Cadê meu analista?

Não me lembro da sua voz

Não escuto mais as vozes, sinto sua falta, as conversas não têm mais sonoridade, a não ser o sussurrar das teclas, nao se houve o sentimento.
As palavras estão frias e não há pontos de exclamação, reticências, interrogações ou símbolos que as devolva o verdadeiro significado.
Significado que podia ser sentido ao longo das breves ou longas conversas ao pé do ouvido, ainda que à distância.
Se antes tinha o aconchego daquela voz amiga para acalmar, dar esperança ou simplesmente confortar, hoje já não tenho.
Se antes tinha a risada, a gargalhada e o soluçar que se seguia a uma piada contada, hoje já não tenho.
Se antes esperava ansioso aquele retardatário a desejar votos de felicidade, hoje já não espero.
Restam umas poucas palavras, economicamente escritas, às vezes substituídas por símbolos, muitas vezes indecifráveis, e com isso teria que me contentar.
Só se ouve o silêncio das vozes, que, uma a uma, vão se perdendo ou sendo substituídas.
Não reconheço mais as vozes.
Sinto sua falta.
Não me contento apenas com o sussurrar das teclas, elas nem sempre são capazes de transmitir o que verdadeiramente estamos sentindo.
(GeraldoCunha/2017)