Réstia de luz


Réstia de luz

Sem nenhuma esperança, deixei desarrumada a cama.
Sem nenhuma perspectiva, as roupas ficaram espalhadas pelo chão.
Sem nenhuma expectativa, quis as cortinas cerradas.
Sem nenhuma inspiração, os papéis amassados foram atirados ao canto.
Sem nenhuma motivação, debruçei-me sobre a mesa e só fiquei.

Sobre a mesa, fiquei jogado, esperando o inesperado.
Sobre a mesa, além de mim, papéis sem nenhuma expressão.
Sobre a mesa, esquecido sob os papéis, um lápis desapontado.
Sobre a mesa, ainda mantinha os olhos entreabertos.
Sobre a mesa, havia percebido uma réstia de luz.

Com um pouco de entusiasmo, apontei o lápis.
Com um pouco mais de entusiasmo, organizei os papéis.
Com um pouco de entusiasmo, encorajei rabiscos.
Com um pouco mais de entusiasmo, dei forma à imaginação.
Com um pouco de entusiasmo, transformei aquele momento em poesia.

Agora cheio de esperança, ergui-me sobre a mesa.
Agora cheio de perspectiva, pus-me a escrever.
Agora cheio de expectativa, abri as cortinas.
Agora cheio de inspiração, recolhi as roupas espalhadas e estendi o lençol.
Agora cheio de motivação, fiz daquele o meu melhor momento.