O terno


Hoje vesti meu terno tristeza,
Para dignificar minhas lágrimas.
Joguei meu corpo no sofá,
Estático para não me amarrotar.
Estava triste por simples estar
E assim fiquei sem me desalinhar,
Observando os vincos cuidadosamente alinhados.
A tristeza não precisa ser deselegante.
Por descuido não havia lenço no bolso.
Peça antes obrigatória como a alegria,
Ficou esquecida em algum lugar
E as lágrimas não tiveram aonde irem a pousar.
Fizeram-se riacho por secar aos punhos.
Descalços os pés das meias abandonadas,
Como o entusiasmo de outrora,
Que saiu pela porta sem pedir licença e não sabe regresso.
O frio gelo do tempo penetrava
E a barra tipo italiana não segurava.
Dois abotoados botões agarrando a vida.
No profundo da tristeza permanecia,
Mas o que incomodava eram mesmo uns fiapos
Que os dedos indelicados não removiam do termo preto.

(GeraldoCunha/2020)