu olhar a imagem do que construí!

(GeraldoCunha/2018)

Prece ao desalento


(gsotou? veja Réstia de luz)///.
Ao espaço
Para o desalento
Digo que está tudo bem
E tento firme acreditar
Persisto na esperança
Não desisto do sonho
Destruído…
Construo outro

Ao tempo
Da espera
Vou dormir quase sem forças
Para tê-las no dia seguinte
Acordar e não se lembrar
Que fraquejei
E recomeçar…
Perseverando

Ao momento
De reflexão
Penso em não seguir
Se não tenho rumo certo
É perambular
Caminhar até cansar
E não conformado…
Voltar a trilhar

(GeraldoCunha/2018)