Esfumaçado


Escrevo esfumaçado
Para esconder a tristeza
Destas mãos trêmulas
A desenhar no papel
Fragmentos da vida
Entre receitas de bolos
E listas de compras
No abandono de uma mesa
Com cinco cadeiras vazias
Que exalam saudade

Minha tristeza só cabe
Nestes curtos espaços
Que o amarelado invadiu
Mas que me cede espaço
Para riscar letras dissonantes
Que a borracha vem e rasura
Esfumaçadas enganam
Mas não se escondem
Passam desapercebidas
Entre gramas, quilos e litros

Letras de saudade
Escritas com vigor
E arrancadas das páginas
Jogadas ao lixo
Transparente
Borradas na memória
Um nome rabiscado

(GeraldoCunha/2020)